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Festival da Música Brasileira

Um jogo sobre a história da música popular no Brasil

O Educar para Crescer apresenta

Um jogo sobre a história
da Música Popular Brasileira

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Entre neste show para conhecer melhor os maiores nomes da Música Popular Brasileira do século 20. Clique em cada artista para tentar adivinhar quem é ou a qual movimento pertence e descubra a história daqueles que mudaram o rumo artístico (e até mesmo político) de nosso país! Clique e arraste para navegar pelo palco e bom espetáculo!

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Ary Barroso

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Este gênero do samba tinha como característica as letras que enalteciam o nosso país, o que condizia com a política ideológica de Getúlio Vargas. Estamos falando do...

(A) Samba de Raiz

(B) Samba-exaltação

(C) Samba Mulato

Cartola

Responda

Este sambista foi o responsável pela criação da Estação Primeira de Mangueira e escreveu grandes sucessos, como “O mundo é um moinho”. Estamos falando do...

(A) Cartola

(B) Sílvio Caldas

(C) Paulinho da Viola

Cazuza

Responda

Ídolo do rock na década de 80, ele criou grandes refrões brasileiros, que se repetem até hoje, como “meus heróis morreram de overdose e meus inimigos estão no poder”. Este artista irreverente se chamava...

(A) Lobão

(B) Cazuza

(C) Frejat

Chiquinha Gonzaga
Pixinguinha
Ernesto Nazareth

Responda

Bandolim, violão, flauta, pandeiro e cavaquinho. Esses instrumentos representam tradicionalmente o gênero...

(A) Maxixe

(B) Chorinho

(C) Polca

Chitãozinho e Xororó

Responda

Duplas deste gênero fizeram grande sucesso na década de 80 até hoje. Letras emocionadas e melodias românticas fazem parte do repertório deste gênero, chamado...

(A) Sertanejo-pop

(B) Música de Rodeio

(C) Forró Universitário

Daniela Mercury

Responda

Esta palavra significa “energia” em yoruba (idioma africano), mas também foi usada para designar um gênero musical típico da Bahia, que é o...

(A) Axé

(B) Ijexá

(C) Afoxé

Dorival Caymmi

Responda

Ele foi o maior representante da canção praieira, referindo-se frequentemente ao mar e seus mistérios em suas músicas. Este artista se chama...

(A) Tom Jobim

(B) Vinicius de Moraes

(C) Dorival Caymmi

Carmen Miranda

Responda

Conhecida como “pequena notável”, esta cantora e atriz fez muito sucesso aqui e nos Estados Unidos. O nome dela é...

(A) Elizeth Cardoso

(B) Elis Regina

(C) Carmen Miranda

Elis Regina

Responda

Mesmo não sendo compositora, ela revolucionou o mundo da música com sua voz. A “pimentinha”, como era chamada por Vinicius de Moraes, na verdade se chama...

(A) Maria Bethânia

(B) Nara Leão

(C) Elis Regina

Francisco Alves

Responda

Letras sentimentais, melodias românticas e cantores de rádio com poses de galã. O gênero de samba que tem essas características é o...

(A) Samba-exaltação

(B) Samba-canção

(C) Samba de breque

Geraldo Vandré

Responda

Em plena ditadura militar, artistas manifestavam críticas e insatisfações políticas por meio da música. Este gênero ficou conhecido como...

(A) Canção de Protesto

(B) Canção de Escárnio

(C) Canção de Resistência

Chico Buarque

Responda

Um dos maiores nomes da música popular brasileira, este artista arrancou suspiros e lágrimas de muitas gerações. Sua obra transita entre vários gêneros e temáticas, mas em tudo há o caráter crítico. Estamos falando do...

(A) Chico Buarque

(B) Jorge Versillo

(C) Rogério Duprat

Hermeto Pascoal

Responda

Entregue qualquer objeto na mão dele, e a música vai surgir. Este músico é conhecido mundialmente não só pela sua habilidade de compositor e improvisador, mas também pela exploração sonora. Estamos falando do...

(A) Nelson Freire

(B) Egberto Gismonti

(C) Hermeto Pascoal

Fagner
Alceu Valença
Belchior

Responda

Na década de 70, o declínio da Bossa Nova deu lugar para movimentos artísticos de todo o Brasil. O pop se mescla com as raízes tradicionais da música nordestina neste movimento que se chama...

(A) Novo Nordeste

(B) Mistura Nova

(C) Clima Nordestino

Itamar Assumpção

Responda

Canto falado, produções independentes, experimentações musicais. Na década de 80, paulistas se juntaram no movimento artístico que ficou conhecido como...

(A) Virada Artística

(B) Giro Cultural

(C) Vanguarda Paulistana

Ivan Lins

Responda

Artistas do Rio de Janeiro que, graças a reuniões na casa dos amigos, fizeram parte da história musical de nosso país. Ivan Lins, Aldir Blanc, Gonzaguinha e João Bosco fundaram o MAU, cuja sigla significa...

(A) Mentes Abertas pela União

(B) Mobilização pela Ação Unificada

(C) Movimento Artístico Universitário

Jorge Ben

Responda

Impossível ouvir alguma música deste gênero e não sentir vontade de dançar. Essa mistura, que junta ritmos brasileiros e americanos, é conhecida como...

(A) Samba-rock

(B) Lambada

(C) Tecnobrega

Caetano Veloso
Gilberto Gil

Responda

Eles contrariaram tudo e todos em 1968: as vertentes políticas de direita e de esquerda, os movimentos artísticos, as tendências da música. Estes artistas estavam ligados ao movimento chamado...

(A) Tropicália

(B) Psicodália

(C) Hippie-chic

Lenine

Responda

Apesar de ser considerado um gênero comercial, grandes artistas fizeram seu nome graças a ele. Músicas memoráveis surgiram neste gênero chamado...

(A) Blues

(B) Frevo

(C) Pop

Luiz Gonzaga

Responda

Ritmo típico do Nordeste, tem como formação tradicional o trio zabumba, triângulo e sanfona. Estamos falando do...

(A) Axé

(B) Baião

(C) Forró

Mano Brown

Responda

Com letras que retraram a dura realidade vivida pela periferia, faladas sob um ritmo tenso e contínuo, este gênero é, na verdade, uma forma de resistência cultural. Estamos falando do...

(A) Gospel

(B) Funk

(C) Rap

Milton Nascimento

Responda

Estes mineiros mostraram ao Brasil que movimentos artísticos importantes também acontecem fora do eixo Rio-São Paulo. Juntando influências do rock e de ritmos brasileiros, fundaram o movimento chamado...

(A) Clube da Esquina

(B) Som Imaginário

(C) Grupo Opinião

Moreira da Silva

Responda

Todo malandro sambista gosta de contar histórias e piadas. O gênero musical que surgiu a partir desse costume é o...

(A) Samba de Breque

(B) Samba Rasgado

(C) Samba de Morro

Lamartine Babo
Braguinha

Responda

Todo carnaval era embalado por estas músicas, cujas letras bem-humoradas permanecem famosas até hoje. São as...

(A) Marchinhas

(B) Valsas

(C) Modas

Noel Rosa

Responda

É considerado o ritmo mais característico do Brasil. Surgiu da mistura entre ritmos africanos e europeus, mesclados pela população média e baixa. Estamos falando do...

(A) Samba

(B) Maracatu

(C) Jongo

Raul Seixas

Responda

Influenciados pelo ritmo que fazia sucesso nos Estados Unidos e no mundo, estes jovens marcaram época com suas calças jeans e estilo rebelde. Estamos falando do...

(A) Rap

(B) Rock

(C) Blues

Chico Science & Nação Zumbi

Responda

Movimento artístico que surgiu em Recife, na década de 90, e que foi descrito no manifesto chamado “Caranguejos com cérebro”. Estamos falando do...

(A) Afrobeat

(B) Manguebeat

(C) Cyber-reggae

Tim Maia

Responda

Este artista revolucionou a música com seu gingado e personalidade forte. A doutrina filosófica Cultura Racional foi uma grande influência em sua obra. Ele é o...

(A) Ed Motta

(B) Tim Maia

(C) Tony Tornado

Tom Jobim
João Gilberto

Responda

Canto limpo e sem floreios, acordes complicados, influência do jazz. Estas características são do gênero...

(A) Rock

(B) Bossa Nova

(C) Frevo

Baden Powell
Vinícius de Moraes

Responda

Da parceria entre Vinicius de Moraes e Baden Powell, surgiu este gênero que faz conexão entre o Brasil e a África. Estamos falando do...

(A) Jongo

(B) Carimbó

(C) Afrossamba

Tonico e Tinoco

Responda

Este gênero surgiu no ambiente rural, mas ganhou espaço nas rádios da cidade com muitas duplas famosas. Estamos falando da...

(A) Música Caipira

(B) Embolada

(C) Modinha

Waldick Soriano

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Eles falam em nome das classes baixas, daqueles que estão à margem da sociedade. Estes artistas, que abusavam da emoção nas letras e melodias, eram representantes do gênero...

(A) Samba de Quintal

(B) Música Brega

(C) Canção de Amor

Roberto Carlos
Erasmo Carlos
Wanderléa

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Guitarras, jaquetas de couro e muito iê-iê-iê. Esta turma que ditou moda nas décadas de 60 e 70 é conhecida como...

(A) Novo Som

(B) Vanguarda

(C) Jovem Guarda

Zeca Pagodinho

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Este gênero teve origem no samba, mas recebeu influências do pop, do sertanejo e do brega. Outra dica: um de seus maiores representantes tem o nome do gênero, no diminutivo, como sobrenome. Estamos falando do...

(A) Rock

(B) Reggae

(C) Pagode

Choro/ Primeiros Ritmos

Nomes: Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha

Período explosivo: 1870 a 1950

Por que marcou época: Alfredo da Rocha Viana Jr., o Pixinguinha, foi um dos maiores revolucionários do choro e um dos responsáveis por consolidá-lo um gênero notoriamente brasileiro. O chorinho, primeira manifestação urbana de Música Popular Brasileira, não é um ritmo específico, mas uma forma abrasileirada de tocar ritmos europeus que eram moda nos salões cariocas no fim do século 19, como polca, valsa e schottish.

Por volta de 1870, moradores do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro – em sua maioria pequenos comerciantes, funcionários públicos e soldados, todos de ascendência negra – incorporavam às músicas europeias ritmos africanos, como o lundu, além do próprio estilo. Essas rodas, tradicionalmente, eram formadas por trios de flauta, cavaquinho e violão. O sopro ditava a melodia, o cavaquinho fazia a harmonia e o violão acompanhava fazendo as linhas de baixo, a “baixaria”. Fazia parte da graça dos músicos – só entrava virtuoso na brincadeira – criar improvisos complexos para desafiar os companheiros.

O gênero foi disseminado a partir de 1880 por Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Joaquim Callado, e modernizado no século 20 por gênios como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Embora tenha perdido popularidade com a chegada do samba e da bossa nova, nunca saiu de cena. Até hoje é presente na cena cultural do país e reinventado por artistas como Hamilton de Holanda.

Nos bastidores: Em fase de pesquisa para seu livro Macunaíma, o escritor Mário de Andrade pediu a Pixinguinha que relatasse como eram os rituais de candomblé feitos na casa de Tia Ciata – mãe de santo famosa por receber em seu quintal os músicos que criaram o samba. Como agradecimento, Mário presta uma pequena homenagem ao músico transformando-o em personagem na célebre passagem da macumba descrita no romance. É Pixinguinha o “negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão”.

Não deixe de ouvir: Apanhei-te cavaquinho (Ernesto Nazareth), Brejeiro (Ernesto Nazareth), Ô abre-alas (Chiquinha Gonzaga), Flor amorosa (Joaquim Callado), Vou vivendo (Pixinguinha), Um a zero (Pixinguinha), Naquele tempo (Pixinguinha), Carinhoso (Pixinguinha), Lamentos (Pixinguinha).

Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha

1x0 - Pixinguinha

1x0 - Pixinguinha

1x0 - Pixinguinha

Samba

Nomes: Noel Rosa, Sinhô, Wilson Batista, Geraldo Pereira, Mário Reis e Adoniran Barbosa

Período explosivo: 1917 a 1970

Por que marcou época: Nos terreiros de mães de santo baianas, radicadas nos morros da cidade do Rio de Janeiro, nasceu o mais emblemático dos ritmos brasileiros. Trabalhadores de uma classe mais humilde, a maioria de origem negra, acrescentaram aos gêneros europeus que eram moda no final do século 19 e início do século 20 (como a valsa e a polca) elementos da música africana, como o batuque e o balanço. Discriminado por sua origem – as rodas de batuque eram perseguidas –, o samba passou a ser reconhecido amplamente quando encontrou um representante branco e de classe média: Noel Rosa.

