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ANÁLISE

Entrevista com Marcelo Neri

O economista da Fundação Getúlio Vargas fala sobre os pontos fortes e fracos do Ideb, sobre o Enem e o novo vestibular proposto pelo MEC


14/05/2009 19:42
Texto Cynthia Costa
Educar
Foto: Divulgação
Foto: Marcelo Neri
Neri acredita que reformular o Enem é um bom começo para o avanço da educação brasileira
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O economista brasileiro Marcelo Neri conhece como poucos a situação da Educação brasileira. Chefe do Centro de Políticas Sociais do Instituto Brasileiro de Economia (IBE) da Fundação Getúlio Vargas, ele coordena pesquisas na área há 9 anos. Em entrevista ao Educar para Crescer, expôs sua opinião sobre o Ideb, mostrando as falhas e os acertos deste indicador da qualidade do ensino no país. "Faço críticas, mas acho que o Ideb e as metas fazem o debate sobre Educação ser mais direcionado, mais focado", menciona.

Em relação ao projeto do MEC de criar um novo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para unificar os vestibulares das universidades federais, Marcelo Neri se mostra otimista: "Ele aponta na direção correta. A gente sabe que o Enem [...] tem problemas sérios de seletividade, ou seja, algumas escolas acabam selecionando os alunos que fazem o Enem", afirma.


Para ler, clique nos itens abaixo:
1. O Ideb tem servido para corrigir a discrepância do ensino básico no país?
Marcelo Neri: O Ideb está sendo utilizado num processo que podemos chamar de responsabilização fraca, no sentido de dar mais transparência aos atores que participam do processo educacional, sem, no entanto, condicionar a relação entre desempenho e transferência de recursos. Acho que o Ideb finaliza muito mais o estágio da Educação e sua evolução entre municípios e escolas, do que condiciona à aplicação de recursos.
2. O Ideb também serve como estímulo à melhoria do ensino?
Marcelo Neri: Acho que sim. Mais para dar ciência ao resultado do que propriamente para transformar esses resultados, mediante, por exemplo, transferência de recursos.
3. Que reparos precisariam ser feitos no Ideb?
Marcelo Neri: Seria interessante aplicar um processo de responsabilização mais efetivo, apesar de não ser fácil. Encontrar uma maneira de vincular transferência de recursos à performance (performance entendida não como a nota do município ou da escola, mas como o avanço das notas). Uma boa política educacional leva em conta os avanços das notas, e não apenas as notas. A função da escola não é que as pessoas saibam, mas a de ensinar as pessoas.
4. Como poderia acontecer a responsabilização?
Marcelo Neri: Existem duas formas de se fazer isso. Uma delas é simplesmente dar transparência aos processos e resultados, tornando-os públicos. Hoje em dia a gente vê as notas do Enem divulgadas pelo Ministério da Educação. É possível ver a performance das diferentes escolas. Isso já é um grande avanço, que aconteceu apenas recentemente no Brasil. Outra maneira é ter uma agenda mais ousada: as escolas que avançam mais, você canaliza mais recursos, pois elas estariam dando mais retorno na política educacional. Mas isso é uma agenda mais difícil de ser implementada, mais auspiciosa e também mais problemática. É uma busca saudável, mas não tão fácil de se obter. Eu prefiro fazer os recursos migrarem de uma maneira mais direta para onde os gestores se revelam melhores. Essa ideia me atrai.
5. O índice não tem um efeito negativo ao acelerar o processo de aprovação nas escolas, de maneira pouco criteriosa?
Marcelo Neri: Se você deixar todos os alunos passarem de ano, você vai perder na nota da Prova Brasil, que é o outro componente do Ideb. Então o índice estabelece uma espécie de dilema educacional que pode funcionar. No entanto, eu concordo que, da forma como foram dados pesos iguais às duas variáveis [desempenho e fluxo escolar], o índice leva a algum incentivo à aprovação. O melhor exemplo disso é o município do Rio de Janeiro. O Cesar Maia, que sempre foi um sujeito muito bom com números, percebeu que deveria fazer a aprovação automática, de acordo com as regras dadas pelo Ideb. [O ex-prefeito do Rio de Janeiro aboliu a repetência na rede de ensino municipal ao retirar o conceito de insuficiente dos boletins]. Foi isso o que ele fez e gerou uma grande discussão. Há esse dilema: se você aprovar todo mundo, vai perder na nota; agora, se você for muito duro na aprovação, vai perder no fluxo.
6. O que é melhor: garantir o fluxo ou melhorar o desempenho?
Marcelo Neri: O Ideb se preocupou com o aumento do fluxo porque a gente vivia no Brasil e, ainda vive hoje, uma situação altamente irracional. É desperdício de recursos o fato de os garotos irem para a escola e repetirem de ano - a pedagogia da repetência. Ou seja, você gasta recursos, e os garotos não aprendem. Isso é pior do que evasão. É um problema sério que o Brasil vive que acaba posteriormente levando à evasão. Acho que não há uma solução fácil. O Ideb a princípio é bem definido, mas os pesos dados ao fluxo e às notas deveriam ser diferentes. Por que pesos iguais? Você poderia mudar isso. O segundo ponto é o fato de o Ideb não incorporar os garotos que estão fora da escola.
7. Recuperar os alunos que deixaram as escolas é um dos desafios mais importantes da Educação hoje em dia?
Marcelo Neri: O problema é que os prefeitos podem ter uma estratégia de deixar os alunos pobres, de baixa Educação, fora das escolas para não contaminar as notas do Ideb. É a pior estratégia possível. Eu sou favorável a incorporar os sem-escolas na análise de como fazer as metas do movimento Todos pela Educação. Mas, mesmo assim, o Ideb é um superavanço. Faço críticas, mas acho que o Ideb e as metas fazem o debate sobre Educação ser mais direcionado, mais focado.
8. O novo vestibular proposto pelo MEC vai facilitar a vida do aluno e possibilitar uma reformulação do ensino médio?
Marcelo Neri: Ele aponta na direção correta. A gente sabe que o Enem é cheio de problemas. Tem problemas sérios de seletividade, ou seja, algumas escolas acabam selecionando os alunos que fazem o Enem. Por exemplo, no colégio do meu filho, que eu prefiro não revelar qual é, na segunda série do ensino médio, eles colocam muita gente em recuperação, como se fosse um convite para essas pessoas deixarem o colégio. É uma maneira de manter só os melhores para aparecerem no Enem e a nota do colégio subir por conta disso.
9. Você enxerga uma evolução no processo de avaliação da Educação no país?
Marcelo Neri: Na semana passada, nós abrimos o jornal e soubemos qual é a nota das escolas dos nossos filhos. Mesmo que seja uma fotografia distorcida, acho que é uma informação interessante. É melhor você olhar numa televisão preto e branco cheia de fantasmas do que não ter imagem nenhuma para apreciar a Educação no país.

 

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