A escola pública no Brasil muitas vezes é associada à falta de infraestrutura, ao ensino fraco, às péssimas condições de trabalho para os professores e à falta de tecnologia. A pesquisa O uso do computador e da internet nas escolas públicas de capitais brasileiras revelou, no entanto, que um desses pontos pode não passar de mito. Pelo menos nas capitais. Realizada pela Fundação Victor Civita, a pesquisa mostra que 98% das escolas têm computadores e 83% têm acesso à internet. Os questionários foram aplicados em 400 escolas de 13 capitais brasileiras: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo.
O problema do acesso à tecnologia, no entanto, não está totalmente superado. "A maioria das instituições ainda não conseguiu inserir a tecnologia em seu projeto pedagógico", afirma Angela Cristina Dannemann, diretora executiva da Fundação Victor Civita. "A pesquisa mostrou que a principal razão disso é a falta de formação dos professores para utilizar os recursos em sala de aula".
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- Quem usa o computador
- O levantamento indica que, apesar de a grande maioria das escolas ter pelo menos 11 computadores, 74% dos professores não se sentem preparados para usar a tecnologia na formação inicial. O resultado é que o equipamento acaba sendo usado muito mais pelos funcionários administrativos (4,7 dias por semana) do que por professores e alunos durante as aulas (apenas 2,6 dias por semana).
- Como o computador é usado
- Outro ponto relevante é o fato de que, entre os professores que utilizam os computadores com seus alunos, 74% deles acabam realizando atividades menos complexas como digitação e edição de texto. Ou seja, nesses casos o computador é utilizado quase que como uma máquina de escrever moderna. "Uma solução para essa subutilização da tecnologia nas escolas públicas seria a inclusão do computador e da banda larga no projeto pedagógico escolar. Acreditamos que essa é uma das formas mais eficazes de garantir que as máquinas se tornem de fato ferramentas serviço da aprendizagem dos conteúdos curriculares", afirma Angela. A pesquisa mostrou que 17% das escolas analisadas ainda não possui conexão de banda larga.
- As conclusões da pesquisa
- Entre as principais conclusões do estudo, estão o fato de que, quanto maior o tamanho da escola e os recursos e a infraestrutura disponíveis, mais proficiente é a utilização do computador e da internet no processo de aprendizagem; a presença do professor de informática influi na utilização da tecnologia como ferramenta de aprendizagem; e a tecnologia deve ser integrada ao projeto pedagógico da escola, no seu monitoramento e avaliação e ao planejamento de atividades pelo professor (leia mais sobre a pesquisa.
- Como expandir o acesso à tecnologia na escola
- Para Roseli Lopes de Deus, pesquisadora do Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e uma das coordenadoras do estudo, é preciso investir ainda mais em equipamentos e mobilidade. "O acesso à internet é tão importante quanto à eletricidade e ao saneamento básico, pois é a possibilidade de se conectar e aprender sempre que vai tornar os jovens mais preparados para o mundo do trabalho."
No entanto, especialistas acreditam que a simples aquisição de equipamentos não vai resolver o problema do mau uso da tecnologia na escola. "O mais comum é a escola receber equipamentos, montar um laboratório e criar mais uma 'disciplina' de informática, o que é muito ruim. Em vez de incorporar as tecnologias como ferramentas de ensino, muitos professores continuam dando suas aulas de um jeito muito tradicional", afirma Lea Fagundes, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
"Essa pesquisa dá um retrato da situação das escolas das capitais brasileiras, mas não podemos atribuir as deficiências que temos somente à falta de infraestrutura. O nosso maior desafio é criar a cultura da utilização da tecnologia entre os professores. E tecnologia não é só computador. Até com celulares e câmeras digitais, é possível fazer trabalhos interessantes", completa Luciana Allan, diretora do Instituto Crescer Para a Cidadania.
- Uma solução: incluir no planejamento pedagógico
- Ainda segundo as conclusões do estudo, a inclusão da tecnologia no planejamento pedagógico é realmente eficaz. Das escolas entrevistadas, 17% conseguiram realizar essa inserção e, com isso, alcançaram um nível mais avançado do uso pedagógico dos recursos tecnológicos na Educação. O mesmo vale para os professores. Treze por cento dos educadores que participaram da pesquisa inseriram a tecnologia no seu roteiro de aulas e, com isso, conseguiram elaborar atividades mais interessantes.
- Bom exemplo na sala de aula
- Neste ano, nove dos dez professores contemplados com Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 apresentaram projetos que usavam de alguma maneira a tecnologia. A grande vencedora, que ficou com o título de Educadora do Ano, foi a professora de Geografia Karla Veloso, do Centro Educacional NDE UFLA, em Lavras (MG). Ela percebeu que seus alunos do 8º e do 9º anos tinham um acesso muito grande ao computador, mas sequer sabiam fazer pesquisas na internet. A partir dessa constatação, resolveu explorar as possibilidades de uma ferramenta oferecida à escola pela Universidade Federal de Lavras. Ambiente virtual, como é chamada a ferramenta, é uma espécie de rede de relacionamento online a serviço da Educação. Por meio do ambiente virtual, Karla começou a acompanhar à distância as lições de casa, a publicar tarefas na página do sistema e a incentivar a pesquisa, o debate de ideias em fóruns de discussão, a utilização de chats, a leitura de textos de referência e a busca por sites de pesquisa confiáveis.