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LITERATURA

Serafim Ponte Grande

O pastiche paródico de Oswald de Andrade ataca a literatura bem-comportada e a sociedade repressora


11/07/2011 17:14
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: Álbum de Família
Foto: Retrato de Oswald de Andrade
Retrato antigo de Oswald de Andrade

Figura de destaque do Modernismo, com cujo princípio libertário se identificava plenamente, Oswald de Andrade, ao lado de sua mulher Tarsila do Amaral (1886-1973), ajudou a "mudar o panorama da arte contemporânea no Brasil", na avaliação do crítico Jorge Schwartz. Participou não só do Movimento Pau-Brasil (1924) como também o Movimento Antropofágico (1928), que influenciou a pintura e a literatura e serviu de inspiração a manifestações artísticas posteriores, como o Tropicalismo.

Serafim Ponte Grande (1933), definido pelo poeta e teórico Haroldo de Campos como um "grande não-livro", pode ser visto como auge de sua produção e como aglutinador dos procedimentos artísticos que Oswald preconizava. De fato, na obra o autor radicaliza a proposta de sua ficção anterior, Memórias Sentimentais de João Miramar (1924). Enquanto em Memórias faz uso de técnicas cubistas, com a colagem de frases e cenas, em Serafim esse procedimento mescla-se à arquitetura da obra: o próprio "romance" consiste numa justaposição de diversos estilos e gêneros, que se apresentam com o objetivo de desarticular a noção costumeira de prosa de ficção, de desestabilizar ou problematizar o edifício narrativo. Nesse sentido auto-referente, metalingüístico, Serafim é uma imensa paródia de todos os gêneros.

Por meio da história de um modesto funcionário do serviço sanitário que se transforma em terrorista e, depois, em milionário, Oswald parodia diversas formas romanescas e dramáticas, inclusive as da vanguarda: a prosa sentimental, o teatro bufo, o romance de folhetim, o livro de aventuras, o livro de viagem, o romance policial. Com o uso de trocadilhos e humor (inclusive o escatológico), o autor satiriza ainda outros subgêneros, como a crônica mundana, a subliteratura meditativo-filosofante (o gênero "nova era" da época), o noticioso popular, o texto das homenagens póstumas. Nesse verdadeiro pastiche literário, elaborado numa "estrutura protéica, lábil, de caixa de surpresas", na definição de Haroldo de Campos, o tema principal é o da libertação: seja das normas narrativas tradicionais, seja da sociedade castradora, tíbia, enraizada em valores falidos.

José Oswald de Sousa Andrade nasceu em São Paulo, em 1890, de família abastada. Na Europa, entrou em contato com o Futurismo ítalo-francês. Cursou a faculdade de direito, bacharelando-se em 1919. Travou amizade com Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Guilherme de Almeida, Brecheret, e se tornou grande divulgador do grupo Modernista. Articulou a Semana de Arte Moderna de 1922 e, em 1924, lançou as poesias de Pau-Brasil. Casou-se duas vezes: com Tarsila do Amaral e com Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962). Após perder a fortuna familiar com a quebra da bolsa de Nova York em 1929, aderiu ao Partido Comunista. Em 1937, lançou a peça participante O Rei da Vela e, em 1943 e 1945, os dois volumes de seu romance social Marco Zero. Afastado da política, tentou duas vezes, sem sucesso, obter cadeira na Academia Brasileira de Letras. Morreu em 1954, aos 64 anos. 



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