O poeta da Vila Isabel, assim como os sambistas do morro, retratava de maneira coloquial o cotidiano em seus versos, verdadeiras crônicas. Foi Noel – e também Sinhô – quem fez a ponte entre o morro, o asfalto e a rádio – difusora do gênero. Rosa chegou a entrar na faculdade de medicina, mas as noitadas de samba e bebedeiras eram incompatíveis com a vida acadêmica. Melhor para a música.

Não menos importante – muito pelo contrário, aliás – foram Sinhô, Donga, Wilson Batista, Geraldo Pereira e Mário Reis. O primeiro é considerado por muitos o mais importante compositor da primeira fase do samba carioca. Também é preciso destacar a importância do samba paulistano de Adoniran Barbosa, contemporâneo dos músicos cariocas e igualmente relevante.

Nos bastidores: A música “Pelo telefone”, considerada o primeiro samba a ser gravado na história, é também a primeira polêmica da MPB. O sambista Donga, que registrou a canção em seu nome, foi acusado por colegas, entre eles o compositor Sinhô, de ter tomado para si uma composição coletiva. “Pelo telefone”, segundo os detratores, era um improviso feito por inúmeros sambistas na tradicional roda da Tia Ciata, conhecido por todos como “O Roceiro”.

Não deixe de ouvir: Com que roupa (Noel Rosa), Não tem tradução (Noel Rosa), Pelo telefone (Donga), Saudosa maloca (Adoniran Barbosa), Fala baixo (Sinhô), Desacato (Wilson Batista), Acertei no milhar (Geraldo Pereira).

Noel Rosa

Com que roupa? - Noel Rosa

Com que roupa? - Noel Rosa

Samba-Canção

Nomes: Francisco Alves, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Maysa, Caubi Peixoto, Lupicínio Rodrigues, Orlando Silva, Ataulfo Alves, Ciro Monteiro, Herivelto Martins, Dick Farney, Lucio Alves, Nelson Gonçalves, Orestes Barbosa, Angela Maria, Vicente Celestino e Araci Cortes

Período explosivo: 1930 a 1950

Por que marcou época: Muito mais do que a junção entre o samba e a canção, gênero sucessor da modinha, o samba-canção caracteriza-se por um ritmo mais lento, com arranjos instrumentais mais elaborados que os vistos em rodas de samba, e por letras que falam de sentimentos, como amor e tristezas. Ele também é chamado de “samba de meio de ano”, pois garantia a venda de discos no período distante do carnaval, quando os sambas-enredo estavam em alta.

Com o aperfeiçoamento da tecnologia das gravadoras, os discos passaram a ser mais comerciáveis, recebendo grandes investimentos. Assim, foram convidados alguns músicos de formação erudita, inclusive da Escola Nacional de Música, para compor sambas voltados para as classes média e alta. Recebendo influências do bolero, tango e até mesmo da música norte-americana para cinema, o samba-canção fez grande sucesso na rádio, principalmente entre os anos de 1940 e 1950.

Nesse contexto, surgiram grandes cantores de interpretação romântica, que entoavam as melodias dos sambas-canção com uma técnica parecida com os cantores de ópera chamada vibratto. Em destaque está Francisco Alves, cuja voz potente e impostada lhe rendeu o apelido de Rei da Voz. O carioca fez muito sucesso nos programas de auditório de rádio, o maior entretenimento entre as mulheres das classes média e alta, e atuava tanto como locutor quanto como cantor.

Nos bastidores: Você deve estar se perguntando: “mas o que esse gênero tem a ver com as cuecas samba-canção”, certo? Tudo a ver: ambos estão estritamente relacionados por terem saído de moda no mesmo período. No final dos anos 1940, com o investimento do governo de Getúlio Vargas no samba como símbolo de identidade nacional, o gênero samba-canção estava em forte declínio. Ao mesmo tempo, foram introduzidas no Brasil as calças jeans, que não vestiam bem com o modelo vigente de cueca (de pano, até o meio das coxas). Inventaram, então, a cueca no formato “sunga”, e para chamar o antigo modelo da roupa íntima usaram o mesmo nome do gênero musical que era considerado ultrapassado: o samba-canção.

Não deixe de ouvir: Linda flor ou Ai ioiô (Henrique Voleger/ Vicente Celestino), Iaiá (Araci Côrtes), Último desejo (Noel Rosa), Menos eu (Roberto Martins/ Jorge Faraj), Amigo leal (Benedito Lacerda/ Aldo Cabral), Eu sinto uma vontade de chorar (Dunga), Página de dor (Cândido Neves), O índio (Pixinguinha), Carinhoso (Pixinguinha).

Francisco Alves

Cinco letras que choram (Adeus) – Francisco Alves (composição Silvino Neto)

Cinco letras que choram (Adeus) – Francisco Alves (composição Silvino Neto)

Marchinha de Carnaval

Nomes: Lamartine Babo e Braguinha (João de Barro)

Período explosivo: 1929 a 1937

Por que marcou época: Décadas se passaram, novos temas – mais modernos, diga-se de passagem – foram criados, mas mesmo assim as tradicionais marchinhas de carnaval compostas na década de 1930 continuam reverberando nos salões Brasil afora. “A E I O U”, “O teu cabelo não nega”, “Linda morena” e outras incontáveis composições do carioca Lamartine Babo embalam foliões ano a ano, com o mesmo bom humor que era desfilado em meados do século passado. Carioca e debochado, o compositor foi uma das grandes figuras dos tempos áureos do rádio, quando apresentou programas humorísticos em que contava piadas e fazia sketches. Apesar de ter colaborado com a turma do samba-canção, foi mesmo nos blocos de carnaval que Lamartine de Azeredo Babo cravou seu nome na história.

Repletas de arranjos de instrumentos de sopro e cantadas geralmente em coro uníssono, as marchinhas carnavalescas não davam brecha para o baixo astral. Em companhia de outro expoente do gênero, Carlos Alberto Ferreira Braga (Braguinha, ou João de Barro, como também é conhecido), criou clássicos do naipe de "Uma andorinha não faz verão", sempre com sátiras irreverentes. Em 1937, porém, o Estado Novo, de Getúlio Vargas, passou a censurar canções que extrapolassem os limites estabelecidos pelo governo e as marchinhas perderam espaço.

Nos bastidores: "Uma vez Flamengo / sempre Flamengo / Flamengo sempre eu hei de ser". Assim como marchinhas de carnaval épicas, é também de Lamartine Babo um dos gritos de futebol mais populares do Brasil. Torcedor assumido do América do Rio de Janeiro, o compositor fez hinos alternativos para o Vasco da Gama, Fluminense, Botafogo, Bangu, entre outros, além do cântico do seu clube do coração.

Não deixe de ouvir: O teu cabelo não nega (Lamartine Babo), Linda morena (Lamartine Babo), A marchinha do grande galo (Lamartine Babo), Uma andorinha não faz verão (Lamartine Babo e Braguinha), Chiquita bacana (Braguinha), Yes, nós temos banana (Braguinha/ Alberto Ribeiro).

Lamartine Babo e Braguinha

O teu cabelo não nega – Lamartine Babo (composição Lamartine Babo e Irmãos Valença)

O teu cabelo não nega – Lamartine Babo (composição Lamartine Babo e Irmãos Valença)

Samba de Breque

Nomes: Moreira da Silva, Luiz Barbosa, Sinhô, Jorge Veiga, Ciro Monteiro, Dilermando Pinheiro e Germano Mathias

Período explosivo: Final da década de 1930

Por que marcou época: O típico malandro carioca adora contar histórias e fazer piadas. Pois uma dessas figuras, conhecido com Sinhô, inventou de improvisar versos engraçadinhos no meio de um samba, “Cansei”, em 1929. Outros malandros gostaram da ideia e foi se constituindo o Samba de Breque (breque vem da palavra “break”, em inglês, que significa “quebra”, “pausa”). Depois de terem cantado o samba pela primeira vez, a roda de instrumentistas faz uma pausa repentina (o breque), e nesse momento o intérprete faz a sua fala. Vale contar piada, inventar histórias e até tirar sarro do tema da música. Depois do breque, a música recomeça.

Luis Barbosa, músico de Macaé (RJ), foi o primeiro a apostar no gênero. Seu figurino típico de malandro era composto por um chapéu de palha, com o qual ele batucava o ritmo sincopado do samba de breque. Com paradas cada vez mais longas e falas que cativavam o público, o gênero estava consumado. Mas foi Moreira da Silva, cantor conhecido pela voz impostada e pela interpretação de sambas-canção, quem se tornou a figura mais conhecida do samba de breque.

Nos bastidores: Em um show em 1936, Moreira da Silva (ou Kid Morengueira, como passou a ser conhecido na década de 1960), ao interpretar a música “Jogo proibido” (Tancredo Silva, Dani Silva e Ribeiro da Cunha), resolveu fazer um sinal brusco para os instrumentistas pararem de tocar. Na pausa, ele fez um comentário engraçado sobre a letra, e logo depois o samba recomeçou. Vendo a reação positiva da plateia, o cantor se animou e repetiu o gesto outras vezes, irritando o violonista do grupo, Frazão (“estou acostumado a acompanhar música e não conversa”, disse ele). Mas o episódio fez sucesso e popularizou de vez o samba de breque. “O público aplaudiu de pé, e eu pensei: é aí que está o petróleo, malandro. Vou meter a sonda”, disse ao Jornal do Brasil, em 1972.

Não deixe de ouvir: Cansei (Sinhô/ Mário Reis), Minha palhoça (J. Cascata/ Silvio Caldas), Na subida do morro (Moreira da Silva/ Ribeiro da Cunha), Fenômeno (Milton Moreira/ Joaquim Domingues/ Jorge Veiga), Amigo urso (Henrique Gonçalez/ Moreira da Silva), Baile da piedade (Raul Marques/ Jorge Veiga), Acertei no milhar (Wilson Batista/ Geraldo Pereira), O rei do gatilho (Miguel Gustavo/ Moreira da Silva), Senhor delegado (Germano Mathias), Baile na elite (João Nogueira/ Nei Lopes), Tira os óculos e recolhe o homem (Jardes Macalé/ Moreira da Silva), Samba na medida (Nei Lopes).

Moreira da Silva

Acertei no milhar – Moreira da Silva (composição Wilson Batista e Geraldo Pereira)

Acertei no milhar – Moreira da Silva (composição Wilson Batista e Geraldo Pereira)

Baião

Nome: Luiz Gonzaga

Período explosivo: 1946 (com o lançamento de Baião) até início dos anos 1950

Por que marcou época: O cantor, compositor e sanfoneiro Luiz Gonzaga é o grande responsável por fazer os ritmos nordestinos, especialmente o baião, serem ouvidos em todo o país. Mas se engana quem pensa que conquistar espaço nas grandes rádios e gravadoras foi algo simples. Em uma época marcada por valsas, polcas e sambas-canção, a chegada de um tocador de sanfona com voz de “taboca rachada” – como se referiam à sua voz carregada de regionalismos – foi uma grande ousadia.

Durante alguns anos, os ritmos típicos, como xote, toada, coco, marcha junina e xaxado, foram diluídos em arranjos de orquestras, ao gosto da classe média urbana da época. Com isso, o trio “zabumba, triângulo e sanfona” demorou a ganhar importância. Nosso grande “Rei do Baião” passaria muito tempo sem sequer interpretar suas próprias composições.

Com o sucesso estabelecido de Gonzagão nas rádios, outros artistas nordestinos trataram de marcar presença no “sul maravilha”. Um grupo interessante que incluía o originalíssimo Jackson do Pandeiro, com seu coco e swing; o repentista e poeta Patativa do Assaré; os parceiros de Gonzaga, Humberto Teixeira e Zé Dantas; a “rainha do Baião” Carmélia Alves; o grande sanfoneiro Sivuca; e, anos mais tarde, João do Vale.

Nos bastidores: “Juazeiro” é um tema popular adaptado por Gonzagão e Humberto Teixeira, um de seus principais parceiros. Relata o lamento de um sertanejo, abandonado pela amante, que interroga uma árvore, o tal juazeiro. A música é simples, mas gerou polêmica. Humberto acusou a cantora norte-americana Peggy Lee de plágio pela música “Wandering swallow”. Há também uma versão francesa chamada “Le voyageur” (voiagér), pela qual a dupla jamais levou crédito.

Não deixe de ouvir: Juazeiro (Luiz Gonzaga), Asa Branca (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira), Baião (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira), A volta da Asa Branca (Luiz Gonzaga e Zé Dantas), Chiclete com banana (Gordurinha e Almira Castilho), O canto da ema (Jackson do Pandeiro).

