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O economista Naercio Aquino Menezes Filho começou a se interessar por Educação quando percebeu que as disparidades nos níveis de ensino da população explicam bastante as desigualdades sociais no país. Desde então, estuda como funciona o sistema educacional brasileiro. Professor do Ibmec, Diretor de Pesquisas do Instituto Futuro Brasil e um dos conselheiros do EDUCAR PARA CRESCER, Naercio defende a popularização do Ensino Superior privado, diz que o governo deve priorizar o Ensino Infantil e é favorável à política de bônus por desempenho a professores. Durante a entrevista à repórter Eliane Scardovelli, o economista também fala sobre os atuais sistemas de avaliação de ensino, os dilemas do Ensino Médio, tecnologia nas escolas, dentre outros temas.
Para ler, clique nos itens abaixo:
- 1- Quais são os principais problemas da Educação no Brasil? Quais são os caminhos para resolvê-los?
- Naércio Aquino Menezes: Vejo quatro problemas principais:
1) A qualidade da Educação em escolas públicas é muito ruim;
2) Há um elevado nível de repetência;
3) O Ensino Médio ainda não é universalizado;
4) Poucas pessoas têm acesso ao Ensino Superior.
Como um problema acarreta o outro, devemos priorizar a base. É preciso aumentar o número de vagas em creches e pré-escolas, estender a carga horária no Ensino Infantil e no Ensino Fundamental, dar mais atenção à formação do professor e melhorar a gestão escolar, criando sistemas de monitoramento e de incentivo para professores e funcionários.
- 2- Como saber se o professor está fazendo o papel dele? Os indicadores são um bom termômetro?
- Naércio Aquino Menezes: Sim. Já temos muitos indicadores. Basta atrelar os incentivos, os salários e a projeção na carreira dos professores a esses indicadores, que são as notas dos alunos em testes como a Prova Brasil e o Saeb.
- 3- Se o Brasil atingir a média 6 no Ideb em 2022, terá uma qualidade na Educação comparável à das nações mais desenvolvidas?
- Naércio Aquino Menezes: O índice 6 é uma média. O alcance da meta não significa necessariamente que todos os municípios alcançaram a mesma nota, mas, pelo menos, estaremos melhores do que hoje. O importante é progredir. O sistema de metas foi desenhado para diminuir as diferenças entre as redes. Ainda haverá desigualdade daqui a 15 anos, mas o objetivo é que haja uma convergência de todas as escolas lá para frente. A métrica é boa. O Ideb é um instrumento confiável para medir a Educação no Brasil, além de permitir a comparação com outros países. Só podemos discutir os detalhes.
- 4- Que detalhes do Ideb são discutíveis?
- Naércio Aquino Menezes: O Ideb é aplicado a cada dois anos. Neste meio tempo, o índice de uma escola pode variar muito, principalmente nas escolas pequenas. São avaliadas turmas diferentes, o que pode gerar uma distorção. Existem muitos fatores que interferem no desempenho do aluno. O IDEB e a Prova Brasil são medidas de desempenho e, como tais, têm imperfeições. Qualquer medida vai mostrar que o ensino público está ruim. O problema não é o termômetro, é descobrir porque o ensino está ruim e como podemos melhorar.
- 5- Que etapa do ensino deve ser foco das políticas públicas?
- Naércio Aquino Menezes: O foco deve ser a Educação Infantil. Muitos estudos mostram que as ações dão maior retorno quando focadas nas crianças pequenas. É nessa fase em que elas desenvolvem as habilidades cognitivas e não-cognitivas, que desenvolvem o raciocínio, a perseverança, a paciência, etc.
- 6- Que medidas tomar para universalizar o Ensino Médio?
- Naércio Aquino Menezes: Muitos chegam ao Ensino Médio atrasados, com 20 e poucos anos. Se surgir uma oportunidade de emprego, saem da escola. Para reter esses jovens, precisamos melhorar a qualidade do ensino. Se o ensino tiver qualidade, se o jovem acreditar que o que ele está aprendendo será útil no mercado de trabalho, ele ficará na escola. Caso contrário, ele a abandonará. E é isso que acontece hoje. O Ensino Técnico é uma boa alternativa, mas a oferta é baixa. Poucos seguem esse caminho.
- 7- Que papel a escola desempenha hoje?
- Naércio Aquino Menezes: Hoje, a escola abarca outras funções de assistência social e acaba deixando de lado a questão do aprendizado. A função primeira da escola é fazer a criança aprender a matéria, basicamente escrever e fazer contas. Há escolas públicas muito boas, às vezes melhores do que as privadas, mesmo em regiões muito pobres. Precisamos divulgar o que essas escolas estão fazendo. Elas provam que é possível fazer bonito. Depende da motivação e capacidade do diretor.
