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VIOLÊNCIA

"O bullying está em todas as escolas, ou quase"

Autor do maior plano contra o bullying na França, o especialista francês Eric Debarbieux fala sobre o problema no Brasil


09/06/2011 18:16
Texto Lúcia Müzell, de Paris
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Foto: O bullying é um dos temas abordados no filme As Melhores Coisas do Mundo
O bullying é um dos temas abordados no filme As Melhores Coisas do Mundo

Eric Debarbieux é o homem que está por trás do maior plano contra o bullying já lançado na França. Diretor do Observatório Internacional das Violências nas Escolas - que reúne experts de 15 países -, Debarbieux dirigiu uma ampla pesquisa sobre a violência nas escolas francesas, que resultou em uma cartilha que será distribuída aos professores franceses a partir de 2012. Objetivo: ensinar os mestres a evitar o problema pela raiz, ao mesmo tempo em que será lançada uma campanha nacional para evitar o assédio escolar, como o bullying é chamado na França. Além disso, o especialista também ataca os "ciberataques": chegou a um acordo com a rede de relacionamentos Facebook para fechar as contas de jovens que são pegos insultando os colegas pela internet. "O bullying é uma das violências mais graves que uma pessoa pode sofrer", diz.

Autor de seis livros sobre o tema, dois deles publicados no Brasil, o francês foi diretor de Pesquisas e Avaliação da Unesco no Brasil entre 2003 e 2004 e mantém uma relação de carinho e proximidade com os brasileiros. No país, realizou uma pesquisa sobre a violência escolar com mais de 11,5 mil alunos e constatou que o bullying brasileiro segue a linha dos outros países: atinge todos os meios sociais e focaliza-se no aluno que destoa do grupo. Mas o que mais chamou a atenção dele no caso brasileiro foi o elevado preconceito racial entre os estudantes.

Para ler, clique nos itens abaixo:
Em 2004, você realizou para a Unesco uma pesquisa com mais 11,5 mil alunos sobre a violência nas escolas públicas brasileiras. Quais as principais conclusões?
Eric Debarbieux : Pudemos constatar coisas muito interessantes, especialmente os resultados comparativos, que mostram que a realidade da violência nas escolas brasileiras era muito menor do que nas escolas francesas - o que pode parecer um paradoxo, se olharmos o entorno onde essas escolas se situam. No Brasil, eram regiões bastante pobres, como em favelas. Mas isso não quer dizer, é claro, que o problema da violência não exista. Se analisamos os dados de perto, podemos justificá-los de várias formas, a começar pelo tempo que as crianças passam na escola. Passando menos tempo, de três a quatro horas por dia, elas sofrem menos violências do que as crianças francesas, que ficam de oito a nove horas estudando. Outro ponto é que as escolas brasileiras eram muito protegidas pelos traficantes, nas favelas, até porque os filhos deles estavam lá dentro.

Finalmente, tem um detalhe muito positivo que percebi não apenas no Brasil como em vários países pobres, que é o quanto a escola é considerada como um capital social do bairro. A ligação entre a escola e o meio onde ela se insere é quase natural, e por isso a comunidade protege a escola. Achei essa relação muito interessante. Lembro que quando eu estava em Salvador, todo o sábado de manhã as crianças iam à escola para brincar e jogar, em uma relação muito mais calorosa com o estabelecimento que nós encontramos na França. A minha conclusão é que, qualquer que seja a dificuldade que a comunidade enfrenta, essa boa relação com as escolas é um ponto-chave para enfrentar as violências.
O bullying no Brasil é grave?
Eric Debarbieux : Sim, percebemos que, no Brasil, assim como em todos os países hoje em dia, este problema é grave. Vocês têm de uma sociedade multiétnica, multiracial, multicultural, mas que esconde agressões morais graves atrás desta realidade. Fiquei impressionado de constatar o quanto o bullying é ligado a preconceitos de raça e de origens de cada um. Visitei todos os tipos de locais, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Brasília. Essa estratificação da sociedade brasileira, que constatei naquela época, se transfere às escolas.
Há diferença entre as escolas pobres e as frequentadas pela classe média alta?
Eric Debarbieux : A ocorrência do bullying é menos ligada ao meio social do que as outras violências mais brutais. O bullying está em todas as escolas, ou quase. É um fenômeno transocial. Uma pesquisa que acabei de fazer na França mostra que este problema acontece ligeiramente mais nas escolas de zonas mais pobres, mas a diferença não é significativa. Varia de 17 a 18% nas zonas pobres, contra 14 a 15% nos demais estabelecimentos. Já na Irlanda, por exemplo, essa diferença é maior, enquanto que nos países nórdicos, as diferenças sociais não alteram os dados em nada.

