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ENEM

Para que serve o Enem?

Ouvimos especialistas em Educação para esclarecer dúvidas freqüentes em relação ao Enem


08/05/2014 18:56
Texto Marina Azaredo e Camilo Gomide
Educar
Foto: Dreamstime
Foto: enem
Segundo o sociólogo Simon Schwartzman, o Enem avalia as habilidades gerais do aluno
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O que o Enem avalia? Podemos medir a qualidade de uma escola pelo desempenho de seus alunos na prova? Ele é um bom parâmetro para avaliar a Educação brasileira? 

As mudanças recentes no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), anunciadas pelo governo, provocaram polêmica em torno da prova e de seus objetivos. Muito tem sido dito sobre o exame do ensino médio, mas ainda faltam definições concretas, o que tem causado confusão em estudantes, pais, professores e profissionais da área. Uma das distorções mais frequentes ocorre quando a nota dos alunos no Enem serve de base para a criação de rankings de escolas. 

Para entender melhor os propósitos do exame e as conseqüências da transformação da prova, o Educar Para Crescer consultou três especialistas em Educação. Nas questões abaixo, o sociólogo Simon Schwartzman, presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, o professor da faculdade de Educação da USP Nelio Bizzo e o coordenador de vestibular do Colégio Bandeirantes, em São Paulo (SP), Osmar Antônio Ferraz, ajudam a esclarecer algumas dúvidas sobre o Enem.

Leia também: O novo Enem

 


Para ler, clique nos itens abaixo:
1. O que o Enem avalia?
Simon Schwartzman: A prova do Enem avalia, sobretudo, habilidades gerais dos alunos que estão concluindo o ensino médio. Ao invés de cobrar conteúdos específicos, como no tradicional vestibular, o exame analisa a capacidade de leitura, interpretação de texto e a aplicação de conceitos dos estudantes.

Nelio Bizzo: O Enem foi proposto inicialmente para aferir a capacidade de raciocínio dos alunos, na tentativa de diminuir as desigualdades entre estudantes de escolas públicas e particulares. O modelo, no entanto, tem se mostrado muito mais eficiente para medir o nível de leitura e interpretação de textos dos candidatos do que o raciocínio. A habilidade leitora é muito mais desenvolvida pelas classes mais privilegiadas, que possuem acesso maior à escolarização e bens culturais.
2. O que o Enem não avalia?
Simon Schwartzman: O exame não avalia o conteúdo específico da aprendizagem. Não verifica se o aluno aprendeu o que o currículo do ensino médio deveria ensinar. Isso tem a ver com o fato de que, no Brasil, nós não temos um currículo muito bem definido. Alguns países têm uma grade curricular muito mais estruturada. Os alunos, ao final do ensino médio, têm que saber determinados conteúdos de matemática, geografia, história, etc. No Brasil, isso não é bem delimitado. Temos alguns parâmetros curriculares, mas eles são muito vagos. E o Enem não mede isso. Portanto, é impossível saber se os alunos estão aprendendo e o que eles sabem.

Osmar Antônio Ferraz: Ao contrário dos vestibulares, o Enem não avalia conhecimentos específicos de maneira aprofundada. Mas não é verdade que ele não o faça: esses conhecimentos específicos são abordados de maneira interdisciplinar.
3. Qual é a implicação de ler o resultado do Enem por escola, já que a prova é feita para avaliar competências de alunos?
Simon Schwartzman: O Enem foi pensado para avaliar os alunos, e não as escolas. Interpretar as notas dos alunos como se fossem das escolas pode causar algumas distorções. Um dos problemas é que o Enem é um exame facultativo, apesar de muita gente fazer a prova (70% dos alunos do ensino médio, segundo estimativas). Logo, nem todos os estudantes fazem a prova. Se pensarmos que só os melhores alunos é que prestam o exame, que é o pessoal que pretende entrar na universidade, isso vai dar uma informação deformada. Ou seja, aqueles que são piores, que têm a pior formação e que não vão se candidatar para a universidade não fazem a prova. Portanto, essa amostragem não serve como parâmetro.

