A análise psicológica e a prosa de Graciliano Ramos encontram um momento de perfeito equilíbrio no romance São Bernardo (1934). Se a matéria de outra obra do escritor, Vidas Secas, era a carência material de uma família assolada pela seca, neste drama a conquista da propriedade, por outro lado, determinou-se de modo não menos infeliz em um balanço final.
Narrada em primeira pessoa, a história de Paulo Honório é rememorada. Menino que não sabia muito de seus pais, ele trabalhou até os 18 anos na "enxada ganhando cinco tostões por doze horas de serviço"; adulto, foi preso por esfaquear um homem; libertado, dedicou-se a apropriar-se da fazenda São Bernardo, o que conseguiu depois da morte do dono e de emprestar dinheiro ao filho deste; proprietário, casou-se com Madalena, com quem teve um filho. E foi aí que seu verdadeiro drama começou.
Paulo Honório começou a sentir um ciúme doentio da mulher, desconfiando de todos os amigos. Achava que a criança nada tinha de parecido com ele. Desconfiava até do padre. Estava quase louco. À noite, ouvia passos e assobios que acreditava serem sinais. Não dormia. Sua loucura acabou, por fim, levando Madalena ao suicídio. Daí em diante, os negócios da fazenda começaram a andar mal.
Esse exercício de recapitulação biográfica detalha essencialmente o desejo de posse do narrador que o acompanhou a vida toda. O crítico Antonio Candido identificou em Paulo Honório "uma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade". Dessa forma, o protagonista age sempre de forma firme, objetiva e implacável para obter o que quer. Conseguiu a fazenda com frieza e cálculo (o herdeiro de São Bernardo não conseguiu pagar a dívida que fez com Paulo e perdeu as terras); trata os funcionários como coisas, mercadorias; planeja tudo - no comércio e nas relações humanas - baseado em custo e lucro; casa-se com Madalena apenas com o fim de tê-la assim como quis qualquer um de seus bens.
A técnica narrativa de Graciliano Ramos estrutura o romance de modo a fundir narrador e narração. "Totalmente imbricados surgem, à nossa frente, personagem e ação: Paulo Honório nasce de cada ato, mas cada ato nasce por sua vez de Paulo Honório", escreveu sobre a obra o crítico João Luiz Lafetá. Desde o início de São Bernardo, o protagonista compartilha com o leitor o processo de feitura da obra, questiona sobre a linguagem a empregar, a divisão dos capítulos. Esses traços metalingüísticos tornam a obra ainda mais complexa: o estilo pode oferecer pistas para compreender Paulo Honório.
Nessa tragédia rural, o estudo psicológico feito pelo romancista tornou-se um dos mais exemplares da literatura brasileira. "A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste", diz Paulo Honório ao refletir sobre a própria trajetória. O último capítulo, antológico, encerra São Bernardo de modo perturbador: sem conseguir dormir, sozinho, o protagonista faz as contas da existência.
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