Luiz Gonzaga

Juazeiro – Luiz Gonzaga (composição Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

Juazeiro – Luiz Gonzaga (composição Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

Samba-exaltação

Nome: Ary Barroso

Período explosivo: 1939 a 1964

Por que marcou época: É difícil encontrar alguém que não conheça as marcantes notas de "Aquarela do Brasil", música tocada não só por aqui, mas também em qualquer lugar do mundo quando o assunto é a terra do samba. A obra é de Ary Barroso, e, apesar de ter sido composta em 1939, só passou a ser escutada mais frequentemente no início da década seguinte. Por ter sido escrita em um período controverso da história política brasileira – nos tempos da ditadura de Getúlio Vargas –, a música gerou polêmica sobre o seu caráter ufanista, sobrando acusações para seu criador muito tempo depois. O curioso é que, na época, um dos versos da canção chegou a ser vetado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), por ser supostamente depreciativo para a imagem do país.

Foi o DIP o grande responsável pela difusão da ideia imposta pelo Estado Novo de que o Brasil era grandioso e moderno. Essa visão acabou sendo interiorizada pelos artistas da época e resultou no samba-exaltação. Ary Barroso é um dos grandes representantes do gênero, sobretudo pela capacidade de exportar a suposta cultura tupiniquim, em grande parte propagada pelas interpretações de obras suas protagonizadas em cinemas dos EUA por Carmen Miranda. Pianista desde criança, o compositor mineiro saiu de sua terra natal para estudar Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas abandonou o curso não muito depois e passou a se dedicar exclusivamente à música.

Nos bastidores: Apesar do sucesso incontestável, “Aquarela do Brasil” só foi explodir mesmo alguns anos depois de ter sido composta, graças a um empurrãozinho dos norte-americanos. Em 1942, os estúdios de Walt Disney produziram a animação Saludos Amigos, com Pato Donald, Zé Carioca e outros; em certa altura, é a música de Ary Barroso que levanta o astral do filme. A partir daí, “Aquarela do Brasil” passou a ser reproduzida com frequência por aqui, lá nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo, provocando uma enxurrada de regravações, lançadas por diferentes artistas.

Não deixe de ouvir: Aquarela do Brasil (Ary Barroso).

Ary Barroso

Aquarela do Brasil – Francisco Alves (composição Ary Barroso)

Aquarela do Brasil – Francisco Alves (composição Ary Barroso)

Dorival Caymmi

Período explosivo: 1939 a 1984

Por que marcou época: É impossível dissociar o balanço do mar da música de Dorival Caymmi, que pode ser chamada de canção praieira. O baiano de Salvador viveu 94 anos e compôs obras que são apreciadas por públicos distintos, distribuídas em uma discografia repleta de parcerias – de Carmen Miranda a Tom Jobim. Não bastasse isso, deixou três herdeiros que se tornaram também grandes representantes da música brasileira: Dori, Danilo e Nana Caymmi.

Seu primeiro sucesso foi “O que é que a baiana tem?”, interpretado por Carmen Miranda, em 1939. Mas são também de Dorival canções como “Saudade da Bahia”, “Samba da minha terra” e “Doralice”, regravadas por João Gilberto e Novos Baianos, por exemplo. O violonista começou a compor na década de 1930, pouco antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1937, e, assim como tantos outros de seu tempo, estreou em programas radiofônicos. As batidas suaves de seu violão, bem cadenciadas, o gingado da música negra e o uso de instrumentos percussivos – berimbau entre eles – fazem do som de Caymmi algo doce, único e extremamente agradável aos ouvidos.

O músico, que também era um exímio pintor, foi amigo do escritor Jorge Amado, com quem compôs uma de suas grandes obras-primas, “É doce morrer no mar”.

Nos bastidores: Pintor, violonista, compositor e... jornalista. Dorival Caymmi era ainda adolescente quando resolveu deixar a escola de lado para ir trabalhar em um jornal baiano. Em 1929, a publicação encerrou as atividades e ele precisou se virar. Depois de um tempo como vendedor, começou a compor e, em 1937, foi para o Rio de Janeiro com a intenção de estudar jornalismo. Apesar de publicar alguns desenhos na imprensa carioca, encontrou seu caminho nas rádios e passou a se dedicar quase que exclusivamente à música.

Não deixe de ouvir: É doce morrer no mar (Dorival Caymmi), Canoeiro (Dorival Caymmi), Suíte dos pescadores (Dorival Caymmi).

Dorival Caymmi

O mar - Dorival Caymmi

O mar - Dorival Caymmi

Música Caipira

Nomes: Tonico e Tinoco

Período explosivo: 1930 a 1950

Por que marcou época: No começo do século 20, milhares de trabalhadores rurais migraram do campo para a cidade, buscando trabalho na construção civil e nas fábricas. Nessa leva, vinham artistas desconhecidos, saídos das festas populares, dos programas de rádio interioranos, dos circos pobrezinhos. Gente que tocava, cantava e fazia humor com suas violas, expressando em suas músicas o ambiente rural onde vivia a maior parcela da população. Capiaus que passaram a lançar discos, tocar nas rádios e ganhar enorme prestígio pelo país.

A maioria desses artistas surgiu em concursos de rádio. É o caso dos irmãos João e José Pérez, que em 1943 venceram o principal deles, no programa Arraial da Curva Torta, comandado pelo prestigiado Capitão Furtado. Era o início da carreira mais brilhante e estável da dupla caipira que ficou conhecida como Tonico e Tinoco. Outros nomes que fizeram história foram Cornélio Pires, Paraguassu, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, Cascatinha e Inhana, Nhô Pai e Nhô Fio, Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, Vieira e Vieirinha, Zilo e Zalo, Zé Carreiro e Carreirinho, Tião Carreiro e Pardinho.

Na década de 1950, esses músicos eram conhecidos como “fazedores de sucesso”, com suas modas de viola, guarânias, rasqueados, rancheiras, catiras. Passariam a fazer parte do gênero “sertanejo”. Os termos “música caipira” ou “música rural” só voltariam a ser usados pelos violeiros da geração de 1990.

Em meio aos ambientes machistas das rádios e gravadoras, algumas mulheres enfrentaram o preconceito da sociedade e conseguiram despontar, como o Duo Brasil Morena, Irmãs Castro, Irmãs Celeste, Xandica e Xandoca e Inezita Barroso, que além de artista ganhou prestígio como um dos principais nomes do estudo do folclore brasileiro.

Nos bastidores: As feições da música caipira mudariam muito depois de uma extensa turnê feita por Capitão Furtado e Mário Zan, em 1943. Na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, foram convidados a entrar no barco que levava a comitiva do então presidente paraguaio, Higino Morinigo. Percorreram todo o país vizinho por seus rios até aportarem na capital Assunção. Voltando dessa aventura, Mário Zan lançou uma safra de músicas inspiradas nos sons e ritmos da região, como as guarânias, e com Nhô Pai reivindicou a introdução do rasqueado na música brasileira.

Não deixe de ouvir: Tristezas do Jeca (sucesso de Paraguassu, que seria trilha e nome de um filme de Mazzaropi/ Angelino de Oliveira), Beijinho doce (Nhô Pai), Casinha pequenina (autor desconhecido), Pingo d’água (João Pacífico), Cabocla Teresa (João Pacífico), Sertaneja (René Bittencourt), Romance de uma caveira (Alvarenga e Ranchinho), Boneca cobiçada (Biá e Bolinha), Meu primeiro amor (Jimenez, Fortuna, Pinheirinho), Chalana (Arlindo Pinto e Mário Zan), Menino da porteira (Luizinho e Teddy Vieira).

Tonico e Tinoco

Tristeza do Jeca - Tonico e Tinoco (composição Angelino de Oliveira)

Tristeza do Jeca - Tonico e Tinoco (composição Angelino de Oliveira)

Carmen Miranda

Período explosivo: 1930 a 1950

Por que marcou época: Maria do Carmo Miranda da Cunha, portuguesa e filha de imigrantes de Portugal, nasceu em 1909 e viveu apenas até os 46 anos. Mas tão pouco tempo de vida foi suficiente para que Carmen Miranda, nome artístico que adotara, se tornasse uma cantora e atriz de renome internacional, sendo considerada a principal representante da música brasileira no final da década de 1930.

A carreira de Carmen Miranda, também conhecida como a “pequena notável” (ela media algo em torno de um metro e meio), começa no Brasil como cantora de rádio e atriz de cinema, ao lado de sua irmã Aurora Carmen. Chegou a participar, em 1935, da comitiva que acompanhava o presidente Getúlio Vargas em uma viagem diplomática para Argentina e Uruguai. Em 1939, o empresário americano Lee Schubert ficou encantado ao assistir a uma apresentação de Carmen Miranda no Cassino da Urca, já com suas vestimentas características de baiana e seu turbante de frutas tropicais. O contexto da visita de Lee Schubert já não era sem intenções: os Estados Unidos buscavam a expansão de sua influência política, econômica e ideológica sobre os países da América Latina, o que ficou conhecido como Política da Boa Vizinhança. Getúlio Vargas, já como chefe do Estado Novo, foi o primeiro das Américas a montar uma máquina de propaganda para promover seu governo aqui e no exterior. A ida de Carmen Miranda para os Estados Unidos como representante da música popular brasileira, portanto, atendia a muitos interesses, tanto brasileiros quanto americanos.

Carmen Miranda consolidou sua carreira de cantora, junto com o grupo Bando da Lua, e atriz participando de 13 filmes, além de atuar na rádio e no teatro. Viveu por 15 anos nos Estados Unidos, e, desde a primeira vez que voltou para o Brasil, diziam que estava “americanizada”. Ainda assim, foi uma das principais vozes da música popular brasileira a ter grande reconhecimento no exterior.

Nos bastidores: Não era só a atuação de Carmen Miranda que recebia a crítica de ter se “americanizado”. Os músicos que a acompanhavam, como os pertencentes ao Bando da Lua e o violonista Garoto, também deixavam o samba cada vez menos presente, dando espaço para influências do jazz, segundo críticos da época. Carmen Miranda, ainda assim, era uma grande referência no cenário artístico do período. Em 1940, foi considerada pelo New York Journal a 6ª mulher mais famosa dos Estados Unidos, e foi a primeira brasileira a ter seu nome gravado na calçada da fama, em Hollywood. Até mesmo suas roupas de baiana e sandálias eram imitadas nas casas de moda da Quinta Avenida, em Nova Iorque.

Não deixe de ouvir: O que é que a baiana tem? (Dorival Caymmi), Chica-chica-bum-chic (Harry Warren/ Mack Gordon), Isto é lá com Santo Antônio (Lamartine Babo), O tique-taque do meu coração (Alcyr Pires Vermelho/ Walfrido Silva), South american way (Al Dubin / Jimmy McHugh).

Carmen Miranda

Tico tico no fubá – Carmen Miranda (composição Abreu Gomes)

Tico tico no fubá – Carmen Miranda (composição Abreu Gomes)

Bossa Nova

Nomes: João Gilberto, Tom Jobim, Roberto Menescal, Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão, Johnny Alf e Marcos Valle

Período explosivo: 1958 a 1963

Por que marcou época: Quando Tom Jobim escutou João Gilberto tocando ao violão pela primeira vez “Hô-bá-lá-lá” e “Bim bom” – composições de João –, em 1958, encontrou naquela batida diferentes ecos de suas próprias ideias musicais. Os acordes modernos de João e seu jeito baixo de cantar, cantando as notas com clareza, sem vibratos e recursos operísticos, eram a antítese perfeita ao samba-canção e ao bolero, gêneros dominantes à época, que tanto entediavam jovens músicos como Tom, Carlos Lyra e o próprio João Gilberto.

Não que fosse o caso de matar o samba, muito pelo contrário. O que ficou conhecido como Bossa Nova nada mais é do que o samba reinventado, sem os excessos sentimentais dos sambas-canção e com a influência dos acordes modernos do Cool Jazz dos EUA, principalmente o da costa oeste.

O estilo de João Gilberto sintetizava a estética de uma turma de amigos da zona sul do Rio de Janeiro, composta, entre outros, pelos músicos Newton Mendonça, Carlos Lyra e Roberto Menescal, pelo poeta Vinicius de Moraes, o jornalista, escritor e compositor Ronaldo Bôscoli e a cantora Nara Leão. Era no apartamento de Nara, aliás, que acontecia a maioria das reuniões desses admiradores de Jazz e samba que modernizaram a música brasileira nos anos 1950.

Nos bastidores: Considerado o marco inicial da Bossa Nova, o LP “Chega de saudade”, de 1958, demorou a emplacar, e a recém-inaugurada parceria entre João Gilberto e Tom Jobim quase teve fim durante a gravação. João implicou com todos os músicos no estúdio, interrompendo as gravações quando bem entendesse para reparar erros que, aparentemente, só ele ouvia. Até mesmo Jobim teve que escutar um “você não entende nada” e por pouco não seguiu o exemplo de outros instrumentistas e caiu fora. Depois de pronto, o disco – que trazia a faixa-título assinada por Jobim e Vinicius de Moraes e composições de João e outros compositores – demorou a ganhar as rádios.

Não deixe de ouvir: Chega de saudade (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), Lobo bobo (Carlos Lyra/ Ronaldo Bôscoli), Hô-bá-lá-lá (João Gilberto), Desafinado (Newton Mendonça/ Tom Jobim), Bim bom (João Gilberto).

