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ENTREVISTA

Por dentro da Inconfidência Mineira

O livro “1789”, de Pedro Doria, ao desvendar os bastidores da conspiração, comprova que a melhor história a ser contada é a do Brasil


14/04/2015 11:11
Texto Marion Frank
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Foto: Mauricio Mello
Foto: pedro doria 1789 tiradentes educar para crescer
"O amor à história da nossa terra vem desde pequeno, sempre foi a minha disciplina favorita do colégio. E a nossa história é muito boa de contar, em especial, a da Inconfidência Mineira", diz Pedro Doria

Para escrever 1789 - A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil, lançado em 2014, Pedro Doria gastou sete meses. Apenas. Antes, a montanha de livros e papeis que tinha pesquisado sobre o tema - e que envolvia Minas Gerais, Brasil e Portugal - já estava organizada em um banco de dados. Sim, esse carioca de 40 anos, que reconhece ser "muito disciplinado", criou um software, o que facilitou a produção do livro em si. "Se tivesse de fichar cada paper, jamais conseguiria chegar ao fim", diz Doria, que também escreveu 1565 - Enquanto o Brasil nascia (2012).

Com a linguagem própria de quem há anos segue, com êxito, a carreira de jornalista (Doria, que já editor-chefe de conteúdos digitais de O Estado de S. Paulo, é hoje editor-executivo e colunista do jornal O Globo), 1789 tem leitura estimulante. Quem foi Tiradentes? Que papel teve Tomás Antonio Gonzaga, para muitos, o autêntico líder do movimento? E que Brasil teria surgido, caso os insurretos tivessem vencido? Um país diferente, "... uma república liberal, construída por brasileiros que nada sabiam a respeito", especula o autor. Saiba mais sobre a construção desse importante livro na entrevista a seguir.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. É evidente, desde a primeira linha de "1789", o amor à história do Brasil. Desde quando você tem essa paixão?
Pedro Doria: O amor à história da nossa terra vem desde pequeno, sempre foi a minha disciplina favorita do colégio. E a nossa história é muito boa de contar, em especial, a da Inconfidência Mineira. Aliás, qualquer conspiração é uma história boa de contar, com segredos e amores, o que dá a oportunidade de transformar a história em algo parecido com a literatura.
2. Assim, de chofre, qual seria o grande personagem dessa conspiração?
Pedro Doria: Meu grande personagem? Pessoalmente, não me identifico com nenhum deles, mas há personagens desse episódio que, a um jornalista ou a um escritor, são estupendos! Em minha opinião, o melhor é Tomás Antonio Gonzaga. Porque ele é muito inteligente, muito bem preparado intelectualmente, além de ser extremamente habilidoso, sabendo lidar como ninguém com a burocracia portuguesa - entre os exilados, é o único que se sai mais ou menos bem, logo se aproxima de um rico comerciante português, casa com a filha dele... Enfim, Gonzaga é brilhante. Mas, ao mesmo tempo, não consegue ver um rabo de saia sem ficar perdido...
3. Para muitos historiadores, ele foi a grande liderança do movimento conspiratório...
Pedro Doria: E olhe que há pesquisadores que o consideram uma figura totalmente inocente da conspiração! Ele é de fato fascinante para quem conta essa história porque foi discreto demais... E ainda foi muito elegante durante o julgamento, não teve nem aquela atitude ególatra do Tiradentes, de dizer que fez tudo sozinho, como também não agiu de modo contrário, denunciando todo mundo... Ele consegue ficar no lugar dele, "eu não sabia de nada".
4. E foi um poeta especial para a época, concorda?
Pedro Doria: Claro, tem ainda a sua faceta poética... Basta comparar a poesia dele com a de Cláudio Manoel da Costa e a do Inácio José de Alvarenga Peixoto, outros poetas da época (e que faziam parte do movimento), para saltar à vista o modernismo da poesia dele, algo impressionante - Gonzaga conseguia aproximar as personagens, escrevia sobre pessoas como seres humanos, sem pompa, uma poesia sem a menor afetação.
5. A propósito, também fica evidente, desde os primeiros capítulos, que ele não nutria grande ‘admiração’ por Tiradentes...
Pedro Doria: Sim, ele não morria de amores por Tiradentes. Aliás, tenho a impressão que o Tiradentes foi de fato um chato, aquele tipo que não consegue ficar quieto, faz discurso a toda hora e tudo mais... Embora, de outro lado, fosse um personagem essencial para a conspiração, afinal, tinha a capacidade de se comunicar com todo tipo de gente, ele se envolvia com todas as classes sociais, de escravos aos donos das maiores fortunas da Colônia. Tiradentes sabia se movimentar também com desenvoltura dentro do esquema corrupto de poder, o que aumentava o interesse das pessoas, elas queriam se relacionar com ele... E, obviamente, era inteligente, apesar de ter tido pouca educação formal. Foi um excelente mestre de obras, algo semelhante a ser engenheiro, na época - e ainda conhecia todos os caminhos, legais ou não, das Minas Gerais. Em suma: você não seria capaz de fazer uma revolução em Minas Gerais sem Tiradentes.
6. Mas, afinal, por que Tomás Antonio Gonzaga encasquetava com Tiradentes?
Pedro Doria: O receio que o Gonzaga tinha a respeito de Tiradentes - e nisso, ele não era único - é de ele ser muito indiscreto, falar mais que a boca.
7. A respeito da Inconfidência Mineira, é verdade que ela foi um passatempo intelectual para quem nutria ideias libertárias e só tinha direito a uma vida monótona no interior do País?
Pedro Doria: A Inconfidência foi feita por pessoas de interesses muito distintos. O cônego Vieira da Silva, por exemplo, reconhecido por todos como mente brilhante, aquele que mais conhecia de Revolução Americana nas Minas Gerais, encarava a conspiração como um exercício intelectual, essa é a minha opinião. É possível que tanto o Cláudio (Manuel da Costa) e o (Tomás Antonio) Gonzaga viam a conspiração também dessa forma, ao passo que esse não era o estímulo que movia outras pessoas... Ela era uma questão de poder, casos de (Inácio José de) Alvarenga Peixoto e daqueles de São José e de São João del Rei...

