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LITERATURA

Obra Poética

Poeta ferino e rebelde, Gregório de Matos também escreveu versos líricos de extrema beleza e complexidade


Bravo

01/08/2008 17:30

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Autor desconhecido
Foto: Gregório de Matos em retrato de época

Gregório de Matos em retrato de época

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Apelidado de "Boca do Inferno", Gregório de Matos Guerra nasceu em 1636, provavelmente na Bahia. Estudou com os jesuítas no Brasil e, em 1650, seguiu para a metrópole. Formou-se em direito em Coimbra no ano de 1661. Casou-se, foi magistrado e viveu até 1681 em Portugal, quando, já viúvo, foi obrigado a voltar à pátria.

Na colônia, levou uma vida boêmia: em tavernas e em cantorias, improvisou versos espicaçando "os principais da Bahia". Casou-se novamente, teve filhos e obteve, não obstante os ataques às autoridades, proteção de bispos e governadores. Mas seus desafetos conseguiram forçar sua extradição para Angola, de onde voltou em 1695, um ano antes de morrer, para residir no Recife.

Apesar da notoriedade que o poeta tem hoje no Brasil e em Portugal, sua fama contemporânea foi localizada. A obra permaneceu inédita até 1829, quando Januário da Cunha Barbosa publicou pela primeira vez seus versos numa antologia. Somente em 1881 foi publicada a primeira coletânea satírica. O restante da obra saiu entre 1923 a 1933, em edição desprovida de crítica.

As poesias de Gregório foram conservadas em cópias manuscritas. A questão da atribuição autoral é complicada. Segundo o historiador José Aderaldo Castello e o crítico Antonio Candido, "não se tem notícia de nenhum manuscrito do seu punho, ou qualquer documento que assegure a autenticidade dos textos, que, por isso mesmo, são passíveis de suspeita".

Mais famosos, os versos satíricos fizeram a fama do "Boca", mas a qualidade é irregular. Aliam-se poemas de ocasião, improvisados — cujo alvo do ataque muitas vezes escapa ao leitor moderno —, a poderosos momentos de crítica, às vezes entrando pela via da irreverência e da obscenidade. O início deste soneto, por exemplo: 

Triste Bahia! Oh quão dessemelhante 

Estás, e estou do nosso antigo estado! 

Pobre te vejo a ti, tu a mi emprenhado, 

Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.


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