João Gilberto e Tom Jobim

Chega de saudade – João Gilberto (composição Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

Chega de saudade – João Gilberto (composição Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

Afrossambas

Nomes: Vinicius de Moraes e Baden Powell

Período explosivo: 1966

Por que marcou época: Quando se reuniram pela primeira vez seriamente para compor, em 1962, Vinicius já era Vinicius de Moraes – poeta, embaixador e precursor da Bossa Nova –, mas Baden Powell ainda era um jovem violonista promissor, conhecido apenas no circuito musical. A qualidade artística do disco que gravariam juntos e marcaria profundamente a história da música brasileira quatro anos depois, Os Afrossambas, deve muito também à virtuose de Baden, um estudioso da música erudita, fortemente identificado com a música popular. E teve como ingredientes principais, certamente, a sintonia entre esses dois gênios e a conexão de ambos com a Bahia e com a África.

O que se ouve no álbum é um dos estudos mais profundos de música brasileira já realizados. Em oito faixas, sintetizaram o samba moderno e o candomblé afro-brasileiro e deram à mistura um sotaque carioca. Pela primeira vez em um disco de MPB, foram gravados instrumentos típicos dos terreiros de candomblé, como atabaques, bongôs, agogôs e afoxés com a tradicional formação de flauta, violão, sax, bateria e contrabaixo. Em suas letras, Vinicius trata essencialmente do amor (marca indelével de sua obra) e evoca a proteção e a benção dos orixás em temas que se tornaram clássicos, como “Canto de Ossanha” e outros sucessos que não entraram no disco, mas bebem da mesma fonte, como “Berimbau”.

Nos bastidores: Parece lenda – e não as faltam na biografia de Vinicius –, mas é tudo verdade: a primeira reunião de Baden e Vinicius, no apartamento do poeta, no parque Guinle, no Rio de Janeiro, teve o saldo de 240 garrafas de uísque, em mais ou menos 90 dias, e 25 composições. Desse autoexílio alcoólico nasceram praticamente todos os afrossambas, entre eles, o “Canto de Xangô”.

Não deixe de ouvir: Berimbau (Baden Powell/ Vinicius de Moraes), Labareda (Baden Powell/ Vinicius de Moraes), Canto de Iemanjá (Baden Powell/ Vinicius de Moraes), Consolação (Baden Powell/ Vinicius de Moraes), Canto de Ossanha (Baden Powell/ Vinicius de Moraes), Tristeza e solidão (Baden Powell/ Vinicius de Moraes).

Vinicius de Moraes e Baden Powell

Canto de Xangô – Vinícius de Moraes (composição Vinícius de Moraes e Baden Powell)

Canto de Xangô – Vinícius de Moraes (composição Vinícius de Moraes e Baden Powell)

Cartola

Período explosivo: Década de 1930, com volta na década de 1960

Por que marcou época: A tradicional escola de samba Estação Primeira de Mangueira deve sua fundação ao bloco dos arengueiros, grupo de samba criado por Angenor de Oliveira, mais conhecido por Cartola. Mas isso foi só uma de suas conquistas no meio musical. O carioca, apesar de ter vindo de uma formação muito humilde e ter estudado apenas até o primário, alcançou grande sucesso na década de 1930, tendo sambas gravados por grandes vozes como Carmen Miranda, Francisco Alves e Sílvio Caldas.

Cartola ganhou o apelido no seu emprego de servente de construção – usava um chapéu-coco para proteger a cabeça do cimento que eventualmente caía da obra. Mas sua felicidade estava mesmo na vida boêmia: ao se mudar para o Morro da Mangueira, na adolescência, conheceu Carlos Cachaça e outros malandros, que o apresentaram ao samba.

Órfão de mãe, Cartola foi expulso de casa porque seu pai era contra o estilo de vida boêmio que levava. Sofreu muito vivendo na rua ou na casa de amigos, de favor, e contraiu muitas doenças nessa época. A morte de sua esposa Deolinda, e outros insucessos da vida, o levou a sair do cenário musical, de onde iria retornar apenas na década de 1960.

Já reestabelecido depois desse período difícil, Cartola se casa com Dona Zica, com quem abre o restaurante Zicartola. O espaço oferecia comida boa e barata, e reunia grandes nomes do samba carioca, tornando-se um marco no cenário musical da época. Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Paulinho da Viola e outros sambistas frequentavam o Zicartola para encontrar o casal querido e fazer boa música. Apesar de ter durado pouco, o restaurante lançou moda no Rio de Janeiro, servindo de modelo para muitos outros estabelecimentos noturnos que seriam abertos nos anos seguintes.

Nos bastidores: Durante a década de 1940, devido às dificuldades financeiras e emocionais, Cartola deixou de atuar como sambista e foi até dado como morto. Já não tinha mais contato com seus amigos da Mangueira e contraíra sérios problemas de saúde. A sorte de Cartola mudou quando, em 1956, o jornalista Sérgio Porto (conhecido como Stanislaw Ponte Preta) reconheceu o senhor franzino que estava trabalhando como lavador e vigia de carros em um prédio – era o grande nome do samba que estava desaparecido! Sérgio ajudou Cartola a se reinserir no cenário musical, onde foi recebido com surpresa e admiração. Durante a década de 1960, o sambista já era novamente uma referência importante da música, graças à descoberta do jornalista.

Não deixe de ouvir: As rosas não falam (Cartola), O mundo é um moinho (Cartola), Chega de demanda (Cartola), Preciso me encontrar (Cartola/ Candeia), Tenho um novo amor (Cartola/ Noel Rosa), Na floresta (Cartola/ Silvio Caldas/ Carlos Cachaça), Pudesse meu ideal (Cartola/ Carlos Cachaça), Divina dama (Cartola), Não quero mais (Cartola/ Carlos Cachaça/ Zé da Zilda), O sol nascerá (Cartola), Quem me vê sorrindo (Cartola/ Carlos Cachaça), Acontece (Cartola), Tive, sim (Cartola).

Cartola

Preciso me encontrar – Cartola (composição Cartola e Candeia)

Preciso me encontrar – Cartola (composição Cartola e Candeia)

Jovem Guarda

Nomes: Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa

Período explosivo: 1965 a 1970

Por que marcou época: Roberto Carlos não era nem de longe um anônimo quando, em 1965, um programa na TV Record apresentado por ele fez eclodir uma revolução cultural no Brasil. Com quatro álbuns lançados até então, o cantor de Cachoeiro de Itapemirim (ES) – acompanhado pelo parceiro Erasmo Carlos e por Wanderléa – comandava na televisão o programa chamado Jovem Guarda. Embora seja frequentemente associado aos hits ingênuos e roqueiros da época, o movimento promoveu mudanças também na forma em que os jovens passaram a se vestir e a se comportar.

Influenciado pelo rock’n’roll importado dos Estados Unidos e da Inglaterra, o iê-iê-iê da Jovem Guarda se baseava em hits românticos dos Beatles e de outros fenômenos estrangeiros. Com melodias simples e letras despretensiosas, adolescentes, a música de Roberto, Erasmo e Wanderléa conquistou a juventude e despertou a ira de outro setor que também lutava na época por seu espaço. O tom alegre e descompromissado fazia um contraponto à canção de protesto e dos bossa-novistas, que taxavam os súditos da Jovem Guarda de alienados e coniventes com o regime militar que começava a ganhar força no país. Além disso, criticavam o uso de guitarras elétricas e da “invasão estrangeira”. Pouco depois, vale ressaltar, um grupo dissidente percebeu que a crítica era vazia e misturou ideias para criar o movimento tropicalista.

É claro que o trio que comandava o programa da TV Record acabou se tornando a cara do movimento, mas pode-se afirmar que participaram também da Jovem Guarda nomes como Ronnie Von, Jerry Adriani, Eduardo Araújo, Golden Boys, Renato e Seus Blue Caps, entre outros.

Nos bastidores: “Sentado à beira do caminho”, sem sombra de dúvidas, é um dos maiores – se não o maior – hit da parceria de Erasmo e Roberto Carlos. A música foi regravada inúmeras vezes e virou trilha de novela – em Beto Rockfeller e Páginas da Vida. O que pouca gente sabe é que o famoso "preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo" foi criado de uma forma bem inusitada, em um susto. Em 1969, com a música quase pronta, a dupla precisava de um bom refrão para finalizá-la. Como lembra Erasmo Carlos em sua autobiografia, em uma noite os dois se revezavam no sono para concluir a letra quando Roberto acordou de sobressalto e recitou os dois versos, misturando sonho e realidade. Estava pronto outro sucesso da Jovem Guarda.

Não deixe de ouvir: Quero que vá tudo para o inferno (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos), É proibido fumar (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos), Não te esquecerei (Renato e Seus Blue Caps/ Versão de Califórnia Dreaming, de John Phillips e Michelle Phillips), Pare o casamento (Wanderléa/ Versão de Stop The Wedding, de Young, Resnick e Luiz Keller).

Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa

Quero que vá tudo pro inferno – Roberto Carlos (composição Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Quero que vá tudo pro inferno – Roberto Carlos (composição Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Chico Buarque

Período explosivo: A partir de 1964

Por que marcou época: Francisco Buarque de Holanda é certamente um dos artistas mais influentes e versáteis do Brasil. Em tudo o que faz – seja na música, cinema, teatro, literatura –, Chico escreve textos densos, profundos e líricos sobre a vida, o amor, o país, a política, o futebol. Sua obra musical resume toda a riqueza dos ritmos que moldaram nossa cultura – fez sambas, choros, bossas, modinhas, valsas e até rock.

Filho do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, cresceu cercado por música, livros e intelectuais, entre eles, o futuro parceiro, Vinicius de Moraes. Vinicius, aliás, foi um dos maiores entusiastas e incentivadores de Chico. Sempre que perguntavam ao “Poetinha” o que havia de novo no cenário, a resposta era: “Francisco Buarque de Holanda”. Nessa época, o primeiro sucesso de Chico, “A banda”, ainda não havia conquistado o país como aconteceria em 1966, no II Festival de Música Popular Brasileira. Nesse mesmo ano, lançou seu primeiro LP, intitulado Chico Buarque de Holanda.

Desde sua primeira aparição, o artista agradou o público em geral, tanto jovem quanto adulto, e se tornou um fenômeno. A exceção ficou por conta da censura da Ditadura Militar, que muitas vezes acabou driblada pela esperteza do compositor. Sua produção se intensificou ao longo dos anos 1970, e não demorou muito para Chico ser reconhecido como um dos maiores gênios da MPB.

Nos bastidores: Desde jovem, Chico sonhava aparecer na imprensa, escrevendo artigos ao lado dos grandes escritores que admirava na época. Sua primeira aparição nos jornais, no entanto, não foi nos cadernos de cultura, mas nas páginas policiais. Ainda menor de idade, junto de um amigo, pegou um carro escondido e saiu pela noite de São Paulo. Foram pegos pela polícia e acabaram em uma manchete do Última Hora que dizia: “Pivetes furtaram um carro: presos”, ilustrada com uma foto de ambos com tarjas cobrindo o rosto.

Não deixe de ouvir: Construção (Chico Buarque de Holanda), Apesar de você (Chico Buarque de Holanda), A banda (Chico Buarque de Holanda), O que será (Chico Buarque de Holanda), Cálice (Chico Buarque de Holanda/ Gilberto Gil).

Chico Buarque

Construção - Chico Buarque

Construção - Chico Buarque

Canção de Protesto

Nomes: Geraldo Vandré, Nara Leão, Edu Lobo, Carlos Lyra, Elis Regina, Chico Buarque e Taiguara

Período explosivo: Décadas de 1960 e 1970

Por que marcou época: Em 1964, o Brasil vivia um grande marco de sua história política: o golpe que instalou a Ditadura Militar, que durou até 1985. Nesse período, todo o poder executivo foi centralizado na figura de um líder, o Presidente, e os direitos civis passaram a ser severamente controlados. Grande símbolo desse controle é o Ato Institucional número 5, outorgado em 1968, que dava ao governo o poder de censura e repressão política, cultural, artística e educacional. Casos de exílio, tortura, desaparecimentos e até assassinatos eram comuns, mesmo que ignorados pela mídia.

Nesse contexto, os artistas se mobilizavam para compor músicas que expressavam sua indignação política, chamadas de Canções de Protesto. Mas isso não era tão simples: todas as composições tinham que passar pelo órgão de censura do governo, que podia vetar ou alterar letras. As justificativas da censura iam desde a “preservação dos bons costumes” até a incitação de “ideias políticas subversivas”. Os músicos tinham que usar e abusar da criatividade para conseguir burlar essa censura, e muitos casos foram bem-sucedidos. Ainda assim, grandes nomes da nossa música foram exilados ou optaram pelo autoexílio nessa época, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Taiguara e Geraldo Vandré (que também foi torturado).

