Quando Nelson Rodrigues conseguiu encenar sua segunda peça, Vestido de Noiva, em 1943, a crítica reconheceria na obra um marco do teatro brasileiro moderno. A veia literária de Nelson, também cronista e contista, encontrou nesse drama a expressão de uma profunda capacidade de investigação psicológica. O texto trata da história de um triângulo amoroso. Alaíde toma o namorado da irmã, Lúcia, e casa-se com ele. Lúcia fica com o marido da irmã, e os dois formam um complô, que começa a enlouquecer Alaíde. A mulher sai enlouquecida pela rua, é atropelada, e vai parar num hospital, agonizando numa mesa de cirurgia. A peça explora o que se passa na mente da protagonista, visivelmente em delírio. A inovação da obra estava em levar três planos para a cena: o da alucinação, o da memória e o da realidade.
Essa primeira montagem coube ao diretor polonês Zbigniew Ziembinski (1908-1978), e o seu sucesso foi imediato. Nelson Rodrigues chegou a ser saudado como o novo inventor do teatro brasileiro. De fato, o autor provocava um choque na produção teatral brasileira do período. As qualidades do texto impressionam: a fluência e o coloquialismo da fala dos personagens, o jogo com as noções de tempo e espaço, a verossimilhança da história aparentemente incomum, a composição dos ambientes, o grotesco para ferir os ideais de bom gosto.
Sábato Magaldi, crítico de teatro e amigo do dramaturgo, dividiu a obra de Nelson em três categorias: peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas. É nessa primeira que Vestido de Noiva se insere. Para o diretor Luiz Arthur Nunes, profundo conhecedor do repertório rodriguiano, Nelson usa cacoetes do melodrama para traçar uma visão irônica sobre o temperamento carioca. Este uso do melodrama confunde-se, nesta peça, com naturalismo. Para ele, o que surpreende é a baixeza moral das personagens, motivadas por razões egoístas e perversas. O naturalismo estaria em alguns ingredientes que o dramaturgo explora para espantar o gosto médio, como a personagem cheia de varizes. O choque e o estranhamento são elementos freqüentes em toda a obra de Nelson Rodrigues.
"A amargura é o elemento do artista. A amargura dá uma dimensão fantástica ao artista", disse o autor em uma entrevista. Nelson, em resposta à afirmação de que ele seria amargo, sintetizava o sentimento que predominou em sua visão de mundo e, por conseqüência, no destino dos seus personagens. Ele próprio considerava seu teatro desagradável, algo que violava a moral prática e cotidiana. A desconfiança, o ciúme, as obsessões seriam as forças motrizes dessa produção.
A biografia de Nelson Rodrigues foi marcada por uma série de lances trágicos, o que poderia ser tentador para explicar essa sua "amargura". É também autor, entre outras, das peças Toda Nudez Será Castigada (1965), Otto Lara Resende ou Bonitinha, Mas Ordinária (1962) e Valsa No 6 (1951); e, entre outros livros, de Asfalto Selvagem (romance), Menina Sem Estrela (memórias) e A Vida como Ela É. Nascido em 1912, no Recife, morreu em 1980 no Rio, onde passou grande parte de sua vida.