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As lições de Cuba

Apesar da economia em frangalhos, a ilha garante um ensino de qualidade para todos. Conheça os ingredientes dessa revolução


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11/09/2009 10:56

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Bruna Nicolielo

Foto: Valdemir Cunha
Foto: Rua de Havana, a capital cubana

Rua de Havana, a capital cubana

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Os alunos cubanos tiram notas muito mais altas em exames internacionais que as crianças de outros países latino-americanos, incluindo o Brasil. "A educação de Cuba oferece à maioria dos alunos uma educação básica que somente crianças de classe média alta recebem em outros países da America Latina", explica o economista Martin Carnoy, da Universidade de Stanford (EUA), que conduziu um estudo comparativo entre os sistemas educacionais do Brasil, Chile e Cuba. Carnoy foi a campo e colheu evidências que jogam luz sobre os principais problemas brasileiros. O resultado é o livro A vantagem acadêmica de Cuba - Por que seus alunos vão melhor na escola, publicado no Brasil pela Ediouro. Nele, Carnoy mostra que o ótimo desempenho dos estudantes cubanos é resultado de um sistema educacional que dá oportunidades iguais para todos os alunos, que estudam em um ambiente mais seguro e menos desigual que o brasileiro. 

O economista filmou salas de aula em Cuba e no Brasil e cronometrou o tempo dedicado a explicação dos conteúdos pelos professores. Assim, procurou entender como uma sociedade com renda per capita menor que a brasileira consegue promover uma educação de muito melhor qualidade para todos os jovens de sua população. Suas descobertas provam que é possível avançar. "Embora nem tudo em Cuba seja transferível para outras sociedades, acredito que as lições são claras", explica o especialista. Para ele, os principais ensinamentos da experiência cubana são o recrutamento dos melhores alunos do ensino médio para o magistério, as boas escolas de formação de professores, a garantia de que os alunos são saudáveis e estão bem alimentados e o sistema de supervisão dos professores, voltado para a melhoria do ensino. 

A economia cubana, atrasada e pouco produtiva, não impede o país de garantir uma educação de qualidade para todos. Cuba é a nação latino-americana com a menor taxa de analfabetismo, registrando índices inferiores a 1% entre jovens e adultos. Todas as crianças e adolescentes cubanos frequentam a escola, que é obrigatória por nove anos e gratuita até a faculdade. Além disso, a lei cubana pune e até prende os pais em caso de falta. O absenteísmo, problema que aflige todo Brasil, é nulo. Alunos também faltam pouquíssimo. O empresário Peter Graber, de Campinas (SP) visitou Cuba em 2008, como turista. "Contratei um motorista e falei 'vamos pro interior'. Queria entender o país, descobrir o que deu certo e que não certo na experiência da ilha". Graber visitou hospitais e escolas, chegando sempre de sopetão. Surpreendeu-se com a qualidade dos serviços à população, sobretudo em relação à qualidade do ensino. "Senti muita motivação de professores e de diretores". 

Ao crescerem, porém, essas crianças muito bem educadas são confrontadas com a falta de perspectivas. Como a média salarial gira em torno de R$ 35 por mês, não há muitas opções de trabalho. "Uma grande porcentagem daqueles que escolhem ser professor o faz porque não tem nenhuma outra opção", conta a filóloga cubana Yoani Sánchez, que se tornou conhecida por manter um blog que faz críticas ferozes ao regime de Fidel Castro. Ela é mãe de um menino de 12 anos, que frequenta uma escola pública de Havana, a capital do país. Yoani reconhece os bons índices da Educação cubana, mas se ressente da falta de oportunidades. "Espero que meu filho possa viver da profissão que escolher num país realmente livre". O conteúdo ideologizado também é motivo de queixas para ela, que conta que uma imagem de José Martí, mártir da independência de Cuba, ilustrou o diploma da criança. "Preferia ver a professora do meu filho no próximo diploma. Ela é muito mais próxima do modelo que eu gostaria para ele". Como Yoani, muitos pais cubanos vêem o professor como um exemplo a seguir. Isso acontece porque os primeiros quatro anos de estudo das crianças cubanas são responsabilidade de um único mestre. Esses profissionais acumulam responsabilidades acadêmicas e educativas na formação de seus alunos. "As crianças não trocam de escola e os professores sabem de tudo. A escola é uma extensão da família", explica Carnoy, que defende políticas de fixação do professor numa única região. 

A seguir, conheça os elementos que levaram os alunos cubanos à excelência acadêmica.

 


Para ler, clique nos itens abaixo:
1) Crianças com saúde, sem trabalho
Em Cuba, todas as crianças e adolescentes, da capital Havana às zonas rurais, frequentam a escola, que é obrigatória por nove anos. O ensino é gratuito até o nível superior - os estudantes não pagam nem mesmo os livros. O governo provê uma rede de assistência social, que envolve Educação e saúde, a todas as crianças. Órfãos, filhos de presos e de pessoas com deficiências mentais vivem em instituições que lhes garantem alimentação, assistência médica e Educação, até a universidade. No ensino básico, as crianças ficam na escola das 8h às 16h30, intercalando aulas com atividades esportivas e culturais.