É importante destacar, no movimento de resistência à Ditadura Militar, o show televisivo Opinião, estrelado por João do Vale, músico nordestino, Zé Keti, compositor de sambas, e Nara Leão, cantora carioca. As músicas apresentadas no show eram pertencentes à cultura popular, apropriada pela classe média para causar exaltações nacionais, na tentativa de unificar o movimento político de resistência.

Nos bastidores: Chico Buarque e Gilberto Gil, em 1973, compuseram uma das canções de protestos mais emblemáticas, “Cálice”. O título da música, dito de maneira agressiva por um coral no refrão, passa a significar “Cale-se!”, numa referência à repressão e à censura do período. A música foi proibida de ser gravada e cantada até 1978, quando o Ato Institucional número 5 foi extinto. “Cálice” foi então regravada e finalmente lançada comercialmente, com Milton Nascimento cantando as partes de Gilberto Gil.

Não deixe de ouvir: Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré), Apesar de você (Chico Buarque), Carcará (Maria Bethânia/ João do Vale/ José Cândido), Como nossos pais (Elis Regina/ Belchior), Opinião (Nara Leão/ Zé Keti), Cálice (Gilberto Gil/ Chico Buarque), Acender as velas (Zé Keti), Que as crianças cantem livres (Taiguara).

Geraldo Vandré

Pra não dizer que não falei de flores - Geraldo Vandré

Pra não dizer que não falei de flores - Geraldo Vandré

Samba-rock

Nomes: Jorge Ben, Wilson Simonal, Bebeto e Trio Mocotó

Período explosivo: 1963 a 1976

Por que marcou época: Há quem diga que “Chiclete com banana”, composta por Gordurinha e Almira Castilho e eternizada na voz de Jackson do Pandeiro, foi o primeiro samba-rock que o Brasil escutou. Os versos da música afastam a “influência do jazz” (que Carlos Lyra cantaria dois anos depois), tirando o bepop do samba e convocando os norte-americanos a pegar no tamborim. Fato ou não, quando foi lançada, em 1959, Jorge Ben ainda era só mais um moleque da zona norte do Rio de Janeiro, fascinado por futebol e já encantado com as batidas suaves de João Gilberto.

Já habilidoso no pandeiro e iniciante no violão, juntou as duas coisas e revolucionou o samba poucos anos depois, no início dos anos 1960, mais precisamente em 1963: no Beco das Garrafas, famoso ponto de encontro dos bossa-novistas, Jorge Ben apresentou “Mas que nada” e eternizou a música em um compacto de sucesso. Em seguida, as batidas rápidas e influenciadas pelo rock, um contraponto ao samba lento da época, integraram o álbum “Samba esquema novo”. O músico carioca, além de tudo, foi um dos (poucos) que transitou por diferentes movimentos culturais que aconteciam na época: com os tropicalistas, participou do irreverente programa Divino Maravilhoso, da TV Tupi, se apresentou no Fino da Bossa, com Jair Rodrigues e Elis Regina, e tinha bom trânsito na Jovem Guarda. Também seguiram a mesma onda do Samba-rock Wilson Simonal, Bebeto e o Trio Mocotó.

Nos bastidores: Jorge Ben ou Jorge Benjor? Até hoje, a ambiguidade dos nomes do compositor fluminense desperta dúvidas sobre qual seria, de fato, a maneira correta de se referir a ele. A questão é que, em 1989, Jorge mudou de um dia para o outro o seu nome artístico, com o lançamento do álbum “Benjor”. A mudança, diziam os rumores, tinha a ver com questões esotéricas, de numerologia, mas também houve quem alegasse que a decisão fazia referência ao nome do músico George Benson: já bastante conhecido no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, o sambista brasileiro queria evitar confusões e mal-entendidos em sua carreira internacional.

Não deixe de ouvir: Mas que nada (Jorge Ben), Chiclete com banana (Gordurinha/ Almira Castilho), Balança pema (Jorge Ben), Nem vem que não tem (Wilson Simonal/ Carlos Imperial), Swinga sambaby (Trio Mocotó/ Nereo Gargalo).

Jorge Ben

Mas que nada - Jorge Ben

Mas que nada - Jorge Ben

Tropicália

Nomes: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Tom Zé, Rogério Duprat

Período explosivo: 1967 e 1968

Por que marcou época: Em um momento em que a cena cultural vivia um embate musical entre a turma do banquinho e violão e a Jovem Guarda, os tropicalistas, como acabaram sendo rotulados, chegaram chacoalhando tudo. Ou melhor, misturando tudo. Influenciados pela música pop internacional, absorvendo o que achavam de melhor nos estilos conflitantes da Bossa e da trupe do Rei Roberto, tirando sarro da publicidade, buscaram criar um retrato crítico da sociedade brasileira. Uma sociedade tolhida de seus direitos civis pelo regime militar, careta – como definia Caetano Veloso – e sem identidade.

O ideário – ou a estética – tropicalista aparece em discos como Domingo (Caetano Veloso e Gal Costa – 1967), Caetano Veloso (1968) e A banda tropicalista do Duprat (Rogério Duprat – 1968). Mas teve em Tropicália ou Panis et Circensis, de 1968, o seu manifesto. A obra coletiva teve a participação de grandes artistas, como o músico Tom Zé, os maestros e arranjadores Rogério Duprat e Júlio Medaglia, as cantoras Nara Leão e Gal Costa, a banda Os Mutantes e os poetas Capinam e Torquato Neto. Bolero, samba, baião, bossa nova, rock, psicodelia, poesia concreta e artes plásticas compuseram a geleia geral do movimento.

Nos bastidores: Em seu livro Verdade tropical, Caetano Veloso conta que o título Tropicália, sugestão de um amigo para batizar a faixa musical mais emblemática do Tropicalismo, não o agradou muito. O nome remetia a uma instalação do artista plástico Hélio Oiticica que despertou o interesse de Caetano, avesso à denominação, mas não a seu conceito. O cantor não teve muita escolha, no entanto. Tropicália acabou sendo carregado pelos músicos envolvidos no álbum e marcou para sempre a história da Música Popular Brasileira.

Não deixe de ouvir: Tropicália (Caetano Veloso), Misere nobis (Gilberto Gil/ Capinam), Panis et circensis (Os Mutantes/ Gilberto Gil/ Caetano Veloso), Baby (Gal Costa/ Caetano Veloso), Geleia geral (Gilberto Gil/ Torquato Neto), Bat macumba (Gilberto Gil/ Caetano Veloso).

Gilberto Gil e Caetano Veloso

Tropicália - Caetano Veloso

Tropicália - Caetano Veloso

Música Popular Cafona ou Brega

Nomes: Waldick Soriano, Altemar Dutra, Odair José, Reginaldo Rossi, Nelson Ned, Lindomar Castilho e Claudia Barroso

Período explosivo: 1968 a 1978

Por que marcou época: Para muita gente, artistas como Waldick Soriano não cantaram nada mais do que músicas tolas, vulgares, malfeitas. Por isso foram tachados de cafonas, bregas. Eram admirados por um público de baixa renda, pouca escolaridade e habitante dos subúrbios. Em resumo, grande parte da população brasileira no auge da repressão do governo militar.

O sucesso não veio à toa. Esses artistas foram capazes de expressar a visão de mundo de gente que normalmente não tem voz. Venderam inúmeros discos e não saíam das frequências do rádio, em uma época em que a censura corria solta. Ao registrar em suas letras de música os sonhos, angústias, tragédias, protestos e amores das camadas humildes, eles criaram uma obra de grande importância como registro social e histórico. Pesquisadores como Paulo César de Araújo falam inclusive do papel de resistência de muitos desses artistas à ditadura, retratando injustiças sociais e sofrendo com a repressão política.

Esse gênero reúne sambas, boleros e, principalmente, baladas. Como intérpretes de bolero, ritmo de raízes hispânicas, destacam-se Waldick Soriano, Nelson Ned, Lindomar Castilho e Claudia Barroso. Outro grupo vai trilhar a linha do samba, ou “sambão-joia”, como pejorativamente era chamado na época: Benito di Paula, Luiz Ayrão e Wando. Mas a maioria vai se expressar pelo ritmo da balada, como Paulo Sérgio, Odair José, Evaldo Braga e Agnaldo Timóteo.

Nos bastidores: No livro Eu não sou cachorro, não, o escritor Paulo César de Araújo conta como a resistência à repressão militar, muitas vezes associada apenas à música popular das classes média e alta, também estava presente nas canções bregas de classes mais baixas. Cantores como Waldick Soriano, Nelson Ned e Odair José também foram alvo de censura e perseguição política. Em um dos episódios contados no livro, Waldick Soriano declara ao jornal Zero Hora de Porto Alegre, em 1973: “Cristo pra mim foi um arruaceiro. (...) Não entendo o que se fala dele, acho que era um enganador”. A Assembleia Legislativa gaúcha, bem como políticos a princípio de oposição, logo se uniram para difamar o cantor, chamando-o de “cantorzinho zurrapa” e “portador de deformações psicológicas”. Em algumas cidades do interior do Brasil, discos e pôsteres de Waldick Soriano chegaram a ser queimados em praça pública.

Não deixe de ouvir: Eu não sou cachorro não (Waldick Soriano), Coração materno (Vicente Celestino), Sonhar contigo (Adilson Ramos), A volta do boêmio (Nelson Gonçalves), Mon amour, meu bem, ma femme” (Reginaldo Rossi), Fuscão preto (Almir Rogério), Cadeira de rodas (Fernando Mendes), Sorria, sorria (Evaldo Braga), O meu sangue ferve por você (Sidney Magal).

Waldick Soriano

Eu não sou cachorro não - Waldick Soriano

Eu não sou cachorro não - Waldick Soriano

Elis Regina

Período explosivo: 1960 a 1980

Por que marcou época: Considerada por muitos a melhor cantora brasileira de todos os tempos, Elis Regina unia em sua interpretação uma rara combinação de forte emotividade com refinamento técnico. Apesar de atuar como cantora de rádio desde os 11 anos de idade, a revelação veio no Festival da Record em 1965, quando interpretou “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Mesmo não sendo compositora, Elis impulsionou a música brasileira ao lançar no meio musical grandes artistas como Milton Nascimento, Ivan Lins, Renato Teixeira e João Bosco.

Apelidada de “pimentinha” por Vinicius, Elis era conhecida por seu temperamento forte e sua capacidade de emocionar o público com sua interpretação. A presença de palco marcante rendeu-lhe o papel de apresentadora de TV, ao lado de Jair Rodrigues, no programa O Fino da Bossa, que fez sucesso na década de 1960. Apesar de ter vivido apenas até os 36 anos, a produção de mais de 20 CDs fez de Elis Regina um grande sucesso da MPB. Foi casada com o diretor e compositor Ronaldo Bôscoli, com quem teve o cantor João Marcelo Bôscoli. Depois, casou-se com César Camargo Mariano, pianista, com quem teve mais dois filhos, que também seguiram a música, Pedro Mariano e Maria Rita.

Nos bastidores: Em tempos de ditadura, o posicionamento político dos artistas era de suma importância para o cenário musical. Elis Regina era considerada uma aliada da resistência esquerdista, realizando shows que convertiam doações a sindicatos e cantando músicas de protesto. Imagine, então, a surpresa quando a cantora surgiu em uma propaganda de TV do Governo, em 1972, chamando o povo para cantar o Hino Nacional na comemoração de Independência daquele ano. Em setembro, ela também realizou uma apresentação na Olimpíada da Semana do Exército. O célebre cartunista do jornal O Pasquim, Henfil, fez charges ironizando a postura política da cantora. Mas se arrependeu anos depois: todos os artistas que participavam dessas campanhas estavam sob ameaça do governo e, portanto, não tinham escolha.

Não deixe de ouvir: Arrastão (Edu Lobo/ Vinicius de Moraes), Madalena (Ivan Lins/ Ronaldo Monteiro de Souza), Como nossos pais (Antonio Carlos Belchior), O bêbado e a equilibrista (Aldir Blanc/ João Bosco), O cantador (Dorival Caymmi/ Nelson Motta), Romaria (Renato Teixeira), Aquarela do Brasil (Ary Barroso), Velha roupa colorida (Antonio Carlos Belchior), 20 anos blues (Sueli Costa).

Elis Regina

Como nossos pais – Elis Regina (composição Belchior)

Como nossos pais – Elis Regina (composição Belchior)

Clube da Esquina

Nomes: Milton Nascimento, Som Imaginário, Lô Borges, Flávio Venturini

Período explosivo: 1972 a 1980

Por que marcou época: Nos idos dos anos 1960, no eixo Rio-São Paulo, movimentos antagônicos fervilhavam a cena cultural. De maneira geral, pode-se dizer que a Jovem Guarda era desdenhada pela bossa nova, que por sua vez passou a ser vista como alienada pelos músicos do que ficou conhecido como canção de protesto, e a Tropicália chegava subvertendo e misturando tudo. Nada alheio, mas fora desse cenário, uma rapaziada de Minas Gerais fazia sua própria síntese de música brasileira e rock.