Porque havia dois tipos de rico naquele tempo, no Brasil: a turma da "ciranda financeira", que incluía os contratadores e os coletores de impostos; e a turma que produzia, caso de Alvarenga Peixoto, entre outros. Para essa gente, o anseio era ter outro país para viver, pense no liberalismo do século 18. Ou seja: "eu tenho propriedades e quero ter liberdade para lidar com elas da melhor forma possível, quero fazer prosperar o meu negócio, quero ajudar a desenvolver a economia local...". Agora, na hipótese (remota) de o Visconde de Barbacena (governador de Minas Gerais, entre 1789 e 1797) tivesse considerado a possibilidade de participar da revolução, aí seria um jogo de poder pelo poder, do tipo "quero ser dono de uma terra". E havia ainda um tipo de gente interessada na revolta que não se adapta a nenhum desses casos por uma razão simples: tinham enormes dívidas para pagar, os contratadores, e aquele seria um modo muito interessante de dar calote ao Tesouro português.
8. Que Brasil teria surgido com a Inconfidência Mineira?
Pedro Doria: Seria uma república que não ocuparia o terreno do Brasil atual. Eu não aceito a hipótese de ser tratar de um movimento exclusivamente mineiro. A economia seria baseada na extração do ouro - e como tornar a república sustentável sem uma saída para o mar? E como acreditar que o movimento seria apenas mineiro, se o próprio Tiradentes passa um ano e meio no Rio de Janeiro confabulando, tentando atrair gente para o movimento conspiratório, sempre com a desculpa de ir fazer obras e que nunca saíam do papel? Quando o movimento não acontece em Minas, Tiradentes vai para o Rio e admite a Alvarenga Peixoto "... que vai tentar fazer o levante por lá". Mais: diz que tem contatos e que sabe de todos os movimentos do vice-rei, o que era de fato verdade, Tiradentes sabia que estava sendo seguido pelas autoridades... Enfim, ele pode ter sido imprevidente, mas ele era bem informado, o que lhe permitia certa desenvoltura.
9. São Paulo alinhou com os inconfidentes mineiros?
Pedro Doria: A participação de São Paulo? Eu desconfio da influência da família da Bárbara Heliodora, mulher de Alvarenga Peixoto, paulista até o talo... Ou seja, também havia contatos com os de Minas Gerais, o que me faz pensar em um movimento insurreto também entre paulistas e paulistanos.
10. Trabalhando com a hipótese de o movimento conspiratório ter sido deflagrado, o que teria acontecido a seguir?
Pedro Doria: A minha hipótese, caso essa revolução tivesse sido disparada, é a de que o Rio e São Paulo iriam aderir imediatamente, o vice-rei provavelmente fugiria para a Bahia, que era bastante legalista e próxima de Lisboa. Salvador se tornaria, assim, a capital da colônia portuguesa das Américas. Claro que se trata de uma especulação, mas baseada em fatos.
11. Seria o caso de pensar em Portugal declarando guerra contra o Brasil?
Pedro Doria: Haveria uma guerra, Portugal iria resistir, certamente... Mas, do ponto de vista logístico, fazer uma guerra no Brasil, na época, era muito complicado. Os exércitos mais fortes estavam no Rio de Janeiro, em razão do porto, e em Minas, onde estava a riqueza do império português com a extração do ouro... Imagine, portanto a operação que Portugal teria de fazer para mandar soldados ao Brasil para lutar contra uma gente que estava defendendo o próprio lar! A geografia montanhosa de Minas é muito cruel para quem envia soldados e armas, ou seja, a guerra seria dura, sangrenta. Com o tempo, Portugal perderia essa guerra e teríamos, sim, um país independente.
12. O Brasil representava o "fim do mundo" naquele final de século 17, concorda?
Pedro Doria: Não era assim tão "fim de mundo"... Lembre-se de que o ouro de Minas financiou a construção do império britânico, o que dá uma ideia da quantidade de dinheiro que estava enterrado no solo de Minas Gerais e da relevância desse território para o governo português... Um lugar de gente atualizada em um país distante.
13. Como eram as relações entre Portugal e Inglaterra naqueles tempos e suas consequências para o nosso país?
