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DIRETRIZES

A Educação ainda não é para todos

Segundo a vice-presidente de Educação da Unesco, Ana Luiza Machado, falta equiparar o ensino nas escolas e erradicar o analfabetismo de adultos


01/11/2013 15:09
Texto Paulo Araújo
Nova-Escola
Foto: Leo Drumond
Foto: 'Nossa Educação não é excelente, mas também não é de má qualidade para todos'
'Nossa Educação não é excelente, mas também não é de má qualidade para todos'
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Há 12 anos, a educadora mineira Ana Luiza Machado acompanha de postos privilegiados os números da Educação nacional. Como chefe do escritório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para a América Latina e o Caribe, ela pôde analisar, em Santiago, no Chile, o avanço do Brasil em relação aos vizinhos do continente em setores como a universalização do Ensino Fundamental. No início de 2007, mudou-se para Paris, onde assumiu a vice-presidência do programa de Educação do órgão para todo o planeta. Desde então, teve a oportunidade de comparar nosso desempenho com o de cerca de 200 nações. Ana Luiza coordena pesquisas sobre questões ligadas ao professor: carreira, formação, saúde e condições de trabalho, entre outras. Com base nesses dados, cria projetos em parceria com universidades e governos a fim de minimizar os problemas detectados. Recentemente, propôs que a Universidade Federal de Minas Gerais criasse um curso de formação de lideranças escolares. A idéia está em estudo. Nesta entrevista, ela comenta a posição do Brasil no mais recente relatório do Programa Educação para Todos (EPT). 


Alfabetização Especial Alfabetização
Dicas e informações para melhorar a aprendizagem da leitura e escrita de crianças e adultos.

 

