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LITERATURA

Os Ratos

Ao transfigurar o mundo pela ótica de um personagem obsessivo, Dyonélio Machado criou romance expressionista de alta qualidade


11/07/2011 19:19
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: Divulgação
Foto: A obra de Dyonélio é repleta de simbolismos modernos
A obra de Dyonélio é repleta de simbolismos modernos
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Publicado em 1935, Os Ratos rendeu ao gaúcho Dyonélio Machado (1895-1985) o primeiro lugar no prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. O escritor dividiu o galardão com Erico Verissimo, Marques Rebelo e João Alphonsus de Guimaraens. Em uma década marcada por grandes romances dedicados aos dramas das camadas sociais menos favorecidas, Dyonélio transformou Naziazeno Barbosa, atormentado protagonista desse seu romance, em uma das figuras mais marcantes da galeria de personagens desvalidos que povoam a literatura brasileira.

Os Ratos é um romance breve, composto de 28 capítulos curtos que se passam num único dia. Sem cair no naturalismo fácil que explora a degradação e a violência das cidades, Machado consegue um perfeito equilíbrio entre investigação psicológica e descrição social. O autor mostra sensibilidade para retratar um quadro humano próximo ao desespero e para enxertar em sua narrativa elementos que plasmam a febre paranóide e obsessiva de Naziazeno, funcionário público que precisa de 53 mil-réis para pagar a conta do leite e sai pela Porto Alegre do começo do século 20 para cavar o dinheiro.

O crítico literário Davi Arrigucci sugere que o livro une o assunto dos ficcionistas russos do século 19, sobretudo Gogol de O Capote e Dostoiévski, com as tendências de vanguarda do início do século 20. "Desde o começo, o livro chama a atenção pelo modo como apresenta literariamente a realidade através das relações entre a interioridade de Naziazeno e o mundo exterior", diz Arrigucci. Porto Alegre, por exemplo, é deformada pelo prisma quase alucinado do personagem. Segundo o crítico, "a deformação, categoria central da arte expressionista, torna-se um princípio fundamental da construção do romance". A essa perspectiva expressionista aliam-se os elementos fortemente simbólicos do romance, como o leite, cuja falta aciona as andanças do personagem. O leite é a pureza e a perpetuação da vida (Naziazeno tem um filho pequeno, que precisa do leite que o leiteiro quer parar de fornecer), opondo-se aos ratos — cujo ruído parece abrir na mente do protagonista a consciência de que seus problemas estão longe do fim, de que a vida é um lento rói-rói em direção à morte.

Dyonélio Machado diplomou-se em medicina com especialização em psiquiatria. Dedicou-se também ao jornalismo e à política, tendo sido deputado pelo Partido Comunista Brasileiro antes da implantação do Estado Novo. De acordo com a professora Célia Passoni, as atividades profissionais como psiquiatra conferiram-lhe capacidade de observação, o que permitiu mergulhar fundo no interior dos personagens. As atividades de jornalista possibilitaram nascer o cuidado com o estilo: "rápido, certeiro, bem-dosado, tornando-se um mensageiro perfeito e de linguagem clara e simples". Por fim, das suas atividades políticas tornaram-se possíveis as investigações sociais.

Machado estreou na literatura em 1927 com o livro de contos Um Pobre Homem. A seguir, publicou 12 romances, entre os quais Os Ratos (1936), O Louco do Cati (1942) e Desolação (1944).




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