A futura secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro fala sobre os problemas da Educação brasileira
Foto: Rogério Pallata
Para Claudia Costin, é preciso injetar mais recursos na Educação e gastar melhor
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A administradora Claudia Costin, vice-presidente da Fundação Victor Civita, é dona de um currículo invejável. Foi ministra no governo Fernando Henrique, secretária de Cultura do Estado de São Paulo, trabalhou na Fundap e no Banco Mundial, dirigiu fundações e atuou como consultora no exterior. Escolheu trabalhar pela melhoria da Educação brasileira. “Temos um desafio tremendo pela frente, mas sou otimista”. Claudia se prepara para uma nova missão: assumir a secretaria municipal de Educação do Rio de Janeiro. Durante a entrevista à repórter Bruna Nicolielo, ela também fala sobre formação de professores e recursos destinados à Educação, entre outros assuntos.
Para ler, clique nos itens abaixo:
- 1. A formação dos educadores é o principal problema da Educação brasileira?
- Claudia Costin: Ela integra um quadro ruim. A formação que o professor recebe é muita academicista. Talvez fosse mais adequada para formar pesquisadores - ainda assim tenho as minhas dúvidas -, mas não para formar professores. O professor de 1º a 4ª série tem de dominar os conceitos matemáticos que vai ensinar para os seus alunos. Ele precisa ter uma visão sólida de Ciências para introduzir essas disciplinas para as crianças e estimular a capacidade investigativa delas. O professor que vai ensinar alfabetização tem de ter referências específicas na área. No Brasil, há uma preocupação muito grande com linhas de alfabetização, com a filosofia e a sociologia da Educação nos cursos de formação. Isso não deveria deixar de ser tematizado, mas a carga-horária dessas disciplinas deveria ser muito inferior. O professor precisa aprender o que de fato o instrumentalize para atuação em sala de aula. A especialista da consultoria Mackinsey Mona Mourshed analisou redes de ensino em todo mundo e concluiu que as de melhor desempenho atraem os 20% melhores alunos de 2º grau. No Brasil,
no entanto, atrai os 20% piores. Temos de mudar esse quadro. O professor precisa ser valorizado não porque é um coitadinho. Ele tem de ser visto como um profissional competente, preparado.
- 2. O que a senhora pretende fazer na Educação carioca?
- Claudia Costin: Vou fazer um diagnóstico, mas acredito que o caminho é o reforço dos alunos defasados e a capacitação dos professores.
- 3. A valorização da carreira depende de melhores salários?
- Claudia Costin: O salário não é o único fator que valoriza a profissão, mas é importante. É sinal que a sociedade valoriza a profissão. Por isso, concordo com a lei que estabelece um piso nacional. E acho que, progressivamente, devemos elevar esse piso para tentar atrair os melhores alunos das faculdades para a docência.
- 4. Os recursos destinados à Educação brasileira são suficientes?
- Claudia Costin: O baixo investimento é um dos problemas da Educação no país. Gastar menos de 5% do PIB como recurso público destinado à Educação é pouco. A Coréia do Sul, por exemplo, investiu expressivamente mais do que investia para obter bons resultados. Às vezes, questiona-se a validade do aumento dos recursos com o argumento de que o gasto é mal feito. É preciso fazer duas coisas: colocar mais recursos e melhorar a qualidade do gasto. Mas sou otimista. Segmentos da população, como o movimento Todos pela Educação têm se mobilizado pela qualidade do ensino.
- 5. Como ver as avaliações?
- Claudia Costin: Há de se destacar o surgimento de uma cultura de avaliação, com a implementação de provas como o Ideb. Fui a um encontro de secretários de Educação e me emocionei vendo o secretario de Roraima, Luciano Moreira, comentando o progresso do Ideb em escolas indígenas. Outros secretários discutiam o mesmo. Estamos vivendo um momento diferente, que a mídia ainda não captou. Temos um desafio tremendo pela frente: a qualidade da Educação é muito ruim, mas todas as condições para darmos um salto estão dadas.
- 6. O que acha da inclusão de novas disciplinas como música, religião ou meio ambiente?