Por outro lado, o que temos visto emergir com cada vez mais rapidez, e em todos os países, é a ciberviolência, por Facebook, por Twitter, por SMS, etc. Neste caso, entretanto, é claro que o problema vai ser mais presente onde há computadores, onde há celulares - e neste caso, a maior incidência é entre os alunos das classes mais privilegiadas.

Mas o bullying é extremamente ligado às discriminações, e pode ocasionar as agressões mais variadas possíveis entre os alunos em função da posição social deles. Há o caso clássico do aluno pobre que consegue entrar em uma boa escola privada por uma bolsa escolar, e vira alvo de agressões dos outros alunos. É a exclusão pura e simples, por discriminação social. Eles massageiam o próprio ego ao ejetar aquele que não é como eles. No Japão, isso é muito comum e acontece com uma brutalidade simbólica extraordinária. Todos os anos, a classe designa um dos novos colegas, que ser torturado diariamente, e isso resulta em um problema de suicídio das crianças e adolescentes sem paralelo com outros países. É um dos principais problemas de saúde pública no Japão.
Qual o peso das turbulências da adolescência na prática do bullying?
Eric Debarbieux : Isso acontece não apenas entre crianças e adolescentes. Acontece nas melhores escolas superiores de administração e comércio, quando é ligado a uma forte concorrência. É muito comum nas instituições superiores mais prestigiadas. O aluno que é brilhante demais, bom aluno demais, que tem boas relações demais, é perigoso. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama acaba de promulgar grandes mudanças de políticas públicas para combater este problema, depois que uma aluna excepcional de uma grande universidade, extremamente inteligente e bonita, foi tão agredida, tão excluída e tão mal-tratada pelas colegas, que acabou se suicidando. No mesmo dia, as colegas dela colocaram uma mensagem no Facebook dizendo "missão cumprida". Hoje mesmo, eu recebi o telefonema de um caso semelhante aqui: uma mãe russa, cuja filha linda e mais inteligente do que a média da classe, não sabe mais o que fazer para mantê-la na universidade. Ela não é discriminada por ser russa ou imigrante, mas por ameaçar os colegas pelo seu brilhantismo.
Na França, os professores costumam alegar que a educação vem de casa e o que os alunos fazem na hora do intervalo, não é problema deles.
Eric Debarbieux : O problema é que a visão que os adultos têm destas ações - realizadas quase sempre em grupos pelas crianças, adolescentes e jovens - é a de que são coisas normais da idade. Não é verdade. Uma pessoa que é violenta contra o que é diferente ou ameaçador vai permanecer um agressor para o resto da vida: na universidade, na vida profissional, sempre. Entre 70 e 80% dos agressores são homens, que consideram que, ao agredir, estão afirmando a sua masculinidade. Cabe aos