Quando o primeiro disco do Clube da Esquina foi lançado em 1972, Milton Nascimento já havia chamado a atenção com dois álbuns solo e o prêmio de segundo lugar no II Festival Internacional da Canção, com “Travessia”. No entanto, a verdadeira revolução musical promovida por “Bituca” – como Milton é conhecido entre os amigos – foi feita em parceria com Lô Borges e os amigos do “Clube” no álbum mencionado acima, que leva o nome da turma.

Em seus primeiros trabalhos, Milton impressionara com suas composições e sua voz, mas a música seguia o molde tradicional. Com os amigos mineiros, bagunçou o coreto: o violão era harmônico e percussivo ao mesmo tempo; a percussão trazia ritmos da África que passou por Minas Gerais e tinha vida própria, assim como a voz, nem sempre a serviço da letra, mas como instrumento; misturados a guitarras distorcidas e elementos da música pop e do rock. Tudo apresentado em arranjos sofisticados e amparados por poemas que refletiam toda a beleza e a intensidade do clube mais importante da MPB.

Nos bastidores: Pouca gente no Brasil tem noção da importância da música de Milton Nascimento e do Clube da Esquina. Elis Regina, que certa vez declarou que se Deus tivesse voz seria a de Milton, é apenas uma das ilustres admiradoras do cantor e compositor. Existe uma verdadeira escola de jazzistas norte-americanos fãs declarados de Bituca. Gente da estirpe do guitarrista Pat Metheny, do saxofonista Wayne Shorter e do pianista Herbie Hancock, duas lendas do Jazz.

Não deixe de ouvir: Para Lennon e McCartney (Márcio Borges/ Fernando Borges/ Lô Borges), Cravo e canela (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos), Lilia (Milton Nascimento), Trem de doido (Lô Borges/ Márcio Borges), O trem azul (Lô Borges/ Ronaldo Bastos).

Milton Nascimento

Para Lennon e McCartney – Milton Nascimento (composição Marcio Borges, Fernando Brant e Lô Borges)

Para Lennon e McCartney – Milton Nascimento (composição Marcio Borges, Fernando Brant e Lô Borges)

Rock

Nomes: Raul Seixas,Novos Baianos, Mutantes, Secos e Molhados, Vímana, Walter Franco, Casa das Máquinas, O Terço, Guilherme Arantes, Made in Brazil, Joelho de Porco e Rita Lee

Período explosivo: 1968 a 1980

Por que marcou época: O ritmo norte-americano iniciado por lendas como Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley não demorou a chegar no Brasil. O sucesso e a assimilação, no entanto, foram bem mais vagarosos. Eram tempos de bossa nova no topo das paradas, e guitarras elétricas não eram bem vistas – a jovem guarda arriscou uma versão brasileira com o iê-iê-iê, sucesso com o público, mas fracasso com a crítica. Depois de a Tropicália promover sua geleia geral e dizer que era proibido proibir – inclusive as guitarras – o rock foi ganhando força e sotaque brasileiro a partir de 1968, impulsionado, principalmente, por Os Mutantes – e também por grandes nomes como Secos e Molhados, Novos Baianos, Walter Franco, entre outros. Mas foi em 1973, com o lançamento do álbum “Krig-Ha, Bandolo!”, que o rock no Brasil era apresentado à sua maior lenda: Raul Seixas.

O soteropolitano já havia gravado anteriormente, mas foi só com o disco que trazia “Ouro de tolo” e “Metamorfose ambulante” que ganhou destaque. Antes de experimentar os primeiros acordes em uma guitarra, Raul era um leitor compulsivo, passava horas na biblioteca de seu pai, lendo e criando tramas e personagens. Vem daí o interesse por filosofia, história e por narrativas, ingredientes que, misturados ao rock e ao baião, resultaram em uma combinação explosiva de riffs e letras críticas e ácidas: ora bem-humoradas, ora melancólicas.

Em seus primeiros trabalhos, Milton impressionara com suas composições e sua voz, mas a música seguia o molde tradicional. Com os amigos mineiros, bagunçou o coreto: o violão era harmônico e percussivo ao mesmo tempo; a percussão trazia ritmos da África que passou por Minas Gerais e tinha vida própria, assim como a voz, nem sempre a serviço da letra, mas como instrumento; misturados a guitarras distorcidas e elementos da música pop e do rock. Tudo apresentado em arranjos sofisticados e amparados por poemas que refletiam toda a beleza e a intensidade do clube mais importante da MPB.

Nos bastidores: Com nove anos de idade Raul ganhou dos pais seu primeiro violão. Não deu muita atenção no começo, mas aos poucos foi se interessando e tirando alguma coisa dali. Quando sua família mudou para uma casa ao lado do consulado americano, fez amizade com os garotos de lá, que o apresentaram ao rock’n’roll. Ouvindo discos de Elvis, Little Richards, Fats Domino à exaustão, Raulzito se transformou: passou a usar topetes, camisa com gola alta e a se comportar como um rebelde: “Eu era o próprio rock”, diria mais tarde.

Não deixe de ouvir: Ouro de tolo (Raul Seixas), Rockixe (Raul Seixas/ Paulo Coelho), Jardim elétrico (Os Mutantes), Ando meio desligado (Os Mutantes), Primavera nos dentes (Secos e Molhados/ J. Ricardo e J. Apolinário).

Raul Seixas

Metamorfose Ambulante - Raul Seixas

Metamorfose Ambulante - Raul Seixas

MAU (Movimento Artístico Universitário)

Nomes: Ivan Lins, Aldir Blanc, Gonzaguinha, João Bosco

Período explosivo: 1970 e 1971

Por que marcou época: Assim como boa parte das manifestações culturais brasileiras e no mundo, o Movimento Artístico Universitário nasceu de maneira espontânea. O embrião do MAU foi gerado em um sobrado na rua Jaceguai, 27, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ali, as filhas do psiquiatra Aluízio Porto Carrero, Ângela – que seria a primeira esposa de Gonzaguinha – e Regina, recebiam frequentemente seus amigos universitários. As reuniões costumavam ser movidas a longas conversas, jogos de carta, rodas de violão e, não raro, invadiam a madrugada.

Acontece que entre os frequentadores estava gente como Ivan Lins, Gonzaguinha, João Bosco e Aldir Blanc – esses últimos, dupla recordista de composições gravadas por Elis Regina. E, embora ainda incertos em relação à que carreira escolher – Ivan Lins estudava Engenharia Química; Gonzaguinha, Economia –, a coisa foi ficando mais séria para o lado da música. A produção artística de alguns desses músicos extrapolou os festivais internos: em 1968 uma canção letrada por Aldir Blanc ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção; e em 1970 Ivan Lins alcançava a mesma posição no mesmo festival com a composição “O amor é meu país”.

Em 1971, parte do grupo foi chamada pela rede Globo para protagonizar o programa Som Livre Exportação, o que futuramente resultou na dissolução do movimento.

Nos bastidores: Além de ser gravado por Elis Regina, Ivan Lins teve músicas suas interpretadas por artistas estrangeiros consagrados, como George Benson, Ella Fitzgerald, Barbra Streisand e Quincy Jones. Esse último, aliás, em visita ao Brasil, pediu autorização a Lins para fazer uma versão de “Novo tempo” para incluir no disco Thriller, de Michael Jackson, do qual Quincy era produtor. Como Ivan não respondeu a tempo, sua canção acabou de fora.

Não deixe de ouvir: Madalena (Ivan Lins), O amor é meu país (Ivan Lins), Comportamento geral (Gonzaguinha), O bêbado e o equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc).

Ivan Lins

Madalena – Ivan Lins (composição Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza)

Madalena – Ivan Lins (composição Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza)

Novo Nordeste

Nomes: Alceu Valença, Fagner e Belchior

Período explosivo: 1971 a 1991

Por que marcou época: No início da década de 1970, quando a bossa nova e a canção de protesto se mostravam mais fracas devido à repressão do regime militar, uma turma do Nordeste tomou o rumo do eixo Rio-São Paulo e despertou a curiosidade das rodas que já eram habitués dos bares, teatros e festivais na região sudeste.

Raimundo Fagner, hoje conhecido por baladas como “Borbulhas de amor” e pelo sucesso de vendas nas décadas de 1980 e 1990, ainda passou por Brasília antes de chegar de vez às metrópoles que concentravam a agitação cultural da época. No Rio de Janeiro, teve a sua música “Mucuripe” regravada por ninguém menos que Elis Regina. No ano seguinte, em 1972, participou do VII Festival Internacional da Canção, quando várias outras novidades nordestinas vieram à tona: Ednardo e Belchior, também cearenses, e Alceu Valença, pernambucano.

Embora esses nomes sejam mais conhecidos atualmente, Ricardo Bezerra e Amelinha também podem ser listados como autênticos representantes do gênero. Cantando a realidade que haviam deixado para trás na terra natal, os nordestinos chamam a atenção pela poesia de suas letras, algumas vezes bastante dramáticas, e por arranjos musicais que ora tendem para o experimentalismo, ora resgatam os ritmos do Nordeste, sem deixar de lado, no entanto, a vertente pop e de fácil assimilação.

Nos bastidores: O primeiro álbum de Fagner, Manera Fru Fru Manera, foi lançado em 1973, pela Philips, e tinha duas participações ilustres: o percussionista Naná Vasconcelos e a cantora Nara Leão. O insucesso nas vendas, no entanto, fez com que o LP fosse recolhido – o relançamento viria só três anos depois, quando ele já estava em outra gravadora. E a “polêmica” não pararia por aí: “Canteiros”, um de seus maiores triunfos, gerou problemas com a família da poetisa Cecília Meireles, que alegou que o compositor usou trechos de obras dela sem dar o devido crédito. Hoje, Manera Fru Fru Manera é tido como um dos grandes discos brasileiros da década de 1970.

Não deixe de ouvir: Vou danado para Catende (Alceu Valença); Coração bobo (Alceu Valença), Mucuripe (Fagner/ Belchior), Como nossos pais (Belchior), Beira-mar (Zé Ramalho).

Fagner, Belchior e Alceu Valença

Anunciação - Alceu Valença

Anunciação - Alceu Valença

Instrumental

Nomes: Hermeto Pascoal, Quarteto Novo, Quinteto Armorial, Moacir Santos, Egberto Gismonti, Grupo Pau Brasil

Período explosivo: 1950 a 1970

Por que marcou época: Desde muito cedo Hermeto Pascoal teve uma relação singular com a música – não necessariamente intermediada por um instrumento, mas pelos sons da natureza e das coisas. Quando menino, em Lagoa da Canoa (AL), onde foi criado, fazia pífanos com os canos da mamona do gerimum (abóbora) e tocava para a passarada. Ou passava o tempo na lagoa tocando com a água, ou tirando sons das sobras de ferro que seu avô usava no trabalho. Aos sete anos, experimentou pela primeira vez um instrumento, um acordeon oito baixos de seu pai, e não parou mais.

No fim da década de 1950, depois de ter rodado pelo Nordeste como músico profissional, mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades. Em 1966, montou com os músicos Heraldo do Monte (viola e guitarra), Théo de Barros (baixo e violão) e Airto Moreira (bateria e percussão), o conjunto Quarteto Novo, no qual tocava piano e flauta.

Sua linguagem única; a capacidade de misturar diversos ritmos brasileiros – como o xaxado, forró e xotes – dando a eles outra dimensão; o senso de improviso fora do comum; e as experimentações com diversos instrumentos, objetos – e até animais – tornaram-no referência dentro e fora do Brasil. O que não é pouca coisa em um país rico em expoentes da música instrumental, como Egberto Gismonti, Moacir Santos, Sivuca, Airto Moreira, Paulo Bellinati, Nelson Ayres, e muitos outros.

Nos bastidores: No começo dos anos 1960, os empregos para instrumentistas no Brasil começaram a rarear. A música da bossa nova, dominante no período, dispensava grandes orquestrações; a rádio, que reunia grandes orquestras, perdia espaço para a televisão, e boa parte das emissoras dispensou seus músicos. Com isso, houve uma debandada de artistas brasileiros para os EUA e muitos foram trabalhar com trilhas de cinema em Hollywood. Airto Moreira participou da trilha de Apocalypse now e O exorcista, e, reza a lenda, Moacir Santos foi ghost writer da famosa música de abertura de Missão impossível.

Não deixe de ouvir: Bebê (Hermeto Pascoal), Computador (Egberto Gismonti), Xibaba (Airto Moreira), Coisa nº 2 (Moacir Santos).