O Estado se responsabiliza pela Educação, mas compartilha obrigações com a família. A lei cubana pune e até prende os pais em caso de falta. Além disso, os estudantes cubanos não trabalham fora. "O contexto social em Cuba é muito melhor para as crianças com baixa renda. No Brasil, 40% dos pobres ou muito pobres vivem em condições muito difíceis para o aprendizado", diz o economista Martin Carnoy, autor do estudo A vantagem acadêmica de Cuba.

No Brasil, é grande o número de jovens que concilia trabalho e estudo. Falta ainda a articulação entre políticas públicas educacionais e de outras áreas e um sistema de integração entre órgãos responsáveis pelas áreas de Assistência Social, Educação e Saúde. "Um segredo do sucesso cubano é a garantia de que os alunos são saudáveis e estão bem alimentados. Isso faz diferença", ressalta Carnoy.
2) Educação na primeira infância
A importância da Educação infantil é consenso em pesquisas nacionais e internacionais. Investir nessa etapa, que engloba creches e pré-escola, foi a escolha de Cuba. Lá, o ensino começa aos dois anos. Também há um sistema que garante apoio para mães trabalhadoras. Nele, profissionais vão até casa da família e ensinam a mãe a lidar com o bebê. "Mostram o que fazer com o a criança, como brincar, etc...Trata-se de um apoio expressivo, principalmente para os mais pobres", explica Carnoy.

Um estudo de 2007, patrocinado pelo governo dos Estados Unidos, dimensionou o impacto da variável educação infantil na formação de crianças e jovens. A pesquisa monitorou 1 300 crianças, do nascimento aos 12 anos, a cada quatro meses. Metade delas ficou em casa até os 5 anos, enquanto a outra parte foi para a escola. Aos 12 anos, os dois grupos foram submetidos a provas. Os estudantes que freqüentaram a pré-escola se saíram melhor. Também tinham vocabulário mais amplo.

No Brasil, há ainda muito a avançar no atendimento de crianças de 0 a 5 anos. Dados do relatório O direito de aprender - Situação da Infância e da Adolescência brasileira 2009, da UNICEF, mostram que apenas 17% das crianças do Brasil frequentam creches, que vai de 0 aos 3 anos. O estudo mostra que esse número cai para 4,9% em famílias com renda de menos de 3 salários mínimos. A meta do Plano Nacional de Educação (PNE), do governo federal, é expandir o acesso à creche a 50% de todas os bebês brasileiros de até 3 anos. Também pretende alcançar 80% das crianças de 4 a 5 anos.
3) Foco no ensino
Em sua pesquisa, Martin Carnoy filmou salas de aula chilenas, cubanas e brasileiras. Nos vídeos, as classes brasileiras alternam momentos de algazarra com conversas e tédio. Além disso, verificou-se que os estudantes brasileiros passam a maior tempo das aulas copiando a lição no quadro-negro e não participam das atividades propostas pelo professor. Em alguns momentos, o professor perde o controle da sala. Os alunos cubanos, ao contrário, trabalham em grupo e resolvem exercícios previamente planejados. "Não há cópia nas escolas cubanas, mas sim discussão de problemas matemáticos", diz Carnoy. Para o economista, perde-se tempo demais com trabalhos em grupo e aulas expositivas nas escolas brasileiras. Além disso, os alunos cubanos permanecem pelo menos 6 horas diárias na escola - a carga horária brasileira, na Educação básica, não passa dos 4,5h (o dado é do Inep).

A indisciplina dos estudantes brasileiros é notória - um levantamento recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 23 países mostrou que os professores do Brasil gastam 17% do tempo em sala de aula tentando manter a disciplina dos alunos. O impacto do comportamento dos jovens em sala de aula reflete no aprendizado deles. Como não participam ativamente das aulas, conversam ou ficam entediados, os alunos brasileiros têm dificuldades em aprender conceitos e não chegam a absorver todo o conteúdo previsto nos livros didáticos.