Nelio Bizzo: Criar um ranking de escolas a partir dos resultados do Enem pode resultar numa deformação da realidade, no seguinte sentido: uma escola que tenha um número pequeno de alunos participando do Enem aparece com uma média artificialmente alta, enquanto uma escola que tenha um número grande de alunos participantes vai ter uma média menor. Afirmar que uma escola com uma média alta no Enem tem um ensino melhor é uma leitura superficial. A amostragem de um exame como esse precisa ser muito rigorosa. E a amostragem do Enem atualmente não é rigorosa.
4. Há uma maneira correta de ranquear o resultado do Enem?
Simon Schwartzman: A ideia de ter um padrão de avaliação dos alunos no final do ensino médio é importante. Os países europeus têm uma longa tradição nesse tipo de análise. É o caso do Abitur alemão e do Baccalauréat francês. Normalmente eles fazem provas bastante aprofundadas, com parte escrita e parte oral. Os alunos normalmente escolhem algumas matérias pelas quais eles têm maior interesse e onde se concentraram os estudos deles. Depois, recebem um certificado que diz que eles são capacitados e estão aptos a entrar na universidade. Já os Estados Unidos têm o SAT, que é uma prova muito bem feita, que mede não só essas habilidades gerais, mas também conhecimentos específicos nas principais áreas do aprendizado. As universidades utilizam isso não para avaliar o curso, mas para avaliar os alunos. Normalmente, essas coisas não são feitas para avaliar a escola. Mas, se você contar quantos alunos a escola consegue colocar nos níveis mais altos do exame, acaba sendo uma maneira de avaliar o resultado da instituição, indiretamente.

Nelio Bizzo: Se a amostra não é rigorosa não há como corrigir os resultados sem cometer alguma heresia. Para fazer uma comparação entre escolas e organizá-las em um ranking é preciso ter certeza de que as amostras são iguais. E não é o que vem sendo feito com o ranqueamento das escolas através do Enem. Médias de escolas de mil alunos estão sendo comparadas com médias de escolas de dez alunos. Dessa maneira, a nota está sendo incrivelmente distorcida.

Osmar Antônio Ferraz: É preciso ressaltar que não é o MEC que faz o ranking das escolas, e sim a mídia. Considerando os moldes da prova até a última edição, é possível dizer que esse ranking não deveria ser feito de maneira alguma, nem por escola nem por aluno, pois os resultados individuais só podem ser consultados pelo próprio aluno - e isso assim deve permanecer.
5. A mobilidade que o novo Enem proporciona não prejudica os alunos menos favorecidos financeiramente?
Simon Schwartzman: Essa é uma outra questão. O ideal seria que existissem bolsas de auxílio para estudantes de baixa renda. Uma pessoa do Acre que vem estudar na USP deveria receber dinheiro para poder se sustentar em São Paulo. Isso não ocorre nesse momento no Brasil. Depois, existe um problema: há pessoas que não conseguem disputar os melhores lugares. Temos que pensar em um sistema educacional que dê diferentes oportunidades e tipos de formação para pessoas com níveis diversos de desenvolvimento educacional. Uma pessoa que mal terminou o ensino médio em uma escola ruim e nunca aprendeu direito não pode pretender ir para uma boa faculdade de Engenharia. Esse aluno acaba tendo que buscar uma Educação técnica, profissional, adequada à realidade dele. Não adianta pegar essa pessoa e colocar em um lugar onde ela vai ser reprovada e não terá condições de aprender.
6. O Enem pode servir de referência para os pais escolherem a melhor escola para os filhos?
Simon Schwartzman: Pode, mas não como o único critério. O conteúdo que o aluno aprende é importante, mas não é o único fator de escolha. O ambiente que ele vai ter e que tipo de relação interpessoal são outros fatores que devem ser observados com atenção. A qualidade do aluno que sai da escola refletida em uma prova como o Enem é apenas uma das referências na hora dessa escolha.

Osmar Antônio Ferraz: É inegável que o Enem virou uma referência na hora de os pais escolherem as escolas dos filhos. E o resultado é que muitos colégios, principalmente as de ensino médio, tem o Enem como seu grande foco, o que não ocorre aqui na nossa escola. Nosso objetivo é formar líderes e provar no vestibular. E os pais devem estar muito atentos a essas propostas, bem como às instalações, aos laboratórios, à tecnologia e à biblioteca, à infraestrutura da escola em geral.

 

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