Hermeto Pascoal

Bebê - Hermeto Pascoal

Bebê - Hermeto Pascoal

Vanguarda Paulistana

Nomes: Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Ná Ozetti, Grupo Rumo, Premeditando o Breque

Período explosivo: 1979 a 1985

Por que marcou época: Em outubro de 1979, um pequeno teatro foi improvisado onde antes havia uma loja de móveis, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Por lá, durante cerca de seis anos, diversas bandas e artistas – hoje lembrados como membros da Vanguarda Paulistana – iniciaram uma proposta que agora pode soar comum: descontentes com o domínio de grandes gravadoras (boa parte multinacionais) sobre a música que se produzia no país, nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e o grupo Premeditando o Breque passaram a lançar suas obras de forma independente.

Um dos motivos que levou a essa mudança de paradigmas foi que os selos da época, diferentemente de anos antes, não estavam mais interessados em promover nomes recém-surgidos, muitos deles experimentais e com grandes chances de fracassarem comercialmente. O Teatro Lira Paulistana, cujo nome foi inspirado em uma obra do poeta Mário de Andrade, também batizou o selo da Vanguarda Paulistana.

Titãs e Ultraje a Rigor, nomes amplamente conhecidos atualmente, começaram lá, no pequeno inferninho de Pinheiros – a maioria, entretanto, nunca se tornou um sucesso de vendas, como já havia sido previsto. Ainda assim, cabe a ressalva: os “malditos”, como foram taxados, foram recebidos pela crítica da época com grande entusiasmo, marcando para sempre a passagem pelo cenário cultural de São Paulo.

Nos bastidores: Além de toda a experimentação musical que acontecia no Lira Paulistana, os frequentadores e protagonistas do movimento proporcionaram na década de 1980 um momento de grande efervescência em vários outros campos. Artes plásticas, cinema, teatro e literatura foram misturados em um caldeirão dos independentes. Um exemplo disso é o jornal O Matraca, que teve doze exemplares e era feito pelo conjunto Língua de Trapo.

Não deixe de ouvir: Clara crocodilo (Arrigo Barnabé e Mário Lúcio Cortes), Parece que bebe (Itamar Assumpção), Brigando na lua (Premeditando o breque), Acho pouco (Grupo Rumo/ Luiz Tatit).

Itamar Assumpção

Nego Dito – Itamar Assumpção e Isca de Polícia (composição Itamar Assumpção)

Nego Dito – Itamar Assumpção e Isca de Polícia (composição Itamar Assumpção)

BRock ou Rock Brasil

Nomes: Cazuza, Blitz, Barão Vermelho, Kid Abelha, Os Abóboras Selvagens, Ira, Paralamas do Sucesso, Titãs, Ultraje a Rigor, RPM, Legião Urbana, Lulu Santos, Lobão, Ritchie, Léo Jaime, Engenheiros do Hawai, Voluntários da Pátria

Período explosivo: 1982 a 1990

Por que marcou época: Em 1982, um cantor ainda desconhecido, filho de um grande produtor musical carioca, fez a sua estreia em uma casa de shows no Rio de Janeiro, o Circo Voador. Agenor, ou Cazuza, como ficou eternizado na história da música brasileira, foi um dos grandes protagonistas do BRock na década de 1980, um tempo em que o rock’n’roll foi considerado genuinamente brasileiro. Coroado pelo timbre oitentista, fortemente influenciado por batidas eletrônicas e por timbres marcantes, o Rock Brasil surgiu em um período de grandes transformações.

Com o abrandamento da Ditadura Militar e o início da campanha pelas eleições diretas, a música tinha espaço para protestar e mais chances de conseguir fazer a "revolução" de fato. Blitz, Lulu Santos e grupos de Brasília, como Legião Urbana e Capital Inicial (pós-Aborto Elétrico), passaram a representar a música no Brasil. Com o Barão Vermelho, Cazuza marcou a época, misturando a poesia de suas composições, a atitude rebelde, inconformada, e a postura crítica em relação ao país, com sucessos do naipe de “O tempo não para”.

Em 1990, com a morte de Cazuza e o crescimento de outros gêneros mais comerciais – pagode e sertanejo entre eles –, o BRock foi se esvaindo e perdendo espaço. Até hoje, porém, os hits da época continuam inesquecíveis.

Nos bastidores: Cazuza era poeta, talentoso, performático, mas também era extremamente explosivo. Não à toa, arrumou confusão com amigos e desafetos desde que começou a carreira, na década de 1980. Provavelmente, foi com o seu amigo Frejat que ele mais se atracou: em entrevista à revista Veja, em 2003, o guitarrista do Barão Vermelho – conjunto que acompanhou o cantor durante anos – lembrou as brigas com o amigo: “Cazuza nunca tinha sido muito profissional, mas essa atitude foi o cúmulo. Ficamos seis meses sem nos falar depois daquilo”, contou, sobre o episódio em que o parceiro anunciou a separação da banda, ao fim de um show.

Não deixe de ouvir: Bete balanço (Cazuza/ Frejat), Igreja (Titãs), Será (Legião Urbana), Você não soube me amar (Blitz).

Cazuza

O tempo não para – Cazuza (composição Arnaldo Brandão)

O tempo não para – Cazuza (composição Arnaldo Brandão)

Soul Music

Nomes: Tim Maia, Black Rio, Tony Tornado, Hyldon, Cassiano

Período explosivo: 1970 a 1986

Por que marcou época: Preto, pobre e cafajeste. É assim mesmo, sem meias palavras, que Tim Maia definia a si próprio. A despeito de todos os problemas “extracampo” que o músico da Tijuca causava, é inegável o sucesso que a sua voz grave causou durante décadas. Nascido na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde conheceu os amigos Jorge Ben e Erasmo Carlos ainda na infância, Sebastião Maia foi para os Estados Unidos em 1959, quando escutou pela primeira vez a Soul Music; de volta, deportado por posse de drogas, o cantor passou a usar a experiência no exterior para modernizar o rock que vinha sendo feito no Brasil.

Em poucos anos, Tim Maia lançou sucessos que ecoam até hoje, como “Azul da cor do mar”, “Eu amo você” e “Não quero dinheiro”. Foi quando, em 1975, ele surgiu diferente: afastado das drogas de que tanto gostava, sem sequer comer carne e vestindo apenas trajes brancos, o cantor se dizia então um representante da Cultura Racional, doutrina filosófica que tenta explicar a origem do planeta e dos seres humanos. Religião à parte, o fato é que os dois discos que Tim lançou enquanto vivia no mundo Racional podem ser considerados grandes pérolas da Soul Music brasileira. Curioso é que, desiludido em 1977 com a doutrina, ele tentou tirar todas as cópias de circulação; as que sobraram hoje são itens raros de colecionador.

Distanciado da Cultura Racional e entregue novamente à vida desregrada, Tim Maia lançou mais discos de Soul. Um dos destaques foi o álbum “Tim Maia Disco Club”, com a Banda Black Rio, que leva uma de suas grandes obras-primas, “Sossego”.

Nos bastidores: Em 1957, cinco garotos influenciados pelo rock’n’roll norte-americano e pela sonda espacial soviética Sputnik decidiram montar uma banda. Dentre eles, estavam Tim Maia e Roberto Carlos, ainda completamente desconhecidos. Certa vez, os roqueiros dos Sputniks se apresentaram na TV Tupi, em um programa comandado por Carlos Imperial. Roberto, então, viu a repercussão de sua voz e pediu ao produtor para continuar as aparições sem a banda. A decisão nunca foi bem aceita por Tim, que passou muito tempo maldizendo o Rei. Se por um lado deve existir quem se pergunte que frutos teria dado uma parceria entre o Rei Roberto Carlos e o síndico Tim Maia, por outro, é importante lembrar que foi após essa "traição" de Roberto que o cantor de '”Réu confesso” foi atrás do próprio Imperial para seguir sua frutífera carreira solo.

Não deixe de ouvir: Sossego (Tim Maia), Gostava tanto de você (Tim Maia), Na rua, na chuva, na fazenda (Banda Black Rio/ Oberdan/ Luís Carlos), A lua e eu (Cassiano).

Tim Maia

Sossego - Tim Maia

Sossego - Tim Maia

Sertanejo-pop

Nomes: Chitãozinho e Xororó, Zezé de Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, Sérgio Reis, João Paulo e Daniel

Período explosivo: 1979 a 2013

Por que marcou época: Estima-se que Chitãozinho e Xororó, em cerca de quatro décadas de carreira, já tenham vendido mais de 30 milhões de discos. A dupla, os números não negam, forma uma das mais bem-sucedidas parcerias musicais do Brasil. Muito além disso, porém, os dois irmãos paranaenses inauguraram uma nova era do gênero – a música sertaneja começou ainda no início do século 20, mas foi a partir da década de 1980 que ela viveu a sua era mais moderna.

Recheados de romantismos e histórias sofridas sobre o amor, hits de Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo e outros expoentes do novo sertanejo passaram a invadir a casa de ouvintes em todo o país. Na rádio e em programas de auditório, a música dessas duplas passou a fazer parte do cotidiano das pessoas, que se identificavam com os “causos” contados pelos artistas. Além disso, diferentemente das décadas anteriores, em que predominavam os violões e as violas caipiras, a entrada da guitarra elétrica no sertanejo-pop deu outra roupagem para o gênero, tornando possível também a realização de shows de grandes proporções – sempre lotados, diga-se de passagem.

Não bastasse toda essa transformação, as duplas já citadas, e outras como João Paulo e Daniel e Chrystian & Ralf, também promoveram uma mudança nos costumes, aproximando a cultura sertaneja brasileira do country norte-americano. Hoje em dia, apesar do surgimento de novas vertentes, como o sertanejo universitário, o sertanejo pop ainda continua em voga e aclamado por milhões de fãs.

Nos bastidores: Em 1995, o especial de fim de ano de Roberto Carlos, transmitido pela TV Globo desde a década de 1970, ganhou um “concorrente”. Naquele ano, até 1998, o Brasil assistiu na época de Natal – além do espetáculo do rei, é claro – a um outro marco: protagonizado por Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano, e Leandro e Leonardo, o show Amigos conquistou o país e consolidou ainda mais a hegemonia dos sertanejos românticos no mercado. Na apresentação, as duplas se revezavam, cantavam as músicas dos parceiros e emocionavam o país com a camaradagem que existia entre todos ali no palco.

Não deixe de ouvir: Fio de cabelo (Chitãozinho e Xororó), Não aprendi dizer adeus (Leandro e Leonardo), É o amor (Zezé de Camargo e Luciano), Evidências (Chitãozinho e Xororó), Um sonhador (Leandro e Leonardo).

Chitãozinho e Xororó

Evidências – Chitãozinho & Xororó (composição José Augusto e Paulo S. Valle)

Evidências – Chitãozinho & Xororó (composição José Augusto e Paulo S. Valle)

Pop

Nomes: Lenine, Chico César, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro

Período explosivo: 1980 em diante

Por que marcou época: O termo é controverso, mas o “pop”, para a maioria dos estudiosos, é toda música “comercial e acessível”. O rótulo tem muito mais a ver com uma particularidade da indústria – principalmente a que se configurou a partir dos anos 1980 – do que com a música propriamente. De maneira geral, a música produzida a partir dessa década se prendeu a fórmulas de sucesso comercial, mas houve exceções.

Enquanto alguns se ancoravam nessa padronização empobrecedora, uma série de artistas começou a surgir com uma proposta parecida de não se prender em uma escola musical ou receituário. No que se convencionou classificar de “música pop” no Brasil cabe de tudo: baião, samba, bossa nova, world music, forró, rock, o que for. Marisa Monte, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro e Lenine sabem bem disso.

A obra de Lenine, por exemplo, é marcada pelo violão limpo, com balanço, pela presença de percussão e ritmos nordestinos, como a embolada. Mas guitarras distorcidas e experimentações eletrônicas também fazem parte do universo sonoro do compositor, considerado um dos maiores renovadores da Música Popular Brasileira do final do século 20.

Nos bastidores: Oswaldo Lenine Macedo Pimentel recebeu o Lenine do pai, José Geraldo, como uma homenagem ao líder comunista soviético, Lênin. Desde pequeno se interessou por música, e tocava escondido o violão da irmã aos oito anos. Nessa mesma época, ganhou o direito de escolher a programação musical da casa nos dias de domingo. A trilha sonora variava desde Tchaikovsky a Jackson do Pandeiro.

Não deixe de ouvir: Olho de peixe (Lenine), Segue o seco (Marisa Monte/ Carlinhos Brown), Nome (Arnaldo Antunes), Heavy Metal do Senhor (Zeca Baleiro).

