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LITERATURA

Terras do Sem Fim

O amor de Jorge Amado à terra do cacau evidencia-se nesta obra que mescla lirismo poético com denúncia social


11/07/2011 14:54
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: NELSON DI RAGO
Jorge Amado
Terras do Sem Fim foi escrito por Jorge Amado durante seu exílio em Montevidéu

"Eu vou contar uma história, uma história de espantar.” É com esta epígrafe, extraída do romanceiro popular, que Jorge Amado inicia Terras do Sem Fim, concluída durante seu exílio em Montevidéu, em agosto de 1942, e publicada no ano seguinte. O romance, de proporções épicas, narra a formação da zona cacaueira da Bahia, que abrange a região de Ilhéus e Itabuna, com seus conflitos e paixões. Centrada nas disputas entre proprietários rurais pelas terras ainda devolutas do sul da Bahia, a obra faz parte do chamado "ciclo do cacau”, e é uma das mais expressivas do ficcionista baiano. Ao contrário de Gabriela, Cravo e Canela, em que a crítica social aparece camuflada na crônica de costumes, Amado denuncia claramente aqui o patriarcalismo, o clientelismo e a violência do sertão, baseado na lei do mais forte e na demonstração do poder, evidenciando com isso, sem tom panfletário, a injustiça social e a exploração do trabalhador, vítima da ambição dos coronéis sertanejos.

A história tem início com um navio que se aproxima de Ilhéus, trazendo a bordo pessoas ambiciosas e obcecadas com a promessa de enriquecimento fácil na região, até então improdutiva. Os passageiros da embarcação em breve desbravariam a mata a ferro, fogo e sangue para cultivar o cacau. Sequeiro Grande, um trecho da mata ainda intacto, passa a ser o alvo da cobiça dos coronéis, que lutam entre si com todas as armas de que dispõem para conquistá-lo. Advogados eram muito bem-vindos à região. Os coronéis os contratavam para que redigissem um documento falso ("caxixe”) que atestava a posse de determinado pedaço de terra até então pertencente a algum pequeno lavrador. Quando impunha alguma resistência à expulsão, o camponês em geral era perseguido e morto por jagunços tocaiados nas estradas solitárias.

Em Terras do Sem Fim, mais do que em nenhuma outra obra de Amado, percebe-se a pertinência das palavras do escritor Antonio Carlos Villaça: "O poder descritivo de Jorge Amado penetra fundo na alma da gente. Porque há nele um sentido cósmico. O romancista tem um amor pegajoso à terra, a uma terra determinada, à terra do cacau. A terra está no centro de sua obra: a terra com o homem e com o mar”. Com efeito, há aqui uma espécie de humanismo natural, quase telúrico, em que se evidencia a capacidade do romancista em mesclar o realismo bruto com certo romantismo, de narrar uma história real com lirismo poético ao mesmo tempo em que expõe seus ideais políticos na busca de soluções para o problema social.

Terras do Sem fim é o primeiro livro de Jorge Amado que pôde ser vendido livremente, após seis anos de censura, e foi lançado poucos meses depois de o autor ter sido preso (por três meses) por seu envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro e pela oposição que fazia ao Estado Novo de Getúlio Vargas. A obra obteve grande sucesso; virou peça de teatro, filme, novela de rádio e de televisão, quadrinhos. Também foi editada em Portugal e publicada em outras 23 línguas.

 



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