----- PAGINA 01 -----
Caio Fernando Abreu foi um criador múltiplo, tendo produzido em seus 48 anos de vida contos, novelas, crônicas, poemas, romance, roteiro de cinema e peças de teatro. Considerado um dos principais contistas brasileiros de sua geração (preferia as narrativas curtas), costumava retratar cenários urbanos e fatos sociais, baseando-se em temas do cotidiano. Utilizando linguagem e temáticas próprias, o escritor especializou-se em explorar os sentimentos humanos, muitas vezes proibidos. Seus escritos, em geral breves e repletos de significado, tendem a deixar uma sensação de vazio interior após a leitura, um silêncio que o inconsciente do leitor luta para eliminar, em busca de palavras ou idéias que ficaram perdidas nas entrelinhas.
Publicado em 1982, como continuação a Pedras de Calcutá (1977), Morangos Mofados foi um dos maiores sucessos editoriais da década. Nesta coletânea de contos, focalizam-se personagens socialmente excluídos ou marginalizados por seu comportamento. A obra é dividida em duas partes. A primeira, intitulada O Mofo, é constituída de nove histórias que contemplam a ditadura militar e a repressão à liberdade e ao direito de opinião, escarafunchando sentimentos rejeitados pela sociedade e reprimidos nos indivíduos. Na segunda parte, Morangos, o autor mostra que há solução para os traumas impostos pelas circunstâncias sociais e fornece, em oito contos, um fio de esperança aos personagens, que encontram um sentido para viver.
O mérito de Caio Fernando Abreu, em Morangos Mofados, foi ter revelado, num período em que o Brasil não tinha retomado a democracia, o que faziam e o que sentiam os loucos, os homossexuais e a própria juventude brasileira diante do preconceito da sociedade e da repressão a seus ideais. Morangos não deixa de revelar uma enorme perplexidade diante da falência de um sonho e da certeza de que é fundamental encontrar uma saída capaz de absorver, agora sem a antiga fé, a riqueza de toda essa experiência, observou a crítica cultural Heloísa Buarque de Hollanda em texto publicado no Jornal do Brasil.
Na verdade, Caio Fernando Abreu serviu-se de estados com que lidou em seu cotidiano, como o estranhamento, a solidão, a dor e a marginalização. Nascido em 1948 em Santiago, cidade próxima à fronteira com a Argentina, escreveu seu primeiro conto com 6 anos de idade. Ainda jovem mudou-se para Porto Alegre, onde começou a publicar alguns textos. Abandonou os cursos de letras e artes dramáticas para dedicar-se ao jornalismo e à carreira de escritor. Em 1971, foi preso por porte de drogas. Morou na Europa (Londres, Paris, Estocolmo), onde, para sobreviver, trabalhou como faxineiro, lavador de pratos e modelo fotográfico. De volta ao Brasil, passou os anos de 80 entre São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1994, assumiu publicamente ser portador do vírus da aids, de cujas complicações viria a morrer em 1996, já de volta a Porto Alegre. Nesses últimos anos devotou-se, ao lado da literatura, ao cultivo de seu jardim.