Lenine

Do it – Lenine (composição Lenine e Ivan Santos)

Do it – Lenine (composição Lenine e Ivan Santos)

Manguebeat

Nomes: Chico Science & Nação Zumbi (Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio, Faces do Subúrbio, Eddie, Via Sat, Querosene Jacaré e Jorge Cabeleira)

Período explosivo: anos 1990

Por que marcou época: Cansados do descaso político e cultural do Brasil, que valorizava só o eixo Rio-São Paulo, os jovens de Recife fundaram um movimento que voltava os olhos para a cultura local – maracatu, frevo, forró, cavalo marinho – e a reinventava com a inserção de guitarras, sintetizadores, ritmos do rock ao pop. Esse era o manguebeat, manifestado formalmente pelo fundador da banda Mundo Livre S/A, Fred Zero Quatro, em 1992. No texto intitulado “Caranguejos com cérebro”, o cantor define o ambiente recifense como Manguetown, habitado pelos mangueboys e manguegirls, e atenta para a necessidade de mudança: “Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!”.

Outra figura central para o movimento manguebeat foi o cantor Chico Science, que fundou a banda Nação Zumbi. Além de ter influenciado (e, alguns dizem, coescrito) o manifesto de Fred Zero Quatro, o artista e sua banda lançaram dois CDs essenciais para a história do movimento: Da lama ao caos (1995) e Afrociberdelia (1996). “Modernizar o passado é uma evolução musical”, diz a letra da música “Monólogo ao pé do ouvido”, do primeiro CD. Chico Science morreu em um acidente de carro, em 1997, mas a Nação Zumbi seguiu com Jorge du Peixe nos vocais.

Apesar de ter vivido seu auge na década de 1990 (Chico Science, Fred Zero Quatro e Lúcio Maia, outro mangueboy, chegaram a compor a trilha sonora do filme Baile perfumado, em 1997), o manguebeat continua em atividade, algumas bandas com sua formação original, outras tantas que surgiram da influência das fundadoras do movimento. Nação Zumbi e Mestre Ambrósio tiveram reconhecimento internacional e chegaram a fazer turnês pela Europa.

Nos bastidores: 15 anos após a morte de Chico Science, em 2012, Fred Zero Quatro publicou um segundo manifesto, reavaliando o manguebeat. Em contraposição com a imagem da “antena parabólica enfiada na lama”, símbolo do movimento, e da Manguetown, o cantor identifica em Hellcife a entrada de vez dos “neurotransmissores na lama”: “Se antes os mangueboys se inspiravam na antipsiquiatria e na teoria do caos, hoje alguns deles se interessam pelo conceito de capitalismo linguístico”. Neurociência, computação e novos ritmos, como o indie e o neofolk, se misturam na cena musical com os cada vez mais raros mangueboys. Fred Zero Quatro, ainda assim, acredita na possibilidade de interatividade com os novos ritmos e clama: “Voltemos a ganhar a estrada, portanto”.

Não deixe de ouvir: discos Da lama ao caos (Chico Science e Nação Zumbi, 1995), Afrociberdelia (Chico Science e Nação Zumbi, 1996), Mestre Ambrósio (1996), Fuá na casa de Cabral (Mestre Ambrósio, 1998), Samba esquema noise (Mundo Livre S/A, 1994), Guentando a ôia (Mundo Livre S/A, 1996).

Chico Science & Nação Zumbi

Maracatu Atômico – Chico Science & Nação Zumbi (composição Jorge Mautner e Nelson Jacobina)

Maracatu Atômico – Chico Science & Nação Zumbi (composição Jorge Mautner e Nelson Jacobina)

Rap

Nomes: Racionais MC’s, Sabotage, RZO, Thaíde

Período explosivo: 1988 em diante

Por que marcou época: Na década de 1980, quatro camaradas da periferia de São Paulo se juntaram pra formar um grupo de rap que, alguns anos depois, se tornaria o principal expoente do gênero no país. Formado por Ice Blue, Edi Rock, KL Jay e Mano Brown, os Racionais MC’s fizeram sua primeira gravação em 1988. Seguindo a proposta de cantar os problemas vividos por quem mora da ponte para lá (na capital paulista, a expressão se refere aos bairros afastados do centro, sobretudo na Zona Sul, depois do rio Pinheiros), violência, criminalidade, sistema carcerário, pobreza e falta de perspectivas são tratadas de forma crua e direta, com letras hiper-realistas e que continuam atuais. Com essa bandeira, Mano Brown e vários outros deram voz a uma classe que raramente aparecia para além das quebradas, com uma batida forte, grave e recheada de rimas bem elaboradas.

Dentre os cinco álbuns lançados, Sobrevivendo no Inferno, de 1997, pode ser considerado o maior sucesso dos Racionais MC’s, que saiu pelo selo Cosa Nostra, criado por eles próprios. A “marca” lançou diferentes figuras do rap nacional, como o grupo RZO (de Sandrão, Helião e DJ Cia) e o rapper Sabotage. Apesar de serem considerados absolutos no rap, os Racionais deixaram um legado seguido não só pelos artistas da periferia paulistana, mas também por músicos de norte a sul do Brasil. Recentemente, o grupo voltou a reaparecer com trabalhos inéditos, como a música “Mil faces de um homem leal”, sobre a vida do guerrilheiro comunista Carlos Marighella.

Nos bastidores: Mais de duas décadas depois de surgir “pesadão” com os Racionais MC’s, o discurso de Mano Brown continua firme e forte, denunciando os problemas da periferia e lembrando a cada verso a realidade violenta que existe nos bairros mais pobres. Mesmo assim, em 1998, o grupo foi um dos grandes vencedores do VMB (premiação musical promovida pela MTV) e a partir daí passou a ser mais conhecido, e bastante admirado, por fãs de realidades totalmente diferentes das retratadas nas letras de rap – nos bairros nobres, jovens escutam os clássicos dos Racionais em alto e bom som. Em 2012, a turma de Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay levou outro prêmio no VMB, dessa vez de melhor clipe do ano.

Não deixe de ouvir: Capítulo 4, versículo 3 (Racionais MC’s), Da ponte pra cá (Racionais MC’s), Na Zona Sul (Sabotage), O oitavo anjo (509-E).

Mano Brown

Diário de um detento – Racionais MC’s (composição Mano Brown e Jocenir)

Diário de um detento – Racionais MC’s (composição Mano Brown e Jocenir)

Pagode

Nomes: Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Beth Carvalho, Jovelina Pérola Negra, Arlindo Cruz, Sombrinha, Só pra Contrariar

Período explosivo: Décadas de 1980 e 1990

Por que marcou época: A palavra pagode, que na época da escravidão era usada para nomear as festas que os escravos faziam nas senzalas, foi resgatada na década de 1970, no Rio de Janeiro, para chamar os sambas de roda que aconteciam nas casas de subúrbio. De caráter popular e com letras de temáticas românticas, o samba que ali faziam começou a ganhar variantes, até ser finalmente comercializado na década de 1980 como pagode.

O grupo Fundo de Quintal, considerado o primeiro do gênero, também foi pioneiro na instrumentação: introduziu nas rodas o repique de mão, o tantã e o banjo com braço de cavaquinho. Outros nomes, como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Os Originais do Samba, também contribuíram para a consolidação do gênero, que virou grande sucesso comercial na década de 1990.

O pagode é um ritmo tipicamente tocado em grupo e pede a participação do público. Os refrãos são simples e cantados em uníssono pelo coro, e muitas vezes há a influência do brega e do sertanejo. Durante a década de 1990, o pagode se aproximou do pop ao acrescentar teclados e sintetizadores nas músicas. Já os mais tradicionais continuam tendo o partido-alto e o samba como influência principal.

Nos bastidores: Zeca Pagodinho, uma das maiores celebridades do cenário musical brasileiro, é o típico malandro carioca. O fato se comprovou entre 2003 e 2004, quando foi convidado para ser o garoto propaganda da cerveja Nova Schin. Depois de aparecer em comercial de TV saboreando o “novo sabor”, em outubro de 2003, Zeca Pagodinho reaparece nas telas, dessa vez em um comercial da Brahma. A Schincariol, dona da Nova Schin, e a Ambev, responsável pela Brahma, entraram em conflitos judiciais, que envolveram processo por quebra de contrato, alfinetadas em declarações e novos comerciais, com uma sósia do artista sendo chamado de “traíra”. Por fim, Zeca Pagodinho foi proibido de realizar propagandas junto a Brahma, e a Nova Schin teve que encontrar outro garoto-propaganda.

Não deixe de ouvir: A amizade (Fundo de Quintal/ Cleber Augusto), Nosso grito (Fundo de Quintal/ Riquinho/ Sereno), Deixa a vida me levar (Zeca Pagodinho/ Eri Do Cais/ Serginho Meriti), O show tem que continuar (Fundo de Quintal/ Arlindo Cruz/ Luiz Carlos Da Vila/ Sombrinha Cruz), Vou festejar (Beth Carvalho/ Dida/ Jorge Aragão), Camarão que dorme a onda leva (Beth Carvalho/ Zeca Pagodinho/ Arlindo Cruz), Tal liberdade (Só pra Contrariar).

Zeca pagodinho

Deixa a vida me levar – Zeca Pagodinho (composição: Eri do Cais e Serginho Meriti)

Deixa a vida me levar – Zeca Pagodinho (composição: Eri do Cais e Serginho Meriti)

Axé

Nomes: Daniela Mercury, Margareth Menezes, Ivete Sangalo, É o Tchan, Claudia Leitte, Banda Refluxus, Banda Beijo, Banda Eva, Muzemza, Ilê Aiyé

Período explosivo: Década de 1990 e início dos anos 2000

Por que marcou época: Mistura de diversos ritmos africanos e afrobrasileiros, como o lundu e afoxé, e caribenhos, como o merengue e a salsa, o axé surgiu no cenário baiano na década de 1980, mas virou sensação na década seguinte graças principalmente à atuação de duas cantoras: Daniela Mercury e Margareth Menezes. Outros grupos, como Olodum e Timbalada, e mais adiante o grupo É o Tchan e Ivete Sangalo, levaram o axé para as maiores gravadoras do Brasil e para as rádios.

Rapidamente, o ritmo se tornou tradição do carnaval de Salvador. Os trios elétricos, carros com alto-falantes que arrebanham as multidões nas ruas, é marca registrada desse evento que tipicamente atrai muitos turistas ao Brasil. Eles tiveram origem em 1950, quando um carro Ford saiu às ruas decorado com confetes e madeira compensada presa nas laterais onde se lia “A Dupla Elétrica”. Criado por Dodô e Osmar, o primeiro trio elétrico tocou frevos e marchinhas. Equipado apenas com alto-falantes e instrumentos elétricos amadores, conseguiu atrair a atenção de foliões, que o seguiram pelas ruas. Hoje, juntamente com os blocos de rua, os trios se consolidaram como a maior expressão do carnaval baiano.

Com produções cada vez mais megalomaníacas, os shows de axé também são um marco do ritmo. O grupo É o Tchan, que ganhou popularidade (e muitas críticas) com suas coreografias sensuais e letras com duplo sentido e humor, era conhecido por realizar shows para grande público e com infraestrutura que veio dar exemplo no show business. O grupo foi o maior fenômeno musical dos anos 1990, com 10 milhões de discos vendidos em cinco anos, no Brasil e no exterior.

Nos bastidores: Muito antes da fama nacional, o grupo É o Tchan (na época conhecido como Gera Samba) se apresentava aos domingos em uma casa de shows de Salvador. Foi em um desses “shows-ensaio” que o cantor Beto Jamaica convidou uma loura que dançava no meio do público para subir ao palco com a banda. A reação positiva do público foi imediata. Em seguida, chamaram uma morena que estava por perto para dançar junto. Foi assim que Carla Perez e Débora Brasil iniciaram a parceria que as tornaria as dançarinas mais famosas do axé, conhecidas como “a Loira e a Morena do Tchan”, ao lado do dançarino e coreógrafo Jacaré.

Não deixe de ouvir: disco É o Tchan (1995), Swing da cor (Daniela Mercury/ Luciano Gomes), O canto da cidade (Daniela Mercury), Nobre vagabundo (Daniela Mercury/ Marcio Mello), Dandalunda (Margareth Menezes/ Carlinhos Brown), Festa (Ivete Sangalo/ Anderson Festa Cunha).

Daniela Mercury

O canto da cidade - Daniela Mercury

O canto da cidade - Daniela Mercury

disco de prata

Disco
de Prata

(3 a 9 pontos)

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disco de ouro

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de Ouro

(10 a 19 pontos)

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disco de platina

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de Platina

(20 a 29 pontos)

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disco de diamante

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Diamante

(30 a 34 pontos)

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Créditos
Edição: Bettina Monteiro. Reportagem: Camilo Gomide, Isadora Bertolini Labrada e Manoela Meyer. Edição de arte: Daniela Decourt. Ilustração: Maurício Melo. Layout: Aline Casassa. Áudio: Marcos Mesquita. Programação: Prata Design. Coordenação: Iana Chan
Fontes: Música Popular - Um tema em debate, de José Ramos Tinhorão; Pequena História da Música Popular Brasileira, de José Ramos Tinhorão e A Canção no Tempo, vol. 1 e 2, de Zuza Homem de Melo. Consultoria: Prof. Dr. Ivan Vilela, da Escola de Comunicações de Artes da USP.