Quando o americano Henry Miller (1891-1980) se mudou para Paris, em 1930, não tinha trabalho fixo nem dinheiro no bolso. Pretendia viver da pena. Acabou entre vagabundos e mendigos, passando fome e divertindo-se com meretrizes. Foi uma das suas fases mais férteis. Nessa década, Miller escreveu Trópico de Câncer (1934), Primavera Negra (1936) e Trópico de Capricórnio (1939), que formam sua primeira trilogia autobiográfica. A segunda, denominada A Crucificação Encarnada e composta dos romances Sexus, Plexus e Nexus, começaria a ser publicada em 1949, quando ele já retornara aos Estados Unidos.
Trópico de Câncer descreve os anos de Miller em Paris. Trata-se de um romance sem enredo, que perambula - como o autor - pelas ruas boêmias de Montparnasse. Seus personagens são garçons, artistas, cafetões e, principalmente, prostitutas. É por meio delas que Miller chega ao grande tema de seu romance: o sexo. Inconformado com a condição de tabu a que o sexo fora relegado pelo romance ocidental, ele dedicou-se como poucos até então ao exame do assunto. Por seu estilo livre, franco e expressivo, Trópico de Câncer causou furor. Elogiado por T. S. Eliot e Ezra Pound, foi proibido nos Estados Unidos até 1961. Miller foi acusado de obscenidade e subversão. Mas o escritor era avesso às discussões políticas, recusando-se a exercer qualquer militância. Sobre Trópico de Câncer disse: "Não é um livro, é um insulto sem fim, uma cusparada na face das artes, um pontapé em Deus, no Amor e na Beleza".
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