- 8- Como tornar a carreira do professor atrativa?
- Naércio Aquino Menezes: Oferecendo uma boa remuneração, com um salário de entrada razoável e progressão salarial atrelada ao desempenho. Os melhores professores têm de ganhar o equivalente ao que ganham os melhores engenheiros, os melhores economistas, os melhores advogados. Não adianta aumentar o salário de todo mundo - isso não vai melhorar a situação. Tem de aumentar o salário daqueles que ensinam bem e que não faltam às aulas.
- 9- Qual é a sua opinião sobre os cursos de pedagogia?
- Naércio Aquino Menezes: Em geral, são muito ruins. Você percebeu que está tudo errado, né? Qualquer ponto em que você pare, há problemas. A família não motiva o filho a ir para a escola, os cursos de pedagogia são ruins. Para chegar à situação atual, todos os elos estão errados. Os cursos de pedagogia não preparam os professores para o dia-a-dia da sala de aula. O professor estuda filosofia, conhece todos os pensadores da Educação, mas não sabe como lidar com 30 alunos desinteressados.
- 10- O governo de São Paulo limitou recentemente o número máximo de faltas que o professor pode ter por ano. Essa iniciativa deveria ser adotada por mais estados?
- Naércio Aquino Menezes: Sim. Pouquíssimas profissões permitem tantas faltas como a do professor. Minha mãe, que é professora conta que os colegas têm um papo assim: 'Quantas faltas você ainda tem?' 'Quatro.' 'Oba! Então vou emendar uma semana.' Como pode acontecer uma coisa dessas? Aí vem um substituto, que não tem programa nem currículo para dar aula. Ele não tem a mínima idéia do que o outro professor estava passando, então começa a conversar com os alunos. Todo mundo zoneando e ele lá. O professor dá aula em uma escola pública e outra particular e precisa ir ao médico. Onde ele vai faltar? Na pública, porque consegue abono.
- 11- O Brasil investe pouco em Educação?
- Naércio Aquino Menezes: Investimos pouco e mal, mais mal do que pouco. O nível de gasto é semelhante ao de outros países. Gastamos 10 vezes mais com um aluno de Ensino Superior do que com o de Ensino Fundamental. Geralmente os que entram em instituições públicas de Ensino Superior são alunos com alto poder aquisitivo, que teriam condições de pagar. Então gastamos 10 vezes mais com alguém que pode pagar. Além disso, os gastos não estão condicionados ao desempenho. Há municípios que gastam seis mil reais por aluno por ano, e a nota no Ideb é menor do que a de municípios que gastam apenas mil reais. Aliás, pense em como mil reais por ano para cada aluno é pouco... Isso é o que muitos pais de classe média alta pagam por mês para o filho estudar em uma escola particular.
- 12- Está claro que a Educação no Brasil enfrenta muitos problemas. Mas estamos no caminho certo para resolvê-los?
- Naércio Aquino Menezes: Estamos. A sociedade está mais mobilizada do que há alguns anos. Antes quase ninguém se importava com a Educação. Agora, temos iniciativas como o EDUCAR PARA CRESCER e o Todos pela Educação, além de vários empresários mobilizados. O espaço da mídia dedicado ao assunto aumentou bastante de lá para cá. Acho que isso acontece, em parte, por conta de medidas como o Ideb, que escancaram a calamidade da nossa situação. Mas a conscientização ainda não chegou à maioria dos pais. As elites se mobilizam primeiro. Os empresários, a mídia, os pesquisadores, os economistas detectam que há algo errado. Até chegar nos pais da criança ou do jovem leva um tempo. A informação tem que ser mais disseminada, tem que estar na rádio local. As pessoas precisam ouvir 'Cobre o Ideb do seu prefeito!', 'Sabe qual é o Ideb do nosso município?', 'Seu filho não está aprendendo nada!'
- 13- Como o senhor avalia a gestão do governo Lula na Educação?
- Naércio Aquino Menezes: Vivemos um processo de continuação da gestão FHC. O PSDB criou muitas medidas de avaliação, mas não trabalhou na divulgação dos resultados por escolas. O PSDB, com o Paulo Renato no Ministério da Educação, criou a base, estruturou as avaliações. O começo do governo petista patinou, mas depois o atual ministro Fernando Haddad colocou ordem na casa. Foram estabelecidas metas para cada município e para cada escola com base no Ideb. Isso foi muito bom.
- 14- É interessante para a empresa o engajamento em ações pela melhoria da Educação pública?
