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“Eu sinto que em tudo o que eu escrevo transparece a minha ideologia.” O jornalista, dramaturgo e romancista carioca Antonio Callado (1917-1997) sempre esteve vinculado a seu tempo e a suas crenças políticas. Utilizava as reportagens que fazia como fonte para a ficção, na qual deixava clara sua posição de esquerda — mas sem excesso de idealismo.
É o caso de seus dois principais romances, Reflexos do Baile (1976) e, sobretudo, Quarup (1967), a “epopéia do idealismo revolucionário no Brasil” segundo o escritor Mario Curvello. Os conflitos indígenas no Norte, o golpe militar de 1964, a mobilização estudantil, a mudança de postura por parte da Igreja Católica ante as mazelas do país: por meio desses e de outros temas, Callado constrói um vasto painel das tensões de sua época em Quarup — nome do ritual indígena que celebra os mortos e os traz de volta à vida. A história, que começa no início do governo Getúlio Vargas e vai até as primeiras perseguições e torturas impostas pelo regime militar, toma lugar entre as reservas indígenas na região do Xingu. É lá que o protagonista, padre Nando, integra-se à realidade conflituosa que aflige a população local, composta principalmente de índios. A esse cenário somam-se as instabilidades íntimas que atingem o próprio padre. Após ter se entregado ao amor carnal e às drogas, ele se apaixona por Francisca, que o recusa. Aos poucos abdica dos limites da religião, dedicando-se cada vez mais às causas locais.
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