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ENSINO MÉDIO

Jovem de Futuro dá exemplo ao poder público e se espalha pelo país

Projeto surgiu a partir da percepção de que o jovem brasileiro estava enfrentando dificuldades para conseguir uma vaga no mercado de trabalho


25/07/2011 13:15
Texto Ana Nascimento, de Porto Alegre
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Foto: Divulgação
Foto: Grande parte dos estudantes que integraram a primeira etapa do projeto está agora nas universidades
Grande parte dos estudantes que integraram a primeira etapa do projeto está agora nas universidades
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Nilse Trennepohl ingressou no magistério há mais de 30 anos. Há nove, assumiu a direção do Instituto Estadual de Educação Paulo da Gama. Até hoje tem o costume de conversar com pais e alunos no portão da escola. Ela garante que acompanha ao máximo cada um dos cerca de 1.600 estudantes da Paulo da Gama. A escola, que fica em um bairro simples de Porto Alegre, nas imediações do Presídio Central, foi uma das participantes do Jovem de Futuro. Capitaneado pelo Instituto Unibanco, o projeto fornece apoio técnico e financeiro a escolas selecionadas e concluiu com resultados expressivos sua primeira etapa no fim de 2010: o progresso em Matemática obtido pelas escolas gaúchas participantes do projeto só poderia ser alcançado pelas não atendidas em 23 anos.
 
De acordo com Wanda Engel, superintendente-executiva do Instituto, o Jovem de Futuro surgiu a partir da percepção de que o jovem brasileiro estava enfrentando dificuldades para conseguir uma vaga no mercado de trabalho em função do baixo grau de escolaridade. O projeto é uma tentativa de impedir que o estudante deixe a escola antes de concluir o Ensino Médio e, melhor qualificado, consiga não só um emprego, mas um futuro melhor. "Isso impacta diretamente no índice de desenvolvimento social do bairro onde ele mora, da cidade e até do país", explica Vanderson Berbat, coordenador nacional do projeto. 

Ainda de acordo com Vanderson, a iniciativa não tem a pretensão de assumir responsabilidades que cabem ao poder público. "Nós (da iniciativa privada) sabemos muito bem qual é o nosso papel, que é de contribuição com o aperfeiçoamento das políticas públicas, mas não somos responsáveis pela execução da política pública", afirma. O próximo passo é passar o conhecimento adquirido às secretarias estaduais de Educação. Ao menos dois Estados - Goiás e Ceará - já indicaram que pretendem implantar o Jovem de Futuro em toda a rede pública de ensino. 

Grande parte dos estudantes que integraram a primeira etapa do projeto - entre 2007 e 2010 - está agora nas universidades, enfrentando novos desafios. É o caso de Débora de Alencar Cortes, 17 anos, que, com a ajuda do Jovem de Futuro, não só superou o pânico que a acompanhava em cada avaliação, como colocou seu desempenho à prova e conquistou uma bolsa integral do ProUni para cursar Odontologia na PUCRS. "Achava que eu não ia conseguir. Para fazer uma prova, eu ficava mal, ficava nervosa", conta a estudante, que, por mais de um ano, recebeu apoio psicológico de uma profissional do projeto.

Como funciona o Jovem de Futuro 
As escolas que integraram o projeto-piloto ou que estão fazendo parte dele agora, em uma nova etapa, contam com apoio especializado e um aporte financeiro de R$ 100 por aluno ao ano ao longo de três anos - o tempo de conclusão do Ensino Médio. A primeira etapa do projeto começou em 2007 nos Estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Ao ser concluída, em 2010, teve o impacto avaliado por Ricardo Paes de Parros, subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Os resultados mostraram um avanço significativo tanto em Português quanto em Matemática (disciplinas-alvo). De acordo com as notas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que foram utilizadas para efeito de comparação, o progresso obtido pelas escolas gaúchas participantes do projeto em Português só poderia ser alcançado pelas não atendidas em 3,7 anos. Em matemática, a diferença é maior ainda. Sem o projeto, as escolas participantes demorariam 23 anos para alcançar o patamar em que estão hoje. Entre os mineiros, as escolas onde o projeto não foi aplicado precisariam de 3,7 anos para obter os mesmos resultados em Português, e 6,3 anos para alcançar o mesmo índice em Matemática. 

No Rio Grande do Sul, por exemplo, 50 escolas inscritas disputaram em duplas quais participariam do projeto e se pertenceriam ao grupo de intervenção ou de controle - aquelas escolas que foram apenas observadas, para que, ao final do projeto, os resultados pudessem ser comparados. Das 25 selecionadas como intervenção, três não alcançaram as metas estipuladas e não conseguiram avançar após o primeiro ano. As demais precisaram trabalhar duro e mostrar resultados. De acordo com Nilse, cada escola montou seu grupo gestor e passou a estudar onde investir. Quarenta por cento do capital recebido deveria ser destinado a equipamentos e reformas, 30% tinham como foco os alunos, seus projetos e premiações e os outros 30% iam para os professores, também para contemplar projetos, premiações e capacitação. 