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Que imagem o mundo faz da Educação brasileira?
Ana Luiza Machado: Embora grande parte da opinião pública pense o contrário, ela é tida como um bom exemplo por vários países. Nos encontros que a Unesco promove, chama a atenção das delegações estrangeiras a questão da redistribuição de recursos recolhidos pelo governo brasileiro em forma de impostos de forma igualitária entre os estados. A autonomia garantida às escolas para gerir suas verbas é outra demonstração de maturidade. Talvez de fora seja possível ver com mais clareza que nossa Educação não é excelente, mas também não é de má qualidade para todos.
Mas continua ocupando as últimas posições de rankings internacionais.
Ana Luiza Machado: Eu recebo os resultados do Pisa (sigla em inglês do Programa Internacional de Avaliação Comparada, aplicado em 57 países pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com imensa tristeza, mas em seguida parto para o realismo. Os números, mesmo vergonhosos, são importantes, pois dizem onde estamos e aonde devemos ir. Por outro lado, acredito que medir os resultados dos alunos só faz sentido se também forem avaliados os fatores que levam ao aprendizado. É isso que a Unesco está investigando neste momento e vai divulgar em abril.
É possível citar os principais fatores?
Ana Luiza Machado: Descobrimos que uma das maiores contribuições para a aprendizagem, além do perfil socioeconômico e da alfabetização dos pais, vem do clima presente na escola. Quando existe de fato um trabalho de equipe, uma coordenação pedagógica e um corpo de professores comprometidos, tudo funciona. No entanto, se o aluno chega à escola e não se sente valorizado nem escutado e ainda é vítima de agressões dos colegas, não há fórmula mágica que o faça aprender.
Por que há 72 milhões de crianças fora da escola em todo o mundo?
Ana Luiza Machado: O principal motivo é que em muitos lugares não há uma legislação que garanta esse acesso, especialmente na África subsaariana, no sudeste da Ásia e em alguns países árabes. Nesse sentido, o relatório da Unesco elogia o Plano Nacional de Educação aprovado pelo Brasil em 2001, que fixa para o fim do decênio a presença de todas as crianças com 4 e 5 anos na escola. Já é um começo.
Isso não é um paradoxo para um país que está tão próximo de universalizar o Ensino Fundamental?
Ana Luiza Machado: O problema são as crianças que entraram na escola e saíram rapidamente, empurradas pela repetência, pela condição socioeconômica dos pais ou pela falta de eqüidade entre as escolas - que eu considero nosso maior entrave hoje. A Educação brasileira avançou em alguns aspectos, mas continua bastante desigual se analisada escola a escola. Há muita diferença entre as localizadas num bairro central e as da periferia de uma mesma cidade. Quando examinamos a situação das escolas rurais, indígenas e em áreas quilombolas, o fosso é maior ainda. Isso pode impedir que o país cumpra as seis metas acordadas no Fórum Mundial de Dakar, em 2000.
Que metas são essas?
Ana Luiza Machado: Elas se parecem com os cinco objetivos definidos pelo movimento Todos pela Educação, uma iniciativa da sociedade civil brasileira abraçada pelo Ministério da Educação em 2006. De forma geral, 164 governos e organizações associados em todo o mundo se comprometem a estender e melhorar a Educação na primeira infância, além de garantir que toda criança tenha acesso ao ensino primário gratuito e de qualidade; que jovens e adultos sejam educados; que esses últimos tenham o nível de alfabetização alavancado em 50%; que as disparidades entre os sexos sejam suprimidas nas escolas e que, por fim, a qualidade da Educação melhore nesse prazo. Já publicamos seis balanços e o mais recente, concluído em dezembro, analisa o que foi feito na metade do caminho e quais os riscos de alguns países não chegarem lá.
No quadro geral da América Latina, qual é a situação do Brasil?
Ana Luiza Machado: Até agora, temos resultados concretos de três frentes. Em relação à universalização do Ensino Fundamental, Argentina, Cuba, Equador, México, Panamá e Peru já alcançaram plenamente a meta. O Brasil tem alta probabilidade de conseguir isso até 2015, ao lado de Bolívia, Colômbia, El Salvador, Guatemala, Nicarágua e Venezuela. Já no tocante à alfabetização de adultos, o quadro é mais dramático: estamos na categoria dos que correm o risco de não atingir a meta. Até agora, só Argentina e Cuba conseguiram tal êxito. O mesmo tipo de ameaça aparece no quesito igualdade de sexos nos ensinos Fundamental e Médio. Só Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e Peru têm meninos e meninas em condições de paridade nas escolas. Portanto, o Brasil ocupa, de forma geral, a categoria intermediária dos países que vêm cumprindo os acordos. O desafio agora é atingir a paridade entre os sexos e combater o analfabetismo de adultos para entrar em 2015 com a lição feita.
Quantos adultos analfabetos há no Brasil e no mundo? Por que é tão difícil resolver esse problema?
Ana Luiza Machado: Eu sempre digo que o analfabetismo de adultos é nossa maior dívida social, em qualquer ponto do planeta. Em todo lugar, os indivíduos que carecem de competências elementares em leitura, escrita e cálculo somam 774 milhões de pessoas. Ou seja, um em cada cinco adultos é analfabeto - e 64% desse porcentual é formado por mulheres. Isso é muito triste. No Brasil, dados de 2005 indicavam que 11% da população com mais de 15 anos é incapaz de decodificar um simples bilhete, ler o itinerário de uma linha de ônibus ou uma manchete de jornal. A maior dificuldade para resolver a questão é que a maioria dos programas de jovens e adultos não tem sistematização nem regularidade.
Como explicar a disparidade de sexos em nossas escolas?
Ana Luiza Machado: O grande problema diz respeito aos homens e se concentra no fim do Ensino Médio. Os adolescentes precisam trabalhar desde cedo ou não acham graça nenhuma na escola e, por isso, abandonam os estudos. As mulheres, de modo geral, são mais persistentes. Isso vale tanto para o Brasil como para toda a América Latina. Alguns países do Caribe que têm o inglês como idioma oficial acabam de pedir que a Unesco ajude a levar professores homens para lá, como forma de incentivar a permanência dos meninos na escola. Na África, em algumas nações da Ásia e em outras do mundo árabe, a situação é inversa. As meninas não vão às aulas desde cedo por dois motivos: ficam em casa, ajudando nos serviços domésticos, ou a religião as proíbe de conviver com homens, principalmente professores. Basta lembrar que durante a invasão do Afeganistão, em 2002, não havia nenhuma garota estudando em escolas talibãs. O quadro persiste até hoje.
Como os envolvidos com o ensino devem ajudar o país a cumprir as metas do Educação para Todos em 2015?
Ana Luiza Machado: Para começar, têm de se conscientizar de que em Educação as coisas são resolvidas por etapas. Portanto, se a universalização foi quase atingida, é hora de passar para o desafio seguinte - e são vários! Outra coisa é não ficar esperando que as soluções partam apenas do MEC. Como em todas as outras áreas, os envolvidos precisam aprender a pôr em prática a contribuição de outros setores.
Por exemplo?
Ana Luiza Machado: O Ministério do Trabalho deve discutir a questão das jornadas dos docentes, assim como a pasta da Saúde já deveria ter se debruçado sobre as doenças que mais atacam o professor. A sociedade civil, por sua vez, deu um ótimo exemplo ao criar o programa Todos pela Educação, cujas metas visam o ano de 2022, o bicentenário da nossa Independência. Muitas empresas privadas também combatem o analfabetismo de adultos ao contratar professores e implantar cursos noturnos dentro das próprias instalações.
O mundo vai precisar de 18 milhões de novos professores até 2015 para universalizar o Ensino Fundamental. Onde estão essas pessoas?
Ana Luiza Machado: O desafio dos países não é saber onde elas estão, mas como atraí-las para uma carreira que precisa ter um plano de trabalho e de promoções bem definido, como ocorre nas demais áreas. O professor que está se formando hoje precisa ter certeza de que, ao ser contratado, será cobrado e também reconhecido pelo que faz. Esse último aspecto corresponde a uma das maiores reclamações dos mestres ouvidos na elaboração de um relatório recente da Unesco. O professor do futuro não pode ser mais aquele que só recebe determinações da coordenação pedagógica ou do diretor da escola, mas aquele indivíduo que também participa da tomada de decisões. Afinal, quando os estudos indicam que a Educação vai mal, ninguém tem dúvida: a culpa é sempre do professor. Será que é mesmo?
O que a senhora pensa dos contratos de trabalho temporários?
Ana Luiza Machado: Às vezes, eles são a única saída do gestor, pois ou ele tem esse tipo de professor ou não tem nenhum. O temporário não pode ser mal pago nem ter formação inadequada. Mas o gestor deve resolver o problema em médio prazo, senão a situação se tornará insustentável tanto para o profissional como para a qualidade da Educação de sua escola.
Quanto a Unesco recomenda que os países invistam em Educação?
Ana Luiza Machado: A taxa deveria ser de 6% do Produto Interno Bruto no mundo inteiro. No Brasil, ela ainda é de 4%. Outra questão é o financiamento externo que as nações mais pobres recebem. Essa cifra tem permanecido num patamar bem inferior aos 11 bilhões de dólares necessários para que os países de baixa renda atinjam as metas do EPT. Esses recursos têm como alvo países da África subsaariana e outros que enfrentam situações de fragilidade. França, Alemanha, Japão, Estados Unidos e Reino Unido são os cinco maiores doadores para a Educação, mas os três primeiros alocam menos de um terço do auxílio para o nível básico. Muitos doadores, infelizmente, priorizam excessivamente a Educação superior.

 

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