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LITERATURA

Sagarana

Lançado em 1946, primeiro livro de Guimarães Rosa mostra algumas das características que seriam marcantes em sua obra


11/07/2011 18:47
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: ANA BRANCO/Divulgacao
Vladimir Brichta na peça
Vladimir Brichta na peça "Sagarana", adaptação de Evelyn Silva e André Paes Leme
----- PAGINA 01 -----

Estréia literária de Guimarães Rosa, este livro de contos é visto por alguns como um rascunho de Grande Sertão: Veredas. Na verdade, Sagarana é, em si, uma obra-prima. O título consiste num neologismo criado a partir da palavra portuguesa "saga" (história fantástica) e do pospositivo tupi "-rana" (semelhante, parecido); ou seja, sagarana é, literalmente, "algo parecido com uma saga".

Como se vê, a maestria vocabular de Guimarães Rosa, conhecedor e amante de diversos idiomas, presente em toda a sua ficção, transparece desde esta primeira obra. Sagarana está repleta de neologismos, arcaísmos, regionalismos, metáforas, frases quebradas, rica imaginação fabular e uma musicalidade impressionante, expressa por meio de rimas, aliterações, onomatopéias e ritmo cambiante. A obra também se revela uma fusão perfeita do erudito com o popular.

Sagarana compõe-se de nove contos, cada qual dotado de suas próprias peculiaridades. Alguns chegam a fugir da condição de conto, tendendo mais à estrutura de novela, como A Volta do Marido Pródigo e O Burrinho Pedrês.

Neste segundo exemplo, o "idoso, muito idoso" burro Sete-de-Ouros é escolhido como montaria de emergência numa viagem de vaqueiros do major Saulo, que deveriam transportar uma boiada de "quatrocentas e muitas" reses. Durante o trajeto, chove muito e os vaqueiros se distraem contando casos trágicos. Na volta, ocorre uma grande enchente, em que muitos perdem a vida. Dois amigos, porém, um agarrado ao dorso e outro à cauda do frágil burrico, conseguem escapar. A história se desenrola numa atmosfera de grande fatalismo, com as forças da natureza subjugando homens e animais, e contém uma inversão das expectativas: o jumento, que acreditavam ser um quadrúpede imprestável, adquire foros de herói.

A Hora e Vez de Augusto Matraga, o último conto do livro, relata a trajetória de Nhô Augusto, fazendeiro ruim que maltrata a filha e a mulher. Um dia, a mulher foge com outro, levando a filha. Seus capangas também o abandonam para servir a um major inimigo da família. Nhô Augusto pede satisfações ao major e, depois de ser espancado pelos jagunços, é jogado num despenhadeiro. Ressuscitado por um casal de pretos, regenera-se e isola-se na busca da penitência por seus pecados. Fornece abrigo ao bando de Seu Joãozinho Bem-Bem, o mais temido jagunço daquelas bandas. A relação entre os dois caracteriza-se por uma ambivalência entre o bem e o mal, Deus e o Diabo, e degringola-se numa disputa de proporções épicas. Dá-se um duelo. Nhô Augusto alveja Joãozinho Bem-Bem e acaba baleado por ele. O rival sente-se honrado em ser abatido por Matraga. Antes de morrer, pede para que acabem como amigos, e é prontamente atendido por Matraga. "Feito, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem. Mas agora se arrepende dos pecados, e morre logo como um cristão, que é para a gente poder ir juntos...". Depois, "com um sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue", Augusto Matraga também morre. "De seu rosto subia um sério contentamento", diz o narrador. Finalmente, teve sua hora e sua vez.

 



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