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ECONOMIA

Paulo Nathanael

O Presidente do Conselho Diretor do CIEE Nacional fala sobre o estágio como forma de Educação e da atual situação do ensino no Brasil


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20/11/2008 17:35

Texto
Cynthia Costa

Foto: Divulgação
Foto: 'A semente para a liberdade é a Educação generalista, que pode ser dada em todos os níveis'

'A semente para a liberdade é a Educação generalista, que pode ser dada em todos os níveis'

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O professor Paulo Nathanael Pereira de Souza não se preocupa com o tempo ao relatar sua longa trajetória por instituições de ensino no estado de São Paulo. Do primeiro colégio em que trabalhou como diretor, na cidade de Tupã, à participação em conselhos e diretorias de ensino municipais, estaduais e privados, tudo é detalhado com a ajuda de uma memória fabulosa e uma principal certeza: a vocação para lidar com assuntos de Educação. “Minha decisão de trabalhar com o ensino surgiu ainda cedo, quando cursava a Escola Normal [também conhecido como magistério]”, revela.

De lá para cá, Paulo Nathanael foi professor primário e secundário, diretor de colégio, delegado e inspetor regional de ensino, chefe de ensino na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, diretor geral de concursos públicos, membro do Conselho Estadual de Educação e Secretário Municipal de Educação e Cultura. Além disso, atuou como superintendente da Fundação Bienal, membro da Fundação Padre Anchieta, mantenedor da FIEO (Centro Universitário de Osasco) e reitor da Universidade São Marcos. Assistiu à gestão de governos diversos (com destaque para o de Ademar de Barros, com o qual, ressalta, não se identificava nem minimamente) e fez amizades – políticas ou não – por onde passou. Como conseguiu transitar por tantos cargos ininterruptamente? “Aprendi que não temos de tentar conquistá-los, mas sim esperar o convite”, afirma ele, humildemente.

Paulista de Campinas, pai de dois filhos e viúvo desde julho do ano passado, Nathanael desfruta hoje, aos 79 anos, do resultado de seu trabalho contínuo, tanto na micro quanto na macro-educação. Em 2003, foi nomeado por unanimidade pelos membros da diretoria do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) como Presidente do Conselho Diretor Nacional. Na entrevista a seguir, ele fala de Educação e do papel do CIEE no cenário brasileiro. 