- Naércio Aquino Menezes: Para um economista, o raciocínio é simples. A mão-de-obra mais educada é mais produtiva, então a melhora na Educação leva a um aumento de produtividade das empresas. O crescimento hoje é baseado em novas tecnologias. Os trabalhadores devem aprender a lidar com novas formas de pensar e de produzir. Para isso, precisam de ensino de qualidade. As empresas têm um motivo até egoísta para investir em Educação. Está começando a faltar mão-de-obra educada, principalmente em áreas como engenharia, tecnologia, etc. Vários institutos ligados à iniciativa privada têm programas de aceleração de aprendizagem, de capacitação de professores. Essas iniciativas são bem vindas, mas não resolvem o problema.Os empresários podem ajudar os governos na parte de gestão, em como usar melhor os recursos, mas é função do Estado cuidar da Educação, principalmente das instâncias municipais e estaduais. É obrigação dos governos fornecer Educação de qualidade.
- 15- Quais os principais desafios do Ensino Superior?
- Naércio Aquino Menezes: Ainda há pouca gente com nível superior no Brasil, se o número for comparado a outros países. Há uma idéia elitista de que só podemos fazer faculdades boas, de que os cursos estão piorando. É um argumento para impedir que as pessoas tenham acesso a esse tipo de formação. O Ensino Superior, mesmo na faculdade ruim, agrega alguma coisa para o aluno. Ele faz a opção - a meu ver, acertada - de pagar mensalidades durante quatro anos. Ao final do curso, deve passar por um exame, e o resultado deve ser amplamente divulgado para a sociedade. Minha visão sobre Ensino Superior é bem liberal. O governo não deve se preocupar tanto com isso.
- 16 - Por que há tantas vagas ociosas no Ensino Superior?
- Naércio Aquino Menezes: Vejo basicamente dois problemas: 1) As pessoas não têm como pagar, são sujeitas à restrição de crédito; 2) Muitos não acreditam que a faculdade seja útil. Como a qualidade da Educação Básica é muito ruim, o jovem não vê perspectivas no Ensino Superior. Para se ter uma idéia, sobram vagas no ProUni, já que a concessão de bolsas é condicionada ao bom desempenho dos alunos no Enem. Sem contar que muitas vezes os números oficiais de vagas nas faculdades é superestimado, para que elas possam se ampliar no futuro.
- 17 - Qual é a sua opinião sobre o Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes)?
- Naércio Aquino Menezes: O governo federal ainda não conseguiu criar um sistema de avaliação que funcione corretamente para o Ensino Superior. Os indicadores para essa etapa da Educação não evoluíram tanto como os para o Ensino Básico. Um bom medidor deveria acompanhar o mesmo aluno desde o final do Ensino Médio, tomando por base o seu desempenho no Enem, até o último ano de faculdade, de forma a avaliar a sua evolução. Assim, teríamos um termômetro para mostrar que faculdades agregaram mais valor. E o mais importante é divulgá-lo o máximo possível.
- 18- O governo deve priorizar a criação de vagas em universidades ou aumentar os recursos de programas como o ProUni?
- Naércio Aquino Menezes: Considero o ProUni um programa muito bom. Também aprovo a criação de mais vagas nas federais. Podemos fazer as duas coisas ao mesmo tempo, como já está sendo feito. Mas é impossível resolver o problema do Ensino Superior com o sistema público. As vagas são limitadas, e o Estado não tem condições de replicar o modelo de universidades para atender todo mundo. O governo pode criar uma escola aqui e ali, mas o impacto no total de pessoas com acesso ao Ensino Superior é mínimo. Hoje em dia, apenas cerca de 30% de todos os alunos que saem do Ensino Médio vão para a faculdade. A solução é escola privada, não tem jeito. Mas elas devem ser reguladas.
- 19- De que forma os anos de estudo influenciam o nível de renda da população?
- Naércio Aquino Menezes: Quem termina o Ensino Médio ganha em média mil reais. Quem termina a faculdade ganha cerca de três vezes mais, ou seja, 3 mil reais. Um aumento de 200% para o resto da vida. Por isso, vale a pena o investimento que o aluno faz ao bancar uma faculdade privada. Ele paga 500 reais durante 4 anos e, em 10 anos, já recupera esse investimento. As pessoas têm muito medo de fazer financiamento, medo de contrair dívidas.
- 20- Qual é a missão que a tecnologia tem para a Educação?
- Naércio Aquino Menezes: Alguns estudos indicam que o aluno com acesso a computadores e à internet não aprende mais do que o que não tem. Fui um dos primeiros a encarar essa questão da tecnologia aplicada à Educação com muitas ressalvas. Quando o governo quer mostrar serviço, anuncia que vai colocar computadores na escola. Mas o computador ajudaria só se o professor estivesse motivado a dar aula, se ele tivesse aprendido o que tem que ensinar às crianças - essa é a prioridade. Sem isso, as crianças vão usar o computador só como videogame. No atual estágio em que se encontra a Educação brasileira, não é o computador que fará a diferença.