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LITERATURA

Noite na Taverna

Conjunto de contos de Álvares de Azevedo que combinam lirismo e inspiração do fantástico - tornou-se singular no romantismo


Bravo

01/08/2008 17:54

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Divulgação
Edgar Allan Poe

“Noite na Taverna” se aproxima do byronianos e da tradição do conceituado Edgar Allan Poe

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Publicado após a morte de Álvares de Azevedo (1831-1852), a coletânea de histórias curtas Noite na Taverna (1855) é a obra do Romantismo brasileiro que mais se aproxima dos preceitos byronianos: erotismo e morte em constante diálogo. Bastante próxima do gênero dramático (teatral), a narrativa se inicia em uma taverna obscura, em que viajantes - Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann, Johann - contam suas aventuras enquanto bebem, numa atmosfera sombria de lascívia e boemia. Tempo e espaço são difusos, embora as descrições e os nomes dos personagens pareçam remeter a um país estrangeiro. Ao todo, são seis os relatos, todos pautados pelas fantasias que o jovem autor alimentava em sua escola ultra-romântica. Nestes contos predominam cenas de incesto, necrofilia, fratricídio, canibalismo e traição. Há também nesta obra ao menos uma grande referência que a singulariza no panorama do Romantismo brasileiro: a filiação com a literatura fantástica - o que a aproximaria da melhor tradição do americano Edgar Allan Poe (1809-1849).

Em Noite na Taverna, a psicologia tempestuosa de Álvares de Azevedo contrapõe-se ao divagador e idealista do sublime que prepondera em Lira dos Vinte Anos, sobretudo na primeira e terceira partes. A noite é simbólica - como em outras obras do poeta - e reflete a melancolia interior dos personagens. É o ambiente ideal para que os temores e os desejos de cada um dominem a atmosfera, numa identificação de mundo interno com externo, do ser com a natureza, comum ao Romantismo. Surgem, assim, as imagens de violência ou de inspiração satânica e os delírios invariavelmente relacionados à morte: "No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela... Nesse instante ela acordou... Nunca ouviste falar de catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!” (Solfieri). O tom lírico que o autor emprega à narrativa mantém o livro identificado com o Romantismo.

Para parte da crítica, esta é uma obra difusa, que se constrói por acontecimentos que brotam uns dos outros, por meio de associações e pretextos, sem uma ligação interna. Trata-se de um estilo comum aos românticos, que preferem se deter nas particularidades e aprofundá-las, em vez de buscar a síntese em direção ao abstrato, como faziam os escritores do Classicismo. A realidade, assim, se dá por meio da multiplicação de fatos, o que afasta a necessidade de seleção e organização por parte do autor.

Contudo, é possível que a falta de coerência entre as partes do livro se deva ao fato de Álvares de Azevedo ter morrido antes de terminá-lo. Situação semelhante parece acometer Macário (1855), obra fragmentada em que predomina o mesmo ar lúgubre de Noite na Taverna.

Leia mais:
-
LIRA DOS VINTE ANOS
-AS 100 OBRAS ESSENCIAIS DA LITERATURA BRASILEIRA 


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