Para ler a entrevista, clique nas perguntas abaixo:
O senhor sempre quis estar próximo à Educação?
Paulo Nathanael: Sim, sempre. Fiz uma carreira rara, pois saí do trabalho no ensino primário e cheguei até o superior. Fiz também doutorado em Educação. Antes, faculdade de Economia. Só havia cursos relacionados a essa área naquele tempo. Por isso, minha maneira de gerir organizações tem um viés econômico.
Como chegou à sua função atual no CIEE?
Paulo Nathanael: Fui indicado pelo antigo presidente e tomado de surpresa. Os membros da diretoria me elegeram unanimemente. Estava satisfeito como conselheiro, não tinha a ambição de ser presidente.
Por que não queria ser presidente?
Paulo Nathanael: Tinha minha vida organizada. E não tinha tanto tempo assim de CIEE, bem menos do que outros membros do Conselho. Mas me elegeram. E fui reeleito! Quando acabar este mandato, indicarei alguém.
Qual o papel que o CIEE desempenha na Educação brasileira?
Paulo Nathanael: Quando cheguei aqui, vi que o CIEE fazia muita coisa na área de Educação, mas não tinha uma definição clara sobre o seu papel. E eu acredito que eu tenha dado essa contribuição, definindo que a sua vocação é a Educação. Não é preciso ser escola para isso. Nossos objetivos conduzem a um trabalho educativo. Trata-se de um órgão de Educação, e a própria legislação facilitou essa identidade, porque as leis que regem os estágios no Brasil começam com um artigo dizendo que o estágio é um ato educativo.
O CIEE depende de alguma iniciativa privada?
Paulo Nathanael: O CIEE vive de uma taxa de prestação de serviço. A organização que busca estagiários paga uma taxa mensal ao CIEE, já que é este que promove o contato com esses estagiários, fazendo a classificação, o estudo de perfil do candidato e a ponte entre eles. Não temos verba governamental nenhuma, nem municipal, nem estadual, nem federal. Há estagiários indicados pelo CIEE a repartições públicas, claro, mas isso é outra coisa.
Qual o alcance do CIEE no que diz respeito ao atendimento ao estudante em busca de estágio?
Paulo Nathanael: Alguém tem de dar uma orientação para o jovem, e o CIEE assumiu esse papel, facilitando o ingresso no mercado de trabalho. Mas verificou-se, durante esses últimos anos, que o meio empresarial e as organizações governamentais que recorrem ao órgão para preparar estudantes abriam vagas para estágio em quantidade muito menor do que o necessário. Há, hoje, uma explosão do ensino no Brasil, com 97% das crianças freqüentando o Ensino Fundamental, o que está sendo estendido também para outros graus. Mesmo o Ensino Superior já possui 5 milhões de alunos. O número de estudantes em busca de estágio cresceu demais, mas o mercado não os absorve. O CIEE acabou formando, então, um banco de inscritos para estágio que ultrapassa 1 milhão de estudantes. Para que esses jovens não fiquem inteiramente desatendidos, montamos uma estratégia de atendimento educacional: os candidatos a estágio que não o conseguem de imediato podem se beneficiar dos cursos complementares que o CIEE oferece, para que eles complementem melhor a sua formação. Oferecemos cursos e treinamentos que preparam os jovens para as suas funções no mercado de trabalho. E também cursos a distância, de línguas estrangeiras e de alfabetização. Já passaram por nosso programa de educação a distancia mais de 300 mil alunos. Vamos, assim, tentando melhorar os padrões dessa juventude, mas, como disse, sem ser uma escola.
Por que o mercado não absorve todos os estagiários?
Paulo Nathanael: Faltam recursos. Faltam condições mercadológicas para que isso aconteça. O estagiário, embora não represente a despesa de um trabalhador, pesa no orçamento das organizações. A economia brasileira está lenta e isso se reflete na questão da empregabilidade, que atinge também os estagiários.
Por que o estagiário muitas vezes é tratado como funcionário?
Paulo Nathanael: Há, talvez, dirigentes de empresas que usem o estagiário como empregado, mas são casos raros e pontuais. O CIEE fica atento a isso, assim como o Ministério Público do Trabalho. Isso acontece com gestores não têm noção do papel do estagiário. Nós aqui condenamos esse tipo de distorção.
Quando cobrado como trabalhador normal, o estagiário não é um aprendiz, certo?
Paulo Nathanael: Sim, o estagiário vira uma mão-de-obra explorada indevidamente. Mas que fique claro que ele não tira o emprego de ninguém. Empregado é alguém que tem capacidade para participar do produto da empresa. O empregado sabe fazer e ganha para isso. O menino que vai para o estágio não sabe nada, apenas possui as noções teóricas da sala de aula da faculdade e do Ensino Médio. E vai, no estágio, passar por uma aculturação do meio do trabalho. Aprenderá a conviver com pessoas, hierarquicamente superiores ou não, e isso é que dará condições de mais tarde ele ser um empregado.
