PROCURAR:

Educar para crescer

LITERATURA

Ópera dos Mortos

Obra-prima de Autran Dourado, renovador do romance brasileiro, trata dos embates entre morte e vida, permanência e mudança


Bravo

01/08/2008 19:25

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: UFMG
Foto: O livro é estruturado em blocos narrativos

O livro é estruturado em blocos narrativos

----- PAGINA 01 -----

Considerado um dos renovadores do romance brasileiro, Autran Dourado é normalmente associado à linha do regionalismo introspectivo. Minas Gerais, seu Estado de origem — nasceu em Patos, em 1926 —, é objeto de investigação contínua. Ele imaginou, no sul de Minas, a fictícia cidade de Duas Pontes, onde se passam muitas de suas histórias. Ópera dos Mortos, sua obra mais famosa ao lado de Os Sinos da Agonia (1974), se dá justamente nesse lugar.

O livro, incluído pela Unesco na Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal, conta a história de Rosalina Honório Cota. Última remanescente de sua família, ela vivia praticamente sozinha na companhia de Quiquina, empregada muda. As duas habitavam um sobrado velho e decadente, construído pelos antepassados de Rosalina — o avô, Lucas Procópio, havia erguido a parte térrea, e o pai, João Capistrano, acrescentara o segundo andar. Cada parte da edificação guardava na arquitetura as marcas das personalidades de seus construtores. Rosalina passava os dias fazendo flores de pano entre os relógios parados da casa — cada um desligado no dia da morte dos antigos habitantes. Estava isolada do resto da cidade, cujos habitantes viam na residência um local misterioso e distante. Até que surge o falante empregado Juca Passarinho, que quebra a rotina da casa e se envolve sexualmente com a patroa. Nasce um filho, morto, que é levado da casa pelo pai desconsolado. Rosalina enlouquece e deixa a casa.

A ópera é dos mortos porque eles determinam a vida do sobrado, principalmente a de Rosalina. São eles que regem o curso das coisas, o destino infeliz reservado a seus sucessores. Para o professor Massaud Moisés, “a tensão romanesca é sufocante, as personagens, loucas ou tangidas por forças indiscerníveis, exterminadoras, diabólicas, parecem arquétipos vivos; o tom, porém, é dum realismo simbólico, em que se defrontam o Mito e a História”. Duas Pontes é um microcosmo mineiro e, na visão do crítico Celso Leopoldo Pagnan, caracteriza a decadência do Estado após o ciclo do ouro. A história da família Honório Cota — que se estende por outras obras do autor — abrange o período que vai da República Velha ao Estado Novo, justamente o de uma urbanização crescente.

Do ponto de vista formal, Autran Dourado optou, assim como Graciliano em Vidas Secas, por utilizar o sistema de blocos narrativos. São nove, cada um contado pelo monólogo interior de um narrador diferente — pode ser Rosalina, Juca Passarinho ou até os moradores da cidade, que falam pelo coletivo. Tudo é permeado por um narrador onisciente. A linguagem, de recursos barrocos, contribui para criar uma narrativa elíptica e labiríntica. Há o anseio por captar os sentimentos — como a descrença e a tristeza — tanto no plano individual quanto no coletivo. A atmosfera negativa vem do embate entre o antigo e o novo, o obsoleto e o moderno, os mortos e os vivos, a permanência e a mudança dos valores — este último um tema comum nas obras do autor, como em Uma Vida em Segredo (1964).


Leia mais:
AS 100 OBRAS ESSENCIAIS DA LITERATURA BRASILEIRA


   Realização

   Apoio

rodape
Quem faz    |    |  
Política de Privacidade
rodape direita