A sociedade brasileira parece ainda não ter se dado conta da verdadeira crise de audiência que vem afetando nosso Ensino Médio, com previsíveis consequências para o desenvolvimento sustentável do país. Trata-se de uma verdadeira bomba-relógio de efeito retardado.
Para entendermos a gravidade da situação, o primeiro fato a encarar é que vivemos na chamada sociedade do conhecimento. Nessa etapa de desenvolvimento, o passaporte mínimo para que as novas gerações possam ser inseridas no mercado de trabalho é o diploma do Ensino Médio. Da mesma forma, uma a vantagens competitivas de um país, no mercado global, passa a ser o nível de escolaridade de sua população. A verdade é que nossa média nacional de anos de estudo é de 7,2 anos e, mesmo entre jovens de 18 a 24 anos, ela alcança somente 9 anos (final de Ensino Fundamental). Sem dúvida isso é fruto do processo histórico, mas se os dados atuais fossem animadores, poderíamos prever boas perspectivas para o futuro. Infelizmente é justamente aí que se processa a montagem dessa bomba-relógio.
Nosso Ensino Médio sofre de males seriíssimos. Há problemas de cobertura, modalidade de currículo e forma de atendimento, com sérias conseqüências em termos de fluxo e desempenho.
Em termos de cobertura, menos da metade daqueles que deveriam estar nesse nível (15 a 17 anos) pode ser aí encontrada. Parte ainda está no Ensino Fundamental e quase 20% estão fora da escola. Na faixa de 18 a 24 anos, a situação ainda é mais grave, com 68% nesta situação.
Quanto ao currículo, observa-se que menos de 10% dos alunos cursam o ensino profissionalizante. Ou seja, mais de 90% dos jovens estão sendo “preparados” para uma universidade na qual a maioria não pisará.
O dado mais incompreensível é o turno em que este Ensino Médio é ofertado. Mais de 40% dos alunos do Ensino Médio Regular estudam à noite, inclusive em estados ricos como o Rio de Janeiro, com óbvias conseqüências para a qualidade da aprendizagem. É interessante observar que apenas 17% dos jovens conjugam escola com trabalho.
A soma desses fatores está por trás de um processo de abandono, responsável pela perda de metade de nossos alunos (entram 3,6 milhões e concluem 1,8 milhão). Estamos perdendo esses jovens para o desemprego (os maiores índices – 16,5% - afetam o grupo de “ensino médio incompleto”), para a reprodução da pobreza (22% dos mais pobres já têm filhos) e para a violência (jovens de 18 a 24 anos, que não estudam nem trabalham, são os mais envolvidos com violência). Dos que conseguem concluir, apenas 9% (matemática) e 24% (português) apresentam um nível de desempenho considerado adequado ao final do ensino básico. Com isso, se por um lado temos desemprego entre os jovens, por outro já se observa um certo “apagão de mão de obra” em muitos setores.
Frente a essa situação, torna-se importante identificar os responsáveis pela oferta desse nível de ensino. De fato, 86% das matrículas estão nas escolas dos sistemas estaduais, cujos governantes estarão sendo eleitos este ano.
Seria fundamental que o voto de cada um de nós estivesse condicionado a propostas claras dos candidatos, sobre como pretendem enfrentar tais problemas. Não promessas vagas, mas efetivos compromissos com metas claramente definidas, como por exemplo: universalizar o acesso e a permanência dos jovens na faixa etária de 15 a 17 anos; melhorar os níveis de desempenho e diminuir os índices de abandono; aumentar a autonomia financeira e de gestão das escolas; implantar dedicação exclusiva para professores; promover maior estabilidade das equipes de direção; flexibilizar os currículos, mas estabelecer mínimos para cada série; aumentar a oferta de ensino profissionalizante e criar outras estratégias de articulação entre educação e trabalho; concentrar o ensino médio regular nos turnos diurno e vespertino, reservando o noturno apenas para a Educação de Jovens e Adultos (a partir de 18 anos); criar sistemas de incentivos baseados em resultados; utilizar os resultados de avaliações estandartizadas como instrumentos de melhoria da prática pedagógica; contribuir para mudanças no processo de formação de professores.
Em seus planos de governo, os candidatos poderiam incluir essas ou outras propostas, mas fundamentalmente deveriam explicitar seu forte compromisso com a melhoria da qualidade do Ensino Médio. Sem isso, nenhum candidato deveria merecer nosso voto.
*Wanda Engel é doutora em Educação e superintendente-executiva do Instituto Unibanco
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