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LITERATURA

A bruxa boa dos livros infantis

Seu sonho era usar chapéu pontudo para fazer arte à vontade. Hoje, 100 livros e muitas travessuras depois, Tatiana Belinky é uma das principais escritoras infantis do país


16/03/2012 11:37
Texto Cynthia Costa
Educar
Foto: Eduardo Albarello
Foto: Tatiana tem mais de 100 livros publicados
Tatiana tem mais de 100 livros publicados

"Capitu que me desculpe, mas a Emília é a maior heroína literária brasileira". Esta declaração já virou marca registrada de Tatiana Belinky, que acaba de completar 91 anos e também de entrar para a Academia Paulista de Letras. "Nunca imaginei que fossem me indicar, fiquei até um pouco assustada. Mas fui eleita e agora vou à festa da posse. Estou pensando em quem convidar", diverte-se a escritora com o entusiasmo infantil que nutre desde menina, quando queria ser bruxa para praticar travessuras sem receio. Ruth Rocha, sua amiga e membro da Academia, participou do convite, o que a deixou ainda mais lisonjeada.

Outra novidade de Tatiana são seus contos, entre eles "A coruja e a onça", republicados na coleção Ciranda Cirandinha, da Editora Paulus, que reúne grandes autores da literatura infanto-juvenil. Os volumes vêm engrossar a lista já impressionante de mais de 100 livros publicados, sem contar com as muitas traduções de obras-primas assinadas por ela, como dos contos de Hans Christian Andersen e dos Irmãos Grimm. Tatiana foi responsável, ainda, pela primeira adaptação de "O Sítio do Picapau Amarelo" para a TV, veiculada na década de 1950 pela Tupi. Seu marido, Júlio Gouveia, dirigia os episódios. Ganhou, mais tarde, o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano em 1989. Além disso, ao longo de sua carreira, traduziu muitos compatriotas, entre os quais Gogol, Tchekhov e Tolstoi, mas a criança sempre foi seu público favorito. "Tomei conta do meu irmãozinho, que me ensinou metade de tudo que sei sobre crianças. Desde então, minha preferência é falar com os pequenos, e sei falar com eles", declara. 

Ainda hoje, Tatiana é apaixonada por Monteiro Lobato e o coloca acima de todos os outros escritores que se dedicaram ao universo da criança, inclusive estrangeiros. O amor surgiu logo no primeiro contato, quando se mudou de São Petersburgo, à época parte da União Soviética, para São Paulo com sua família. Ela vinha munida de toda a cultura cultivada em casa - a mãe cantava, o pai escrevia poesia - e de três idiomas na ponta da língua (russo, alemão e letão). Logo aprenderia muito bem o português, e o adotou como a língua oficial de sua escrita. Nesta entrevista exclusiva para o Educar para Crescer, Tatiana fala de sua trajetória e da paixão por literatura.

Para ler, clique nos itens abaixo:
Literatura é educação?
Tatiana Belinky : Esta resposta é óbvia! A literatura é importantíssima. É o reino de sua majestade, a palavra. A criança sem literatura não se desenvolve tanto quanto pode. Os livros trazem estética, ética, psicologia, filosofia. Acredito que até brincar com livros, sem necessariamente lê-los, seja saudável. A literatura é um movimento intelectual que nos distingue dos outros animais. Quando converso com uma criança, peço para ela pensar em algo sem palavras. Não existe! A palavra, seja ela dita, seja ouvida, ou seja escrita, é muito forte.
A senhora traduziu grandes autores da literatura mundial. Por que a predileção pela literatura infantil na hora de criar?
Tatiana Belinky : Essa sempre foi a minha preferência. Quando menina, cuidava do meu irmãozinho, que é 10 anos mais novo. Ele me ensinou metade de tudo que sei sobre crianças. Desde então, minha preferência é falar com os pequenos, e sei falar com eles. Além disso, fui uma criança criada em meio a livros, por isso mais do que ninguém sei o quanto é importante ler desde cedo. E livros infantis podem ser admirados por todos. Afinal, dentro de todo adulto inteligente há uma criança que nunca morre.
Como é a sua relação com a tradução?
Tatiana Belinky : Traduzi grandes autores da literatura mundial e o fiz com um respeito muito grande por eles. Traduzir é uma grande responsabilidade. E sempre traduzi livros de autores que admirava, como Tolstoi. A tradução foi fundamental para mim, porque foi assim que comecei a escrever textos para serem publicados. Quando trabalhava com teatro, traduzia e adaptava peças sem parar. Depois veio a TV, e só depois os livros.
Como começou a escrever?
Tatiana Belinky : Primeiro escrevia para a gaveta, só mais tarde para a TV e para livros. Quando era pequena, tinha um diário onde registrava aquilo de que gostava e aquilo de que não gostava. Também comecei a ler muito cedo, aos 4 anos, e a escrever logo depois. Falava muito comigo mesma. Em casa, minha mãe cantava e meu pai escrevia poesia e contava histórias. Ouvir tudo isso foi importante para mim e para os meus irmãos. Depois, quando cheguei ao Brasil, comecei a redigir muitas cartas, pois meus tios e outros parentes haviam ficado em São Petersburgo. Contava para eles minha grande aventura por aqui. Era a época em que eu ainda queria ser bruxa, para poder aprontar. As fadas não podiam fazer maldades. Até hoje coleciono bruxas!
E por que optou pela carreira de escritora?
Tatiana Belinky : Nunca considerei uma carreira, nem uma profissão, e nem fui eu quem foi atrás! Essas coisas todas me aconteceram, nunca procurei nada. Por isso considero quase como um hobby, não como um trabalho. Eu queria conhecer a obra dos grandes escritores, não imitá-los. Mas me convidaram primeiro para traduzir contos de Tchekhov diretamente do russo, pois não havia aqui quem soubesse bem a língua, e até então a maioria das obras era traduzida do inglês e do francês, e não de seus idiomas originais. Foi assim que comecei a escrever oficialmente. Anos depois, quando já adaptava peças de teatro e também teleteatro para a TV Tupi - "O Sítio do Picapau Amarelo" e outros clássicos infantis que adaptava com meu marido, Júlio Gouveia, uma editora da Ática me pediu contos de minha autoria. Cruzei com ela na rua, para ver como as coisas sempre vieram até mim! Eu tinha alguns textos engavetados, mas nunca me tinha passado pela cabeça publicá-los. Pois eles logo publicaram quatro dos cinco que ofereci, entre eles "A Operação do Tio Onofre", que é reimpresso até hoje e está na 14ª edição.
Quais são seus autores favoritos?
Tatiana Belinky : Depois de Monteiro Lobato, meu grande favorito, todos no Brasil mamaram nele, uns com maior êxito, outros com menor. Prefiro não citar. Monteiro Lobato fez literatura para crianças como ninguém. A Emília é minha grande ídola. Admiro também a produção da minha amiga Ruth Rocha. E, claro, os grandes e maravilhosos russos, como Tchekhov e Tolstói, dos quais já traduzi muitos textos.
A senhora gostou desse convite recente para republicar seus contos?
Tatiana Belinky : Claro que gostei! A Paulus me convidou para participar da série "Ciranda Cirandinha", e eu aceitei porque quero estar sempre em contato com crianças. Só que não vou mais a lançamentos, pois estou um pouco cansada. Mas sei que já tenho quatro gerações de admiradores. Adultos que liam as minhas histórias quando pequenos e, claro, os que são pequenos hoje.

 

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