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LITERATURA

Obra Poética

Poeta ferino e rebelde, Gregório de Matos também escreveu versos líricos de extrema beleza e complexidade


11/07/2011 17:30
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: Wikimedia
Foto: Gregório de Matos em retrato de época
Gregório de Matos em retrato de época

Apelidado de "Boca do Inferno", Gregório de Matos Guerra nasceu em 1636, provavelmente na Bahia. Estudou com os jesuítas no Brasil e, em 1650, seguiu para a metrópole. Formou-se em direito em Coimbra no ano de 1661. Casou-se, foi magistrado e viveu até 1681 em Portugal, quando, já viúvo, foi obrigado a voltar à pátria.

Na colônia, levou uma vida boêmia: em tavernas e em cantorias, improvisou versos espicaçando "os principais da Bahia". Casou-se novamente, teve filhos e obteve, não obstante os ataques às autoridades, proteção de bispos e governadores. Mas seus desafetos conseguiram forçar sua extradição para Angola, de onde voltou em 1695, um ano antes de morrer, para residir no Recife.

Apesar da notoriedade que o poeta tem hoje no Brasil e em Portugal, sua fama contemporânea foi localizada. A obra permaneceu inédita até 1829, quando Januário da Cunha Barbosa publicou pela primeira vez seus versos numa antologia. Somente em 1881 foi publicada a primeira coletânea satírica. O restante da obra saiu entre 1923 a 1933, em edição desprovida de crítica.

As poesias de Gregório foram conservadas em cópias manuscritas. A questão da atribuição autoral é complicada. Segundo o historiador José Aderaldo Castello e o crítico Antonio Candido, "não se tem notícia de nenhum manuscrito do seu punho, ou qualquer documento que assegure a autenticidade dos textos, que, por isso mesmo, são passíveis de suspeita".

Mais famosos, os versos satíricos fizeram a fama do "Boca", mas a qualidade é irregular. Aliam-se poemas de ocasião, improvisados — cujo alvo do ataque muitas vezes escapa ao leitor moderno —, a poderosos momentos de crítica, às vezes entrando pela via da irreverência e da obscenidade. O início deste soneto, por exemplo: 

Triste Bahia! Oh quão dessemelhante 

Estás, e estou do nosso antigo estado! 

Pobre te vejo a ti, tu a mi emprenhado, 

Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.


Muitos críticos têm afirmado que sua obra lírica é superior à satírica. Percebe-se nela uma maior consistência dentro dos parâmetros do barroco português, que sofreu influência do idealismo amoroso da poesia renascentista e da poesia espanhola. O jogo de palavras, típico dos poemas satíricos, aqui se torna instrumento para descrever emoções e contradições complexas. Neste outro soneto, as imagens da rosa, da planta e da nau ganham inesperada reviravolta com a idéia da finitude: 

É a vaidade, Fábio, nesta vida, Rosa, 

que da manhã lisonjeada, 

Púrpuras mil, com ambição dourada, 

Airosa rompe, arrasta presumida. 

É planta, que de abril favorecida 

Por mares de soberba desatada, 

Florida galeota, empavesada, 

Sulca ufana, navega destemida. 

É nau, enfim, que em breve ligeireza 

Com a presunção de Fênix generosa, 

Galhardias apresta, alentos preza: 

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa 

De que importa, se aguarda sem defesa 

Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? 



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