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LITERATURA

Navalha na Carne

Peça mais encenada do dramaturgo Plínio Marcos, envereda pelo universo de personagens marginalizados e sem perspectivas


11/07/2011 16:11
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: Divulgação
Vera Fischer e Jorge Perugorria no filme
Vera Fischer e Jorge Perugorria no filme "Navalha na Carne", de Braz Chediak.

Em 1967, o dramaturgo Plínio Marcos escreveu o texto que seria o mais encenado entre toda a sua produção: Navalha na Carne. Proibida pelo regime militar já nas primeiras leituras dramáticas realizadas em São Paulo, a peça pôde ser levada ao público graças a intervenções da atriz Tônia Carrero. A ação se passa no quarto de um bordel e trata dos conflitos de três personagens: a prostituta Neusa Sueli, seu cafetão, Vado, e o homossexual Veludo. Vado maltrata a ambos e, no fim, é intimado por Neusa a fazer sexo com ela, ameaçado por uma navalha. Ele se nega e a abandona.

Chamada de "Entre Quatro Paredes dos pobres" pelo crítico Décio de Almeida Prado, esta obra parece guardar realmente semelhanças com a peça do francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), em que três personagens, mandados ao inferno, têm de passar a eternidade juntos, encerrados em uma sala. Plínio Marcos mostrava-se, mesmo sem o propósito definido, bastante próximo das melhores tendências de vanguarda. Sua dramaturgia, de natureza engajada em razão do contexto histórico em que produziu boa parte de suas peças, refletia sobre a miséria da sociedade brasileira. Em uma entrevista concedida à revista Isto É, Plínio disse que Navalha na Carne surgiu em um período sadio de criação: "Quando as forças repressoras avançam e a intelectualidade recua, evidentemente instala-se o obscurantismo. Quando as forças repressoras avançam mas encontram resistências firmes na área intelectual, gera-se, então, um clima ótimo para o trabalho de criação. Este período de 1966 a 1968 foi de muita lucidez no Brasil. Foi um período de resistência, talvez até mesmo desordenada. Mas foi um período de lutas contra o obscurantismo".

Para o crítico e ensaísta Anatol Rosenfeld, ao se analisar a linguagem de Navalha na Carne vê-se na peça uma harmonia entre a linguagem extremamente violenta e chocante e a precisão com que as situações são descritas. O conflito intenso se estabelece desde a primeira cena, quando Neusa Sueli, depois de uma noite de trabalho, volta para seu quarto e encontra Vado irritado. Ela é ofendida, sem que o espectador saiba o motivo pelo qual é agredida e espancada. Até o final da trama, haverá uma pequena mudança na ação da prostituta. Veludo seria um personagem auxiliar do conflito entre o casal. Sua presença enfatiza a agressividade de Vado. "Plínio Marcos não intervém nos acontecimentos. Mantém-se na neutralidade do naturalismo, mas deixando entrever claramente que a sua posição moral não se confunde com a de seus personagens. Ele sente por suas criaturas suficiente afinidade para compreendê-las, talvez suficiente piedade para justificá-las, porém nunca as propõe como modelos", escreveu o crítico Décio de Almeida Prado.

Plínio Marcos nasceu em Santos, em 1935. Morreu em 1999, em São Paulo. Entre as inúmeras profissões que exerceu estão a de humorista de rádio, administrador do Teatro de Arena, técnico de televisão, ator e palhaço de circo. Dedicou-se também à prosa de ficção para escapar da ditadura militar. Entre suas melhores peças estão Dois Perdidos numa Noite Suja (1966), Quando as Máquinas Param (1967) e Abajur Lilás (1975).



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