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LITERATURA

Viva o Povo Brasileiro

João Ubaldo Ribeiro condensa mais de três séculos de "Anti-História" do Brasil em 700 páginas de prosa vibrante, épica e barroca


Bravo

01/08/2008 16:19

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Oscar Cabral
João Ubaldo Ribeiro

Um dos maiores autores brasileiros atuais, João Ubaldo Ribeiro iniciou sua carreira escrevendo como reporter de jornais baianos

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Um dos poucos, raros, livros fundamentais. Esta é a apreciação do poeta Geraldo Carneiro para Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, um romance épico por excelência, que reconta pouco mais de três séculos de uma anti-história do Brasil.

Centrando sua narrativa na ilha de Itaparica - campo de batalhas indígenas e grandes farras antropofágicas e que foi devastado, no século 17, pela infantaria holandesa -, Ubaldo recria o processo histórico com competência e maestria no exercício da paródia e no uso de diferentes registros - o culto e o popular, o lusitano e o nacional. Segundo o poeta Antonio Risério, a obra pode ser inscrita na linhagem "criativa do barroco tropical brasileiro”. A perspectiva de Ubaldo procede, na maioria das vezes, das camadas populares da sociedade. Diz Risério: "É evidente, ainda, a sua clara consciência do caráter essencialmente conservador do desfecho do processo de independência nacional, que manteve um Bragança na coroa, os negros no cativeiro e os índios, o que restava da nossa indígena brasileira, sob a mira genocida”.

Outra característica da obra é que o divino não está no Deus judaico-cristão, mas no politeísmo nagô-iorubá, com o seu conjunto de orixás. Segundo Risério, o sagrado não vem das naus com suas velas brancas e a cruz vermelha da Ordem de Cristo, "mas dos porões dos navios negreiros que feriram a sensibilidade de Heinrich Heine”, como se pode ver no seguinte trecho, uma fala de Oxóssi, o orixá da mata: "A sorte é incerta e já temo pela hora em que não reste de pé um só dos nossos bravos filhos. Muitas vezes nos bateram as cabeças, cumpriram suas obrigações, deram-nos nossa comida em oferenda. Quem agora me lembrará na madrugada, me dará meu galo e meu cabrito? Quem me saudará à beira da mata? Quem honrará tuas armas, quem fará teus assentamentos, quem te enforcará?”.

Tido como um dos maiores autores brasileiros atuais, João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu em 1941, na casa de seu avô materno, em Itaparica, na Bahia. Aos dois meses de idade, foi levado pela família para Aracaju, em Sergipe, onde passaria a infância. Iniciou-se no jornalismo em 1957, trabalhando como repórter no Jornal da Bahia; mais tarde ingressaria no jornal A Tribuna da Bahia, no qual chegaria ao posto de editor-chefe. Ao lado do cineasta Glauber Rocha, editou revistas e jornais de cultura. Em 1963, escreveu seu primeiro romance, Setembro Não Tem Sentido. Sargento Getúlio, de 1971, foi consagrado como marco do romance brasileiro e virou filme de Hermanno Penna (1983). Em 1984, publicou Viva o Povo Brasileiro, que recebeu o Prêmio Jabuti de romance e o Golfinho de Ouro, do governo do Rio de Janeiro. Participou, ao lado de nomes como Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez, de uma série de nove filmes produzidos pela TV estatal canadense sobre a literatura na América Latina. Entre 1990 e 1991, morou em Berlim, a convite do Instituto Alemão de Intercâmbio.

Tomou posse na Academia Brasileira de Letras em 1994. Entre outros livros, é autor de O Sorriso do Lagarto (1989), A Casa dos Budas Ditosos (1999) e Diário do Farol (2002).

Leia mais:
- AS 100 OBRAS DA LITERATURA BRASILEIRA 

 

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