- Claudia Costin: Sou radicalmente contra a expansão curricular. Cada vez que alguém fala em introduzir novas disciplinas, tenho vontade de chorar. Estamos condenando os jovens a dedicar menos tempo às matérias que realmente vão fazer a diferença, como língua portuguesa e história. Fui secretária estadual de Cultura e sou apaixonada pelas possibilidades que a arte oferece para tirar jovens da exclusão. Os esportes também são tão importantes quanto a cultura. Mas ambos deveriam estar associados a projetos fora de escola. O ensino de música, por exemplo, não é obrigatório em boa parte do mundo. Os países que se sobressaem em testes internacionais ensinam a língua pátria e matemática, e essas disciplinas têm uma carga-horária muito maior do que a nossa. A implantação de escolas de ensino integral permitiria expandir a grade, dando aos jovens a oportunidade de fazer matérias optativas de seu interesse, voltadas para arte, esporte ou os dois. Precisamos é nos voltar para o fundamental, assegurando o aprendizado de português, matemática, ciências e geografia. Por ora, a música, o meio ambiente e outros temas poderiam ser abordados de forma transversal. A escola acaba sendo responsabilizada por resolver problemas que não são da sua alçada.
- 7. Por que a escola se responsabiliza por temas além de sua alçada?
- Claudia Costin: Naturalmente, a escola vai ensinar hábitos de saúde e higiene para muita gente. Mas sua função principal é ensinar, mesmo porque a Educação é um antídoto contra a pobreza, um meio de ascensão social uma pesquisa do Banco Mundial mostra que quando a mãe conclui o segundo grau, as próximas gerações tendem a não ser mais pobres. A escola não substitui os pais, mas é preciso considerar que existem famílias desestruturadas, monoparentais. E eventualmente as crianças e jovens ficam desassistidos. A escola tem de suprir essas carências, mas seu papel principal é ensinar.
- 8. Muitos professores se queixam da falta de participação da família. O que a senhora acha?
- Claudia Costin: O marinheiro não pode se queixar do mar. Essa é a nossa realidade e o professor deve se preparar para ensinar nesse contexto. Seria muito melhor se os pais participassem. É preciso admitir que, muitas vezes, o filho é a primeira geração a estudar e o pai se sente inibido, acha que não está suficientemente qualificado para dialogar com a escola. Muitas vezes os diretores reforçam essa visão pré-concebida lançando mensagens implícitas. Enquanto não transformarmos essa realidade, temos de agir sobre ela.
- 9. Como aproximar a família da escola?
- Claudia Costin: Um dos exemplos mais bonitos que eu já vi foi o da escola municipal Cata Preta, em Santo André (SP), que ganhou o prêmio Educador nota 10 em 2007, concedido pela Fundação Victor Civita. A escola fica perto de uma favela e tinha um índice elevadíssimo de absenteísmo de professores e alunos. A diretora começou, então, a ir à casa dos alunos. Ela está há três anos lá e conseguiu reduzir a ausência de forma brutal. A taxa de analfabetismo na 4ª série caiu. A escola implantou uma série de melhorias, mas uma delas foi conversar com os pais. O diretor não tem de ficar enclausurado na sua sala. Deve estar disponível. Em uma sociedade tão desigual como a nossa, a escola tem de ser proativa e estimular os dialogo com a família. Mesmo que não tenham formação, os pais podem cobrar lição de casa, providenciar um espaço, ainda que pequeno, de estudos e perguntar: o que você aprendeu de interessante hoje?, enfim mostrar para os filhos que a Educação é importante. O papel mais relevante quem exerce é mesmo o professor.
- 10. Como chegou à vice-presidência da Fundação Victor Civita?
- Claudia Costin: Minha especialidade é Política Pública. Trabalhei na Fundação de Desenvolvimento Administrativo (Fundap), no Banco Mundial, fui ministra da Administração Federal e Reforma do Estado (em 1998 e 1999, durante o governo Fernando Henrique) e secretária de Cultura do Estado de São Paulo (de 2003 a 2005), entre outros. Sou vice-presidente da fundação desde 2005, mas, na metade de 2007, fui para o Canadá a convite da Universidade de Quebec. Lá, fui professora visitante no mestrado em Administração Pública. Passei um ano no país, mas me mantive vinculada ao conselho da Fundação Victor Civita. Nessa espécie de ano sabático, tive oportunidade de refletir sobre o Brasil. No começo de agosto de 2008, reassumi o posto de vice-presidente na fundação.
- 11. Quais as linhas de atuação da Fundação Victor Civita?
- Claudia Costin: Nossa missão é contribuir para a qualificação do educador da escola pública. Por isso, decidimos criar um centro de estudos de Educação pública. Há muitas pesquisas no Brasil sobre o tema, mas elas não enfocam as razões que tornam uma escola eficaz. O que ajuda, de fato, é saber o que o professor, a professora, o supervisor pedagógico tem de fazer para que as crianças aprendam mais, nas condições que existem atualmente. Em nossas pesquisas investigamos como formar e selecionar melhor os professores que já estão atuando.