Qual é o maior mal da nossa Educação?
Paulo Nathanael: Todos os males da Educação brasileira estão no Ensino Fundamental. Todos. Os males dos outros graus são heranças. O Brasil, ao longo da história, foi um país elitista, sempre com uma classe elitista. E esta sempre foi dona do poder. E apenas os membros desse grupo social se educaram no passado brasileiro. Quando chegou aqui, em 1808, o Rei não criou escolas, mas sim faculdades. Criou para reforçar o elitismo. Mas nenhum país se desenvolve, nenhuma economia cresce, se o povo não for educado. O povo faz o país. Até 50 anos atrás, o país se agüentava com esse sistema, de educar a elite e ignorar o povo. Mas de lá para cá, com a complicação da tecnologia e com o desenvolvimento dessa era de conhecimentos, em que tudo gera em torno da inovação, sem conhecimento, o Brasil já não sai do lugar. E o país ainda não sabe o que fazer, como fazer a Educação, de modo que estão todos perdidos.
O que precisa mudar na Educação?
Paulo Nathanael: A primeira grande reforma é dar prioridade ao Ensino Fundamental. Fazê-lo com qualidade. E o que é qualidade em Educação? É a capacidade de realizar o que está proposto nos objetivos para o maior número possível de interessados. Pelo menos 90% dos alunos deveriam ter uma Educação de qualidade. E não é só aprender a ler, escrever e contar. Mas sim se alfabetizar para ver o mundo, para conseguir disputar um lugar no mundo. O Ensino Fundamental deveria tirar o aluno do analfabetismo puro e colocá-lo em condições de conviver para alcançar níveis condignos de vida, mas a escola não faz isso. Ela transforma o analfabetismo puro em analfabetismo funcional. Para um país como o Brasil, que está disputando seu lugar no mundo, isso é um desastre. Países emergentes de sucesso, como Coréia do Sul, Chile e China investiram em Educação. A partir daí, a economia deles foi se expandindo, já que assim se produz mais, com mais qualidade e consciência.
Como ex-professor, o senhor acredita que o fracasso se relaciona à má formação dos professores?
Paulo Nathanael: Primeiro, há uma incapacidade institucional. Depois, vem a questão dos professores. Deveríamos mudar completamente a formação do educador, feita apenas através de teorias. O curso de Pedagogia é repleto delas. Só que não se aprende o essencial para o processo de ensino e aprendizagem, a capacidade de entender a teoria e perceber sua aplicabilidade prática.
Há permissividade demais no ensino brasileiro hoje?
Paulo Nathanael: A Educação é um exercício de disciplina. Ninguém se educa sem disciplina de estudo. Hoje, a psicologia de almanaque que se pratica em toda parte diz que a criança não pode ser obrigada a nada, que não pode ter disciplina. Ninguém mais tem obrigação de nada. Se você pegar a Constituição Brasileira, em todos os artigos você encontra "é de direto". Agora, procure a palavra "dever". Mas, se ninguém é obrigado a nada, não há ordem social.
O que o senhor acha do ensino profissionalizante?
Paulo Nathanael: Ele não pode ser o único ensino, mas sim um complemento de formação. Ao mesmo tempo em que se prepara a pessoa para determinado trabalho, a Educação tem de dar a noção do genérico. O específico, no caso o ensino profissionalizante, é minoritário, embora indispensável. Ele não pode ser o único tipo de ensino, mas sim um complemento de formação.
O objetivo do aprendizado escolar é a profissão?
Paulo Nathanael: O ensino existe para formar a consciência da liberdade e para o uso inteligente dessa liberdade. Esse deve ser o primeiro objetivo. E o segundo é a profissão: todos devem sair da escola preparados profissionalmente. Só que a profissão não substitui a liberdade. E a semente para a liberdade é a Educação geral, generalista, que pode ser dada em todos os níveis.
Qual é o papel do empresariado na Educação do Brasil?
Paulo Nathanael: O empresariado está hoje acordando para uma questão ética que aos poucos ocupa o espaço das suas responsabilidades, que é o terceiro setor. Está despertando para a necessidade de participar dessas integrações do jovem na vida social. E está fazendo isso por meio de programações da responsabilidade social de suas empresas. O empresariado hoje está interessado em preparar aprendizes, pois eles mesmos os aproveitarão no futuro. E o resultado do estágio é muito positivo. Sei que, hoje, 73% de todos os aprendizes preparados estão empregados em empregos formais.
O que o senhor acha da nova Lei do Estágio, que inclui, por exemplo, o direito do estagiário de tirar férias de 30 dias?
Paulo Nathanael: Lutamos muito por esse projeto, apoiamos a lei. No frigir dos ovos, o saldo do projeto será positivo.

 

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