Pedro Doria: Recapitulemos. Final do século 17, União Ibérica. O duque de Bragança dá um golpe e assume o comando de Portugal, que volta a ser independente. Está paupérrimo e começa uma longa relação de financiamentos, de dependência econômica, com a Inglaterra. Assina uma série de contratos comerciais de exclusividade com os ingleses, o que faz com que boa parte do dinheiro que entra em Portugal é desviada para o tesouro da Inglaterra. Uma fonte de riquezas gigantesca - o império britânico, "aquele onde o sol nunca se põe", começa a ser construído justamente na primeira metade do século 18, ele chega à China! Os navios ingleses não tinham contato com o Brasil, o isolamento era completo por parte dos portugueses - que, a propósito, foram terríveis em seu domínio sobre a nossa terra... Os espanhóis criaram universidades na América espanhola do século 18, havia universidades na América inglesa, havia comércio a partir da visita de navios de vários países em toda a América espanhola... Mas, aqui, não. Nada de universidades, muito menos gráficas. E, em comércio, o Brasil só podia negociar com os próprios portugueses.
14. Não é surpreendente que as ideias libertárias do século 18, apesar do nosso isolamento, tenham chegado tão rápido ao Brasil?
Pedro Doria: Sim, é surpreendente... Mas é preciso pensar que o ouro das Minas Gerais, por sua quantidade, produzia boa parte da riqueza do império português. Era aqui que estavam não apenas algumas das pessoas mais ricas do império, mas também algumas das mentes mais brilhantes, os burocratas mais cultos e talentosos - Portugal precisava ter os melhores cuidando dos seus interesses, das joias da coroa. Era por isso que você encontra excelentes bibliotecas pessoais em Minas Gerais, grande concentração de livros e de cérebros, gente com a melhor formação que o império produzia. Qual a razão? Era onde estava o dinheiro.
15. Houve alguma figura feminina que lhe chamou a atenção ao pesquisar a Inconfidência Mineira?
Pedro Doria: Mulheres? Há historiadores fascinados por Bárbara Heliodora. Eu confesso que fiquei com má vontade, achei que ela era muito interesseira... Era uma mulher lindíssima para a época. E também muito ciosa das suas origens, esnobe, "sou de família bandeirante, fundadora de Minas, sou da nobreza da terra". Agora, também se trata de uma história trágica, ela e o marido (Alvarenga Peixoto) sonharam com tanto poder e tanta riqueza e os dois levaram um tombo enorme, o exílio, ela acabou enlouquecendo, enquanto o marido morreu logo.
16. Após o mergulho nesse período tão marcante da nossa história, de que modo você avalia o movimento insurreto de Minas Gerais?
Pedro Doria: Trago duas convicções da Inconfidência: primeiro, se tivesse dado certo - e quase deu... -, teria originado um país incrivelmente diferente. Sem juízos de valor. A construção de uma república liberal segundo o figurino do século 18. Desconfio que a escravidão seria mantida (assim como foi nos Estados Unidos, a propósito), mas o Brasil teria de inventar, se virar... O primeiro presidente de uma república, George Washington, tomou posse no ano em que a revolução mineira seria disparada. Então, os brasileiros teriam de organizar uma eleição, quem é que tem direito a voto, como é que se faz uma democracia e assim por diante...
17. Teriam de inventar uma república, o seu funcionamento...
Pedro Doria: Exatamente. E o fato de ser obrigado a testar soluções, de a conquista da independência ter acontecido de modo doloroso, envolvendo guerras, fariam deste um País diferente. Mas, o que aconteceu? Quando criamos a república, a fórmula já existia. E mais: a nossa independência foi dada pelo soberano português, não houve um sacrifício. O país seria diferente, melhor ou pior, não dá para ir por aí...
18. E a segunda avaliação sobre a Inconfidência Mineira, qual seria?
Pedro Doria: A de os portugueses terem sido extremamente hábeis. Eles ferraram a elite de uma província, os exílios foram de fato cruéis, é certo, mas souberam poupar outras elites - se tivessem incriminado todo mundo, a revolução seria inevitável! De outro lado, se não tivessem punido ninguém, teriam perdido o controle da situação, enfim, souberam ser enérgicos na medida certa. Mais: eles tiveram tempo de medir o momento certo para dar a independência aos brasileiros, o que aconteceu 20 anos depois. A Inconfidência foi uma espécie de laboratório, o movimento de independência era inevitável, mas que "seja então feito em nossos termos", pensaram os portugueses. E eles conseguiram.

 

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