professores, aos pais, à sociedade, mostrar a eles que este não é o caminho ¬- inclusive porque as pesquisas mostram que os agressores não se tornam vencedores na vida. David Farrington, pesquisador britânico sobre a violência juvenil, realizou um estudo muito interessante sobre o futuro dos jovens que praticam violência, inclusive bullying sobre os colegas. Ele descobriu que a maior parte deles tinha virado desempregada ou então trabalhava em profissões medíocres e mal pagas. Ou seja, não é apenas a vítima de agressões que sofre: a longo prazo, o agressor é o maior perdedor.
O que fazer para neutralizar o bullying nas instituições de ensino?
Eric Debarbieux : A melhor forma é conscientizando os adolescentes de que as diferenças não são um defeito, elas são enriquecedoras da sociedade. A solução é educativa, pedagógica, e não coercitiva. Um país que agiu com uma eficácia incrível neste sentido foi a Polônia, que realizou uma longa e extensa campanha nacional de sensibilização às agressões físicas e psicológica nas escolas, envolvendo governo, instituições, mídia, todo mundo que você possa imaginar. Somente na imprensa, foram publicados mais de 9 mil reportagens sobre o assunto ao longo de cinco anos. A compreensão, pelos alunos, da dimensão do problema é a melhor chave para combatê-lo. Os professores podem e devem promover debates que coloquem a inclusão e o respeito para serem discutidos entre os alunos, afinal, é possível desenvolver e estimular a empatia mútua em sala de aula. Essa campanha precisa começar desde cedo, porque muitos dos adolescentes que não suportam o bullying e se suicidam com 14 anos foram vítimas dos colegas desde os primeiros anos de vida.
Aplicar punições nos alunos agressores, como suspensões ou expulsões, serve de exemplo para os demais?
Eric Debarbieux : A opção pela punição pode até ser uma boa saída emergencial, mas a longo prazo, ela não resolve nada. O risco de, com a punição, se aumentar o sentimento de poder do agressor é muito alto, afinal, ele é o corajoso que bate e debocha dos colegas, e que ainda por cima não teme as consequências. "Uau, como ele é macho", os outros podem pensar. Este risco é tremendo e causa efeitos ainda piores: ao invés de ser coagido a parar, ele sai fortalecido. O fato de agredir o tempo todo um colega é também uma atitude para chamar a atenção dos outros e se fixar como um líder. Logo, ser punido é uma vitória para ele, porque chama ainda mais atenção. É um círculo viciosos, porque ao retornar à sala, ele vai querer se vingar da vítima por ter sido punido por causa dela, e vai destratá-la ainda mais. Não vou dizer que sou contra que um garoto pague pelo mal que fez a um colega: mas insisto, isso não é eficaz para acabar com o problema. É o reforço do positivo que faz a diferença: o estímulo a fazer o bem é muito mais eficaz do que a punição por ter feito o mal.

