Quatro anos após lançar seu romance estruturalmente mais complexo, As Meninas, Lygia Fagundes Telles publicou sua melhor coletânea de contos: Seminário dos Ratos (1977). São 14 narrativas, entre as quais está aquela que dá nome ao livro. Da perspectiva da terceira pessoa, Seminário dos Ratos mostra os preparativos de um encontro entre governo e estrangeiros para discutir a invasão de roedores na cidade. No entanto, em vez de se preocupar com a questão a ser discutida, o moroso e ineficaz responsável pela organização cuida apenas das aparências. Então, repentinamente, os ratos começam a invadir e destruir o local da reunião momentos antes do início.
O tom crítico e fantástico da narrativa -este último presente também no conto As Formigas -mostra uma escritora a par das questões de seu tempo, tanto na forma quanto no tema de sua produção. Ao longo da obra, ela varia a linguagem de acordo com o assunto tratado, mas sem nunca abandonar o estilo coloquial e conciso e a ambigüidade constante. "Um conto pode dar assim a impressão de ser um mero retrato que se vê e em seguida esquece. Mas ninguém vai esquecer esse conto-retrato, se nesse retrato houver algo mais além da imagem estática", disse Lygia em uma entrevista, na época do lançamento do livro, a ninguém menos que Clarice Lispector.
Da mesma forma que nos romances, aqui a maior parte das narrações é feita por mulheres. Algumas delas são meninas ou adolescentes, como em Herbarium e Pomba Enamorada ou Uma História de Amor. A evocação que Lygia faz de imagens da juventude é constante. Há o convívio entre memória e consciência em uma atmosfera em geral intimista. As jovens costumam enfrentar ritos de passagem, que terminam em aprendizados.
Para a professora Roberta Hernandes Alves, é freqüente na obra da escritora a auto-revelação da personagem "por meio de elementos ocultos que se desdobram para revelar a tragédia humana". Tal resultado seria alcançado com a investigação de narradores em primeira pessoa irônicos, ou que não são completamente ingênuos sobre a própria condição. Já os de terceira pessoa assumem uma visão distanciada, mas não menos irônica, sobre a relação do ser humano com a organização da sociedade.
O estilo introspectivo seria responsável, segundo a crítica Nelly Novaes Coelho, pela capacidade de apreensão dos elementos sem forma física -invisíveis e indizíveis -que estão emaranhados nas interações entre personagens e mundo. É um espelho para o leitor, que se vê retratado e é obrigado a se deparar consigo próprio. A decomposição do mundo moral, cujos valores estariam abalados, é o pano de fundo para a descrição em profundidade que Lygia faz de suas personagens. Existe em boa parte das vezes um certo sentimento do trágico, que se traduz numa mensagem de carpe diem a partir do momento em que se aprende a lidar com ele e a utilizá-lo para a construção de valores individuais e sociais. Em Seminário dos Ratos, os personagens passam irremediavelmente por esse processo.
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