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LITERATURA

O Quinze

Rachel de Queiroz tinha 20 anos quando publicou a obra que, com sua prosa simples e enxuta, virou referência do romance nordestino


11/07/2011 18:19
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: OSCAR CABRAL
Rachel de Queiroz,
Rachel de Queiroz, que desde cedo se diz fã de Eça de Queiroz, Balzac, de Machado de Assis e principalmente Dostoievski

O Quinze, de Rachel de Queiroz, lançado em 1930, quando a autora mal tinha completado 20 anos, "produziu agitação e alguma desconfiança" nas letras brasileiras, segundo Graciliano Ramos. Como podia um romance como aquele, que fixa com naturalidade e sem sentimentalismo o drama da seca, ter sido escrito por mulher, “e mulher nova”? Incrédulo, Graciliano profere: "É pilhéria. Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado".

Mas não era piada. Escrito numa prosa simples e enxuta, mas bastante envolvente, e lançado dois anos após A Bagaceira, de José Américo de Almeida (1887-1980), "o pai de todos", no parecer de Jorge Amado, o livro ajudou a definir o ciclo do romance nordestino - que contou, além de Almeida, de Rachel e de Amado, com o alagoano Graciliano e o paraibano José Lins do Rego.

O romance centra-se na grande seca que abalou o sertão nordestino em 1915 (daí o título). Há duas histórias paralelas, que partem do mesmo ponto e voltam a unir-se: a trajetória da família de Chico Bento, forçada a emigrar, e o hesitante flerte entre dois jovens herdeiros, a professora Conceição e seu primo Vicente. A severidade da natureza reflete o comportamento bicudo do casal de namorados, para quem um pequeno mal-entendido pode resultar num grande obstáculo. A falta de comunicação entre eles espelha a escassez de água, que mata vegetação, animais e gente. A seca por fim se instala no útero de Conceição, que entrevê a possibilidade de ser  "sempre estéril". Sem maiores pretensões no plano da ação (linear) e no aprofundamento psicológico (mínimo), O Quinze tem o mérito de aderir, pela economia de meios, pelo paralelismo justo, pelas imagens fortes e pela comunhão trágica entre natureza e homem, à prosa vigorosa do romance brasileiro da década de 1930.

Descendente pelo lado materno da família de José de Alencar, Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, em 1910. Quando ainda morava no sertão, na fazenda do Junco, em Quixadá, foi iniciada na literatura, devorando obras de Eça de Queiroz, de Balzac, de Machado de Assis, das "mulheres inglesas", como diz, e sua "grande paixão", Dostoievski, que viria a traduzir. Em 1927 iniciou sua carreira jornalística. Também publicou um folhetim, História de um Nome, e uma peça teatral, Minha Prima Nazaré. Participou, nesta mesma ocasião, do grupo da revista Maracajá, voz do Modernismo cearense.

Simpatizante do Partido Comunista, foi presa em 1930, em sua cidade natal. Na esteira do regionalismo, lançou também João Miguel (1932). Caminho de Pedras (1937) é obra politicamente engajada, enquanto As Três Marias (1939) trafega na via do romance psicológico. Para o teatro, escreveu Lampião (1953) e A Beata Maria no Egito (1958). Tornou-se a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, em 1977. Em 1992, lançou Memorial de Maria Moura, que obteve grande sucesso e foi adaptado para a televisão. Rachel de Queiroz recebeu três grandes prêmios pelo conjunto de obra. Em 2003, morreu em sua rede, dormindo.

 



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