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LITERATURA

A Vida Como Ela É

Publicadas originalmente em coluna de jornal, histórias de Nelson Rodrigues refletem suas obsessões ao retratar o espírito carioca


11/07/2011 17:02
Texto Daniel Schneider e Thiago Minani
Bravo
Foto: JOAO BALLAS/Divulgacao
 Atores da Cia. Paulista de Artes na peça
Atores da Cia. Paulista de Artes na peça "As Noivas de Nelson", inspirada em contos da série "A Vida Como Ela É", com adaptação e direção de Marco Antônio Braz

De 1951 a 1961, Nelson Rodrigues publicou no jornal A Última Hora, de Samuel Wainer, a coluna A Vida Como Ela É.... O trabalho começou em um dos inúmeros momentos de dificuldade para o escritor, que aceitou de bom grado a oferta de Wainer. A princípio, o nome do espaço deveria ser Atire a Primeira Pedra, com uma ficção diária inspirada em uma notícia do caderno policial. Nelson então sugeriu a mudança de título e, aos poucos, passou a criar suas próprias histórias, que surgiam de casos que lhe contavam, da observação dos subúrbios cariocas e de casos de que ouvira falar quando criança.

De certa maneira, o universo teatral rodriguiano se faz presente nos pequenos contos de A Vida Como Ela É. O tema preponderante nas quase 2 mil histórias é o adultério, retratado na sociedade carioca dos anos 50. Os personagens são parte da pequena burguesia, que em geral moravam na Zona Norte, trabalhavam no Centro e, vez por outra, freqüentavam a Zona Sul para corromper-se. Todos vivem em um estado constante de tensão sexual, como se esse fosse o eixo condutor de suas existências. A figura do amante é essencial aos casamentos, praticamente um alicerce das relações matrimoniais. É um tempo em que as vivências sexuais centram-se essencialmente sobre a figura do vestido de noiva e a lua-de-mel, sobretudo para as mulheres.

As situações e os atos tendem na maior parte dos casos ao radicalismo: se há um adultério entre membros da família, por exemplo, todos acabam participando; a mulher que se mata para provar a fidelidade ao amado; o marido que colabora na prostituição da esposa; a mal-amada que só passa a respeitar seu cônjuge após ser espancada na rua. Essas são algumas das cenas presentes em A Vida Como Ela É, que renderam ao dramaturgo a fama de pervertido.

O tom adotado é o da ironia e o do humor, mas sem o escracho. Pelo contrário, a atmosfera geral é melancólica e gélida e se expressa na "tristeza ininterrupta e vital”, como disse o próprio autor quando o acusaram de escrever textos excessivamente negativos. Segundo ele, é um dever participar do sofrimento alheio.

Para construir o painel da monótona vida conjugal cotidiana, Nelson recorre ao prosaísmo dos hábitos, que aparecem retratados sem comedimentos - certos fatos e descrições são quase naturalistas. As gírias, os coloquialismos e a linguagem enxuta e direta colaboram no enredo dinâmico, feito para caber no espaço curto da página de jornal.

Com a publicação da coluna, o dramaturgo tornou-se o jornalista mais famoso do Rio, sobretudo entre o público masculino, o mais interessado leitor daquelas páginas. Também virou quase um personagem, ao qual atribuíam todo tipo de anedotas e excentricidades. Posteriormente, alguns desses contos - sempre dispostos em coletâneas e seleções - foram publicados por diferentes editoras. Outros renderam adaptações para televisão e cinema, como é o caso do filme A Dama do Lotação (1978), inspirado em um texto homônimo da obra e dirigido por Neville de Almeida.



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