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PEDAGOGIA

Rubem Alves: "A escola de hoje em dia é chatíssima. Isso explica o desinteresse das crianças"

Em entrevista concedida em 2009, um dos mais importantes educadores brasileiros falou sobre a escola de hoje, a relação aluno-professor e uma alternativa para o vestibular. "Proponho sorteios", afirma


21/07/2014 10:01
Texto Cynthia Costa e Juliana Bernardino
Educar
Foto: Divulgação
Foto: Rubem Alves
Consagrado escritor, pensador e crítico da Educação, Rubem Alves propunha que as escolas trabalhassem mais questões ligadas ao dia a dia das crianças
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Rubem Alves (1933-2014) foi um consagrado escritor brasileiro, autor de livros como A Escola Com Que Sempre Sonhei e Ao Professor, Com o Meu Carinho, além de importante pensador e crítico da Educação do nosso país. Em maio de 2009, concedeu com exclusividade uma entrevista ao Educar para Crescer, quando questionou o modelo clássico de ensino, no qual o professor se preocupa apenas em passar conteúdos aos seus alunos. "Esse modelo não funciona mais. [...] É preciso saber quais perguntas os alunos estão fazendo. O ensino tem a ver com a capacidade de fazer perguntas. Isso desenvolve a inteligência", defende.

Para o também psicanalista e professor emérito da Unicamp, as escolas de hoje em dia estão muito desinteressantes, sobretudo porque não estão lidando com questões cruciais da vida das crianças, ou seja, não estão aproveitando o seu entorno. "As crianças têm interesse por aquelas coisas ao alcance de suas mãos. Não adianta trabalhar com abstrações", explica.

Defensor convicto do fim do vestibular, Rubem Alves propôs uma forma alternativa de selecionar alunos que querem ingressar numa universidade. "Eu proponho sorteios", radicalizou o educador, que logo explicou: "Seria um exame nacional, do tipo Enem, para ver se os alunos atingem o mínimo de conhecimento. O exame teria, portanto, duas notas: passou ou não passou. Aqueles que tivessem passado por essa fase, iriam para o sorteio".

Mas por que um sorteio? Segundo ele, para eliminar a questão das cotas, uma vez que as minorias discriminadas teriam tanta chance quanto qualquer outro aluno. "As cotas criam muita raiva entre os que entraram assim e quem entrou por esforço próprio", finalizou.

Veja a seguir entrevista completa:


Para ler, clique nos itens abaixo:
1. A escola hoje em dia é muito enfadonha para a criança?
Rubem Alves: A escola é chatíssima. Isso explica o desinteresse das crianças. Para se aprender, a gente tem que lidar com aquelas questões que são cruciais para a vida. As crianças têm questões que são cruciais para a vida delas. A escola não está lidando com elas. Não tendo interesse da escola, não há mágica para que os professores convençam os alunos a estudar. Com honrosas exceções - tem gente se esforçando para mudar isso - a norma é que as escolas são chatas.
2. O que as crianças deveriam aprender na educação básica?
Rubem Alves: O que deveria determinar o programa é o entorno da pessoa que vai aprender. Eu tenho de aprender o meu entorno. Veja uma coisa interessante: eu descobri que as crianças muito pequenas fazem mapas. Uma criança de dois anos faz mapas, o que é um negócio complicado. Na sua casa, ela não anda feito barata tonta, mas sabe perfeitamente qual corredor dá na sala, que dali você sai para a cozinha. Então ela está aprendendo o seu entorno, que é o círculo vital da criança.
3. A casa é um ambiente ideal para a aprendizagem?
Rubem Alves: Sim. Eu imaginei um programa que tomasse a casa como laboratório. Por exemplo, na sala, você aprende ângulos, linhas, proporções. Na cozinha, você aprende química. No banheiro, há lições fantásticas de ecologia, de ambiente. Eu aprendi isso viajando com meus filhos. Eles não tinham o menor interesse pelos cenários maravilhosos que passavam pela janela. Tinham interesse por eles mesmos no banco de trás, um brigando com o outro. As crianças têm interesse por aquelas coisas ao alcance de suas mãos. Não adianta trabalhar com abstrações. Eu fiz um livro que as crianças adoram chamado "Vamos construir uma casa?".
4. O concreto torna a aprendizagem mais agradável?
Rubem Alves: Muito mais agradável. Você vê as coisas, faz as coisas. Eu falo isso a partir da minha própria experiência. Quando era menino, aprendi a usar todas as ferramentas de casa. Pegue a questão da física, por exemplo. As fórmulas da força, da velocidade, da aceleração são uma abstração total. Se você pegar um prego, colocar sobre uma tábua, puser um martelo em cima e perguntar para uma garotinha: vai martelar? Ela vai dizer: não, precisa bater. Quando ela diz precisa bater, está anunciando a lei. A força é massa vezes aceleração. Então, eu penso em ensinar física mecânica com a caixa de ferramentas, que é uma coisa que tem na casa. Por que não se trabalham os materiais que existem numa casa?
5. A escola como único ambiente educacional é limitante ao aluno?
Rubem Alves: Em São Paulo, há um exemplo típico disso: o projeto Aprendiz, do Gilberto Dimenstein. As crianças aprendem nas ruas, nas coisas que estão ao redor dela. Uma das razões para você ter escola é a razão administrativa. É um lugar onde você põe a carneirada toda e trabalha com todos eles ao mesmo tempo. Não é uma razão pedagógica. Agora se você quer aprender sobre a fazenda, tem que ir até lá, colocar a mão na terra, mexer com as plantas. É preciso ir ao lugar para conhecer, porque a escola, querendo ou não, é um ambiente artificial. A vida não está acontecendo lá.
6. Os professores deveriam ouvir mais os alunos e não apenas impor aquilo que está na grade curricular?
Rubem Alves: O Bruno Bettelheim foi um dos grandes educadores do século passado. Quando estava bem velho, numa entrevista, disse que os professores na escola dele tentavam ensinar aquilo que eles queriam ensinar, do jeito que eles queriam ensinar, mas ele não queria aprender. O aluno precisa se sentir respeitado pelo professor. É uma questão fundamental. A minha imagem de professor é ele falando e os alunos quietos. O professor está sempre dizendo "silêncio, silêncio". É preciso saber quais perguntas os alunos estão fazendo. O ensino tem a ver com a capacidade de fazer perguntas. Isso desenvolve a inteligência. Seria bom que isso fosse ensinado nas faculdades de pedagogia e educação.
7. Como preparar melhor o professor?
Rubem Alves: A alma de tudo é o professor. Não adianta programas novos, novas leis, se o professor tiver a cabeça velha. Em nosso modelo clássico, o professor é aquele que sabe a matéria. Ele vai cobrar a matéria. Esse modelo não funciona mais. O professor tem que ser aquele que pergunta, que está junto com os alunos. Não dá respostas, mas provoca os alunos para ver se eles pensam por conta própria.
8. O sistema de repetência nas escolas é eficiente?
Rubem Alves: Repetir um ano inteiro porque você fracassou em uma disciplina, ou duas, é um castigo muito grande, você não acha? Não tem o menor sentido. Mas eu não concordo com o sistema de aprovar todo mundo, de qualquer maneira. Apesar disso, o sistema de repetência é cruel e antipedagógico, além de causar irritação nos alunos.
9. Como incentivar a leitura em uma criança?
Rubem Alves: Às vezes as pessoas me perguntam o que fazer para adquirir o hábito da leitura. Eu digo nada, porque hábito tem a ver com escovar dente, cortar unha, tomar banho. É algo que você faz mecanicamente. É preciso, no entanto, desenvolver o prazer da leitura. Eu tive um professor de literatura, um sujeito extraordinário, que chegou na classe um dia e falou: vocês não precisam se preocupar com presença, quem não quiser assistir aula, não precisa. Ninguém se preocupe com passar de ano, todos vocês já passaram de ano. E por fim, completou: agora que essas questões irrelevantes foram resolvidas, vamos tratar do que importa, que é a literatura.

Ele não ensinava as escolas literárias, análise sintática. Contava as grandes histórias da literatura mundial, com uma paixão comovente. Ele nunca pediu para a gente ler. Eu só me dei conta disso depois de velho. Ele sabia que, se a gente fosse ler, ia odiar a literatura por uma razão muito simples: não sabíamos ler. A gente sabia juntar letras. A minha sugestão é que os professores leiam para os alunos. Assim eles vão ter prazer pela leitura. Ler é uma arte tão complicada quanto tocar piano. O professor tem que dominar a técnica da leitura para surfar em cima das palavras. É preciso que as prefeituras organizem programas de leituras.
10. Você concorda com os livros que normalmente são indicados para o vestibular?
Rubem Alves: Quando você diz que um livro vai ser objeto de exame, já estragou a leitura do livro. A leitura é um exercício de vagabundagem. O aluno não pode ficar tomando anotações e pensando o que vai cair na prova. Outro problema é que quando fazem as listas de livros para o vestibular, começam a surgir resumos das obras. Em vez de ler o livro, o aluno lê o resumo. É a mesma coisa de fazer um resumo da Nona Sinfonia. Um livro não pode ser resumido.
11. Você já chegou a defender o fim do vestibular. Qual seria a alternativa para o aluno ingressar numa universidade?
Rubem Alves: Agora está aparecendo uma alternativa, eu fiquei muito feliz com isso. Mas a minha proposta é um pouco mais radical. Eu proponho sorteios. Seria um exame nacional, do tipo Enem, para ver se os alunos atingem o mínimo de conhecimento, sem ser classificatório. O exame teria, portanto, duas notas: passou ou não passou. Aqueles que tivessem passado por essa fase, iriam para o sorteio. O sorteio eliminaria a questão de cotas porque as minorias discriminadas teriam tanta chance quanto o outro. As cotas criam muita raiva entre os que entraram assim e quem entrou por esforço próprio. Se houver sorteio, esse problema não existirá.
12. E quem não for sorteado?
Rubem Alves: Isso é inevitável. Alguns vão ficar de fora. E vai haver injustiça, mas uma injustiça menor do que a que existe agora. A que existe agora começa pela deformação do processo de pensamento.

 

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