Para o Instituto Paulo da Gama, a verba recebida do Unibanco - ao todos R$ 500 mil - representava mensalmente mais do que o dobro do valor repassado pelo Estado, de R$ 6.271,30. O fato de não só ter mais dinheiro para investir, mas decidir em que investir é um dos fatores destacado por Wanda Engel. Ela explica que, normalmente, o diretor da escola pública não tem autonomia, não pode decidir sobre contratações ou demissões, ou onde e o que comprar com o dinheiro recebido do Estado. "Quando a escola pública ganha um pouco mais de autonomia e dinheiro pode mostrar resultados", diz.

"Datashow" não significava nada
"Para nós, datashow era uma palavra que não significava nada", lembra Nilse ao se referir a um dos equipamentos no qual a escola Paulo da Gama investiu graças ao Jovem de Futuro. Os educadores receberam, entre outros prêmios, notebooks e câmeras digitais. Também puderam se aperfeiçoar em cursos com profissionais de suas áreas vindos de outras partes do país. Para a professora de Matemática Rosane Fydryzewski, 36 anos, a experiência valeu a pena. "Serviu principalmente para a gente perceber que é capaz, que consegue, mesmo estando numa escola do Estado, competir em pé de igualdade", afirma. 

De acordo com Nilse, apesar da necessária cobrança em cima das escolas, nunca houve interferência na gestão dos recursos. "O Unibanco não nos disse como trabalhar, ele nos cobrou resultados", afirma. Como já acontecia anualmente, ao fim do projeto as escolas participantes foram premiadas em dez categorias, entre elas, melhores turmas de Português e Matemática, dois dos sete prêmios levados pela Paulo da Gama. Sergio Roberto Queiroz, 56 anos, docente de Português, atribui o excelente resultado ao empenho dos estudantes. "Foi fácil trabalhar porque eles assumiram junto", diz.
Gisele de Morais Fernandes foi uma das estudantes da Paulo da Gama que demonstraram seu poder de superação ao longo do projeto. Aos 26 anos, ela retornou aos bancos escolares incentivada pela família e pela escola. Depois de ter abandonado os estudos na adolescência, grávida, cogitou um supletivo, apenas com o objetivo de concluir o Ensino Médio. Hoje, cursa técnico em Contabilidade e já faz planos para o futuro. "Mudou a minha vida", garante a estudante, que pretende realizar a próxima prova do Enem e ingressar na universidade para cursar Ciências Contábeis. Foram três anos duros em que Gisele dividiu o tempo entre a família - ela tem dois filhos que fazem o Ensino Fundamental na Paulo da Gama e a acompanhavam na ida para a escola, na volta para casa e no intervalo entre as aulas -, a monitoria nas aulas de Matemática e os estudos, mas ela garante que faria tudo outra vez: "Foi a melhor fase da minha vida".

Sem "coitadismo"
O excelente desempenho da escola no projeto levanta a hipótese de que este possa ser o caminho para a reestruturação da Educação no Brasil. Porém, para a diretora Nilse e os professores Sergio e Rosane, apesar de muito importante, sozinha, a iniciativa não se sustenta. A escola precisa estar preparada para recebê-la e disposta a colocá-la em prática. "O projeto é maravilho, mas eu acredito que tem que ter uma estrutura", afirma a diretora. "Se não abraçar, você pode colocar aqui para nós R$ 1 milhão por ano, se não tiver um objetivo para ser alcançado, não será suficiente. Não é só o dinheiro, é o que fazer com o dinheiro, é saber como esse dinheiro pode ser usado", completa. 

Vanderson concorda com a necessidade de mudanças estruturais na Educação pública para um salto na qualidade do ensino, mas destaca que o projeto demonstrou quanta coisa pode ser feita mesmo dentro da realidade atual. "[O Jovem de Futuro] é um esforço antes mesmo da mudança, dentro da estrutura que já existe. Conseguimos ter um impacto significativo no desenvolvimento dos alunos, obter uma melhora significativa mesmo antes das grandes reformas estruturais", analisa. 

Para Nilse, outros fatores também são essenciais no modelo que deu certo: "A gente não trabalha ‘coitadismo’, a gente não acredita nisso. Eu acho que a pior forma de exclusão que se pode fazer com o jovem é aprová-lo simplesmente, é não cobrar, é dizer para ele que ele sabe quando ele não sabe", diz a diretora.

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