Carnoy não poupa nem mesmo as escolas particulares brasileiras de suas críticas. Nelas, também há bagunça, dispersão, cópia e despreparo para ensinar. "Pais de escolas de elite pensam que estão dando ótima educação aos filhos, mas fariam melhor se os colocassem em uma escola pública de classe média do Canadá", explica. Suas descobertas contrariam o senso comum, que apregoa que escolas particulares oferecem um ensino de qualidade.
4) Cursos de formação de professores essencialmente práticos
Os cursos de formação de professores cubanos são exigentes e muito voltados para as práticas de ensino. A teoria perde espaço para exercícios de atuação na sala de aula, como estratégias para atrair atenção da classe quando ela se mostra dispersiva. "Teorias são irrelevantes para ensinar", defende Martin Carnoy. No currículo cubano, ganham destaque diferentes técnicas para ensinar um determinado assunto, como fração, por exemplo. "Não basta saber a matéria. É preciso saber como ensiná-la", explica o economista Carnoy. Nas escolas de formação de professores brasileiras, porém, ainda predomina o ensino da teoria.
5) Supervisão docente
A vigilância policialesca que Cuba exerce sobre seus cidadãos também garante uma supervisão severa aos professores. O governo central controla todas as etapas do treinamento dos mestres, do recrutamento à prática inicial. Diretores e professores mais experientes observam os novatos. "O diretor entra na classe e toma notas sobre o desempenho do professor", observa Carnoy. Segundo ele, duas visitas desse tipo ocorrem por semana nos três anos iniciais da carreira de um mestre. Esse sistema de tutoria permite assegurar que as aulas sigam métodos exigidos pelos parâmetros nacionais. Graças à forte supervisão, o governo sabe quem é o professor, o que está ensinando. O resultado é que os professores são competentes, afinal passaram por escola que realmente ensina, além de cumprir as diretrizes nacionais. Cerca de 80% melhores vão para sala de aula, mesmo com uma média salarial de cerca de R$ 35.

No Brasil, a legislação prevê que os professores precisam passar por um estágio probatório, ou seja, trabalhar por um período - geralmente três anos - para comprovar que podem exercer a função. A direção da escola, que dá o aval para tanto, deve observar critérios como assiduidade, dedicação e eficiência. A maioria dos docentes, porém, é aprovada no estágio. "Quase não há supervisão do que ocorre em sala de aula no Brasil", explica Carnoy. Apesar da existência do estágio probatório, um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em junho, mostra que 71% dos 5.687 professores brasileiros consultados começou a dar aulas sem ter passado por um processo de adaptação ou monitoria. A média dos outros 22 países que participaram da pesquisa ficou em 25%.

O economista Naercio Menezes, do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), em São Paulo (SP), sugere que pedagogos com experiência em sala de aula observem as aulas ministradas pelos iniciantes como medida para elevar a qualidade do ensino. Segundo ele, a formação em exercício pode melhorar a aula daqueles que já lecionam. "Precisamos entender o que nossos professores fazem na sala de aula por meio de uma supervisão efetiva e focada no aprendizado dos alunos", diz ele. Para Menezes, seria indesejável implementar as medidas de controle e supervisão dos professores à força, a exemplo do sistema cubano de ensino. "A liberdade de expressão e de opinião são fundamentais para a nossa democracia". A saída, segundo ele, é negociar com os sindicatos de professores e membros do legislativo e judiciário, para que eles entendam que o aprendizado das crianças tem que ser a prioridade da nossa sociedade. Martin Carnoy defende a mesma posição. Ele considera as demandas sindicais legítimas, mas crê que elas não devem sobrepor-se à qualidade do ensino. "Como ficam as crianças, que não têm sindicatos para defender seus direitos à educação?", questiona.
6) Padrões nacionais de qualidade
Pesquisas mostram que parâmetros comuns a todas as escolas podem elevar a qualidade de ensino de um país. Em Cuba, tais padrões são observados em todas as escolas do país, da capital Havana às escolas de regiões rurais. O governo central estabelece o que deve ser ensinado e quando esse conteúdo deve ser ministrado. A grade curricular nacional é padronizada e os professores têm que seguir esse currículo. Não há espaço para criatividade e a autonomia do professor fica em segundo plano. Cada escola do país tem uma televisão e um vídeo, que transmitem conteúdo em rede nacional para todas as classes.

No Brasil, ao contrário, diretrizes estruturadas como essas não existem. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) não contemplam o que precisa ser ensinado de forma objetiva pontuando o que se espera que o aluno aprenda em cada série. "Eles são genéricos e precisam ser reformulados", diz o economista Naercio Menezes de Aquino, do Insper. "O professor tem que entender o currículo e o que vai ensinar, em que velocidade", completa.

A existência de parâmetros de qualidade nacionais e a fiscalização do que acontece em sala de aula garante que o todo conteúdo seja ensinado. Disso resultam os resultados homogêneos dos alunos. Todos, sem exceção, aprendem.
7) Gestão eficiente
Os vários elementos do ensino cubano são costurados por uma gestão eficiente. A homogeneidade das escolas permite fazer um bom acompanhamento e é um dos facilitadores da gestão. Diretrizes claras norteiam o trabalho de toda a rede. Impor padrões nacionais - e geri-los - é um desafio para o Brasil, um país de dimensões continentais. "Fazer um acompanhamento é mais difícil no caso brasileiro, já que as redes são bastante heterogêneas", diz o economista Naercio Menezes, do Insper. Faltam escolas nas zonas rurais do Brasil, incluindo comunidades indígenas e quilombolas, mostra o relatório O direito de aprender - Situação da Infância e da Adolescência brasileira 2009, da UNICEF. As poucas escolas existentes nessas áreas não oferecem boa infra-estrutura nem professores com formação adequada.

 

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