A ideia não é que o adulto indique sempre o caminho: o ideal é que o adulto faça o aluno compreender que há outras formas de ver o outro. Os comportamentos vão evoluir na medida em que as consciências forem mudadas. A solução para o bullying não pode passar pela via da segurança: não é por circuito interno de televisão, nem contratando policiais ou seguranças para as escolas - mesmo se os policiais podem ajudar através de campanhas de prevenção -, e nem pela via legal, como a expulsão ou mesmo processos judiciais.
Como fica o aluno que é vítima de bullying? Não se sente abandonado?
Eric Debarbieux : O aluno precisa ser protegido. É um direito dele. Está previsto nas leis internacionais de proteção à criança e ao adolescente, e é uma obrigação dos estabelecimentos e dos governos. O que se precisa discutir é de que forma essa proteção é mais eficaz. A meu ver, é mudando as consciências, promovendo os valores da cooperação, do respeito, da aceitação das diferenças. Não se consegue isso com um curso semanal de moral, como acontece em muitos países. O engajamento na formação de pessoas com valores humanos precisa ser assumido: definitivamente, não basta ensinar a ler e escrever bem, a fazer contas e a aprender a tabela periódica. Os professorem sabem perfeitamente o que acontece em sala de aula. Eles lamentam, mas raramente fazem alguma coisa ao perceber que a hora do recreio é um pesadelo para alguns alunos, até porque poucos deles têm a formação pedagógica necessária. Eles sabem ensinar matemática, ciências ou geografia, mas não sabem muito bem o que fazer para tentar transmitir uma educação além da que são formados. Na Europa do norte, os professores passam por uma formação muito mais ampla, específica, e há uma avaliação científica, um acompanhamento especializado do que acontece dentro e fora da sala de aula.
Muitos pais optam por trocar o filho vítima de agressões de escola.
Eric Debarbieux : Trocar de classe ou de escola pode ser uma saída óbvia para um pai que vê o filho sofrer, mas infelizmente os estudos mostram que, muito frequentemente, essa opção não funciona. Me deparei com casos de alunos que trocaram quatro, cinco, seis vezes de estabelecimento, e o problema sempre recomeçava. Por que? Porque a criança ou o adolescente continua sendo a mesma criança gordinha demais, esperta de menos, inteligente acima da média. Ou seja, diferente. Ou ainda pior: o seu pecado pode ter sido o de apenas torcer para o time de futebol errado, como vi uma vez no Brasil. Um garoto incrível, de uma família muito digna e de gente trabalhadora, foi espancado na saída de uma escola de São Paulo porque tinha ido para a aula com a camiseta de uma equipe contrária a dos agressores. O cerne do bullying é o desprezo do que é diferente. É na inversão desta lógica é que é preciso se agir. O resto é tapar o sol com a peneira. Na cabeça de um agressor, seja em um caso de bullying na escola seja do marido que bate na mulher, a culpa é sempre da vítima. Bati nela porque ela me incomodou quando voltei tarde para casa, dei um tapa nele porque a gordura dele me enoja, insulto a aluna nova porque a inteligência dela me irrita.
Até que ponto a situação familiar ou a educação deficiente recebida em casa são responsáveis por um adolescente se tornar um agressor dos colegas?
Eric Debarbieux : É fácil demais colocar a culpa do comportamento de um aluno na sua família ou na educação que ele recebe em casa. Rejeito este argumento, porque se observarmos bem a sociedade hoje, veremos que ela incentiva a violência o tempo inteiro. A violência está por tudo, na televisão, nos cinemas, no restaurante e nas relações sociais em geral. A partir do momento em que ensinamos uma criança a ter dilemas morais, a discernir o certo do errado e a compreender que o que ele faz acarreta consequência na vida do outro, a violência social do dia a dia não se incorpora mais nele. No Quebec, 24% dos alunos que abandonavam a escola o fizeram porque sofriam com insultos e agressões. As escolas públicas então implementaram uma experiência formidável, fazendo os estudantes compreenderem a importância de serem pessoas mais flexíveis e abertas por meio de jogos e gincanas. A mudança no clima das escolas foi espetacular. Outro país que foi incrível para diminuir o abandono escolar por essa razão foi a Inglaterra. Os ingleses adotaram este tipo de programa de estímulo à interação e imputou a obrigação legal aos estabelecimentos de implantar políticas de detecção e prevenção do bullying. Uma escola que não segue esta regra corre o risco de ser fechada.
Não é tão difícil melhorar o ambiente escolar, então?
Eric Debarbieux : Não, não mesmo. Mas ainda assim, no caso da Inglaterra, eles demoraram 20 anos para conseguir diminuir os casos de bullying pela metade. Na Finlândia, já faz 40 anos que eles trabalham nesta questão. É preciso sermos claros num ponto: nós conseguimos diminuir os casos de assédio físico e moral, mas não conseguimos erradicá-los. O bullying é uma das violências mais graves que uma pessoa pode sofrer. Um estudo do FBI mostra que 75% dos alunos atiradores nas escolas americanas havia sido vítima de bullying, e na maior parte dos casos, eles tinham ido à escola armados para se defender se o assédio se agravasse; em segundo lugar, para se vingar. Tratar este problema é tratar não apenas os problemas de saúde mental de uma pessoa - porque, na vítima, os riscos de depressão e de tentativa de suicídio se multiplicam por quatro -, mas é também tratar de uma questão de segurança pública. A verdadeira coragem política sobre este problema é de organizar um plano a longo prazo e não cair na tentação de planos espetaculares apenas pela popularidade midiática.


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