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Os relatos dos professores que aparecem nesta reportagem lançam luz sobre um problema hoje disseminado nas escolas - públicas e particulares - do país: a relação com os alunos é tensa, quando não violenta, e motivá-los nunca foi tão difícil. Para ensinar, é preciso enfrentar toda sorte de adversidades, da indisciplina que reina na sala de aula a, em casos mais extremos, agressões físicas. A essas situações, soma-se ainda o desafio de trabalhar, muitas vezes, em lugares onde não há sequer a infraestrutura mínima, como nas escolas em que chega a faltar energia elétrica. Um conjunto recente de números ajuda a mostrar quanto tudo isso piora o clima na sala de aula. Para se ter uma ideia, 52% dos professores ouvidos em pesquisa da International Stress Management Association (Isma), feita em São Paulo e Porto Alegre, admitem atitudes agressivas com seus alunos, tendo sido irônicos ou até rudes. Não para por aí. Os próprios professores também são vítimas do ambiente ruim: de acordo com dados da Unesco, 47% já sofreram agressões verbais vindas de alunos. Nesse contexto, não causa espanto o que conclui um estudo de abrangência nacional conduzido pela educadora Tania Zagury: ele mostra que as maiores dificuldades enfrentadas pelos professores são justamente manter a disciplina e despertar a atenção dos estudantes - duas das condições básicas para uma boa aula. Diz Tania, em coro com outros especialistas: "Não há dúvida de que o desafio de ensinar ficou maior".
Conflitos são inerentes à relação professor-aluno, e não estão circunscritos às escolas brasileiras. "Os choques são constantes em salas de aula do mundo todo", afirma o ex-professor François Bégaudeau, protagonista e roteirista do premiado Entre os Muros da Escola, filme que retrata a rotina de um colégio público no subúrbio de Paris, onde os alunos estão entediados, os professores vivem frustrados e o convívio é penoso - como em tantos colégios no Brasil. Uma das fontes do problema é o "choque de gerações". Não é apenas que os professores lancem mão de referências que pouco têm a ver com o cotidiano dos estudantes: a própria moldura de pensamento nas duas pontas da sala de aula é diferente. Enquanto os professores preservam a tradição das aulas expositivas, como nas escolas do século XIX, os estudantes estão imersos numa cultura digital que estimula o raciocínio não linear. "As escolas não acompanharam as transformações na sociedade, sobretudo em relação ao uso da tecnologia, daí o desinteresse dos jovens", diz a educadora Márcia Malavasi, da Unicamp.
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- 1. Como deve ser uma boa aula?
- As concepções do que deva ser uma aula são também desencontradas. Uma pesquisa da consultoria nGenera, feita nos Estados Unidos, mostra que 67% dos jovens consideram que estudo e trabalho precisam ser prazerosos - dados que ecoam no Brasil. Já os professores sempre associaram tais atividades ao esforço, quando não ao sacrifício. "Os alunos esperam uma aula-show e os professores não acham que deva ser assim. Existe um descompasso", conclui Márcia. Erodiu-se, por fim, um dos pilares do trabalho de transmissão de conhecimento - o princípio de autoridade do professor. Foi um processo de longo curso, iniciado nos anos 60, com a ascensão dos movimentos estudantis e da contracultura, que puseram em xeque o conceito de hierarquia. Poderia ter sido um bom passo para as instituições de ensino caso significasse apenas o fim do autoritarismo - e não a contestação absoluta da noção de autoridade. "Crianças e adolescentes sentem que podem agir como quiserem. A escola foi prejudicada por essa permissividade", diz o especialista Claudio de Moura Castro.
- 2. O desempenho da classe é atingido pela situação da escola?
- A situação de ensino tende a refletir relações sociais deterioradas fora da escola. É assim nos bairros de imigrantes na França, nos guetos americanos ou nas áreas mais pobres em grandes cidades brasileiras. Os altos índices de violência no Brasil tornam ainda mais difícil, por vezes impossível, a tarefa de ensinar. Em uma pesquisa da Unesco, 20% dos alunos brasileiros de escolas públicas acusam a presença de gangues em seu colégio e 10%, de tráfico de drogas. "Cheguei sonhando aplicar Piaget, mas logo entendi que, antes, precisava humanizar alunos vindos de ruas e lares dominados pela brutalidade", conta Marcelo Rolim, 42 anos, diretor de uma escola estadual na favela do Acari, no Rio de Janeiro. A violência pode se tornar tão acentuada a ponto de os professores terem medo de repreender os alunos. "Quando é preciso se preocupar com segurança, o ensino acaba ficando em segundo plano", reconhece Isabel Ribeiro, 35 anos, professora numa escola pública de Brasília onde alguns dos alunos já foram parar na delegacia por furto e porte de drogas. Mesmo quando a violência não alcança tais níveis, os professores percebem o ambiente hostil, em que manter a ordem é missão duríssima. Piora o cenário não contarem com o apoio dos pais, que, se não estão ausentes, aparecem para defender os filhos. "Eles costumam ficar incondicionalmente do lado dos filhos", diz a psicóloga Marilda Lipp, da PUC de Campinas. "Não impõem limites em