Considerados por muitos o maior poeta brasileiro vivo, o maranhense Ferreira Gullar teve papel importante no cenário cultural do país da segunda metade do século 20. Aliou-se ao movimento concretista - ao lado de Décio Pignatari e os irmãos Campos - e foi membro do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), onde chegou a publicar literatura de cordel. Escreveu peças de teatro, crônicas, ensaios e hoje colabora para diversas publicações. Seu maior poema é também sua maior obra.
Extenso, híbrido e desafiador, Poema Sujo (1976) traz as memórias de infância e adolescência que o autor passou em São Luís, no Maranhão, onde nasceu, em 1930. Gullar criou-o em Buenos Aires logo após a instauração da ditadura naquele país, receoso de que algo acontecesse contra ele. "Vou ter que escrever essa coisa final, o testamento final, o depoimento final”, disse para si próprio. E explica: "Era a experiência da vida toda; não era só um poema do exílio, mas da memória, da perda, da recomposição do mundo perdido e do amor à vida. Escrevi como poema-limite”. Para o professor Alcides Villaça, trata-se de um fluxo de memória e de alucinação lúcida. A tentativa de reconstituir profundamente uma identidade na busca de uma unidade.
No poema, Gullar vale-se de recursos estéticos de diversas naturezas - muitos deles concretistas - aliados a jogos de som e imagens, como neste exemplo: "nada/ vale/ nada/ vale/ quem/ não/ tem/ nada/ no/ v/ a/ l/ e/ TCHIBUM!!!”. Para o outro poeta, o amigo Vinícius de Moraes, é o trabalho do "poeta-pássaro, que vai baixando e alçando vôo, vendo o que é de ver e de não ver em sua vida: as coisas belas, tristes, injustas e escusas acontecendo em terrível simultaneidade, sujas de vida e de tempo e deixando no espaço da memória a crua e inflexível síntese de sua fotografia, revelada no momento da criação”.
Em Poema Sujo há o desdobramento do sujeito: o primeiro é o que se apresenta junto à imanência dos fatos lembrados, enquanto o segundo analisa esses fatos à luz do presente. É a transição do eu que ultrapassa "o autismo da mitologia infantil para aquele que compreende a condição mais dolorosa de uma consciência concreta das coisas”, ainda segundo Alcides Villaça. E esta consciência é obtida em momentos de epifania, que por sua vez nascem de uma explosão de ritmos e imagens.
Muitos dos temas, termos e expressões presentes no livro são também encontrados em A Luta Corporal (1954) e Dentro da Noite Veloz (1975), o que demonstra uma coerência interna na obra de Gullar. Contudo, aqui a maneira com que trata os conteúdos é singular, unificada ao longo de todo o poema. Quando indagado sobre o porquê do nome, Gullar disse: "Só sei agora, faz pouco tempo: é porque eu pego o que tem de escuro, de sujo, as cadeiras velhas, os armários velhos, e coloco uma luz. Vou até lá embaixo, no fundo, na sujeira, e subo trazendo tudo junto: o que é poesia e o que não é poesia”.
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